Jovens e a cidade de “seis donos”

O texto abaixo foi publicado em setembro de 1987 no semanário impresso A Província. Falava sobre o pensamento dos jovens a respeito de Piracicaba. Recuperamos para lembrar os 30 anos de atuação em Piracicaba.

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Já que aqui o assunto é a Província, nada melhor que procurar saber o que os jovens estão pensando dela. Convidamos então, seis jovens residentes na cidade para um bate-papo, onde cada um teve total liberdade para expor suas opiniões e anseios.

Vamos conhecer um pouco de jovens “mancebos”: Marcelo Zacarias, 20 anos, solteirinho estudante de processamento dados; Ricardo Leite, 21 anos, também descompromissado estudante de jornalismo; Marcelo Gurgel Viegas, anos, vulgo “Jai”, estudante de agronomia e membro da diretoria do Calq; Sebastião das Chagas, 36 anos, agrônomo, que esteve acompanhado da esposa Antoninha, ambos estudantes de direito;  e finalmente Rita de Cássia Augusto, 25 anos e estudante de psicologia.

Que significa para eles viver em Pira. Todos consideram a cidade bastante conservadora: os valores e os costumes não acompanharam seu evolução crescimento, e a maioria deles consideram-na bastante “fechada” também, ou seja, o relacionamento entre as pessoas é difícil.  Acreditam que existem grupos “fechados” e que é praticamente impossível penetrar nesses grupos. São as conhecidas “panelas”.

Os únicos que não participam totalmente dessa opinião são o Preto e a Toninha: casados, eles já têm um outro nível de relacionamento com as pessoas e seu círculo de amizades está formado.

O Jai acredita que esse individualismo não é específico da província, as pessoas têm buscado soluções para os problemas conjunturais sozinhas, e acabam se individualizando demais.

Segundo ele, a cultura determina aspectos individualistas, regionalmente, mas o individualismo é generalizado.

Lazer: existem opções de lazer na cidade? 

A Cássia curte teatro mas reclama do preço. Afirma que os artistas da cidade não são valorizados e que as peças trazidas para a cidade são aquelas em que participam os chamados atores globais.

O Marcelo admite que a cidade oferece algumas opções de lazer, porém os preços em geral são altíssimos, e o Jai acredita que para as classes menos favorecidas simplesmente não há lazer.

E o amor na Província? 

A Cássia mostra-se bastante preocupada e sente-se sem respostas para o que acontece atualmente em termos de relacionamento: “as pessoas se olham, se paqueram, mas ninguém quer assumir compromissos mais sérios”. As pessoas não se namoram mais, apenas se “curtem”.

O Jai diz que tipos aburguesados não lhe interessam, enquanto o Ricardo afirma que “cara duro” não tem vez com as menininhas — “a gente fica na praça paquerando uma menina, aí chega um cara de moto e ela sai com ele”. Atenção, meninas, para as reclamações dos jovens mancebos da Província!

E preconceito, existe na cidade?

Quando a pergunta foi feita, a Cássia foi a primeira a se manifestar. Ela é negra, mas começou falando sobre o preconceito em relação aos homossexuais: “as pessoas costumam fazer piadinhas grosseiras referindo-se a eles”.

Quanto ao preconceito racial, ela diz que não o havia percebido até o último carnaval ao ser barrada na porta do Clube Coronel Barbosa, quando participava de um bloco de 70 pessoas. Foi a única a ser barrada, por ser negra. Cássia entrou com um processo contra o clube e o caso está na Justiça.

Ela reclamou também que na época os jornais de Piracicaba nada publicaram sobre o ocorrido. Um jornal de Piracicaba chegou a fazer uma matéria com ela, mas não publicaram, explicando que o citado clube tem uma coluna em diários locais e que a publicação da matéria prejudicaria a ambos.

O Jai ressalta o preconceito contra os estudantes. Segundo ele, o Calq, de cuja diretoria ele faz parte, já tentou organizar várias atividades envolvendo a população em geral, entre elas, aulas de dança. “Nada foi pra frente, principalmente com as crianças, pois as mães não permitiam sua participação”.

Nessa hora, a Toninha que é mãe, interrompeu dizendo que, depois da cognominação “Amsterdã” dada pela Globo, as mães, preocupadas, realmente passaram a segurar mais seus filhos.

De acordo com o Ricardo, o preconceito não existe só aqui, é generalizado; e o Preto arrematou dizendo que ninguém tem o direito de julgar ninguém. “Antes de se condenar uma pessoa, tem-se que colocar no lugar dela e ver os motivos que a levaram a seguir determinado caminho”. Ele se referia a homossexuais, toxicômanos, etc.

E a Toninha desabafou: “a gente não pode dizer tudo o que sente para algumas, pessoas da cidade; não se pode expor as idéias abertamente, tem que se policiar o tempo todo para não correr o risco de ser marginalizada”.

O Marcelo, com suas roupas negras e cabelo arrepiado, sente-se censurado e discriminado pelo seu jeito extravagante de se vestir. “Enquanto os outros penteiam o cabelo, eu despenteio o meu; enquanto todo mundo quer pôr brinco na orelha eu quero por no nariz; mas isso é problema meu” — desabafa.

A Malu da equipe de reportagem não se segurou e disse: “Você tem que entender que é difícil para o pessoal do Interior, aceitar comportamentos mais liberais”, ao que o Ricardo contestou dizendo que as pessoas daqui, estando em São Paulo, aceitam determinados comportamentos que não aceitam aqui: “Em São Paulo é normal, aqui não”. E acrescentou que assim a cidade não cresce por dentro, pois as pessoas não podem se expressar.

E a política, como vai na Província? 

O Jai com outra pergunta, responde: “isso que se vê por aí é política mesmo?”. O Ricardo afirma que o desinteresse pela política é geral devido à falsidade dos políticos e completa: “quanto à forma de se comandar Piracicaba, é arcaica e o coronelismo impera” Segundo ele, a cidade tem seis donos, “foi um ditado que ouvi e o ditado é popular”.

A Cássia não concorda totalmente e afirma que há uma “panelinha” e que somente três pessoas “cozinham nessa paneIa”: João Herman, Thame e Adilson.

O Preto que pretende se candidatar a vereador nas próximas eleições diz conhecer o trabalho de alguns políticos e os defende ferrenhamente. Aí o Jai se manifesta dizendo que o jovem se afasta da política pois acredita que com seu trabalho, sua honestidade ele já contribui bastante e acrescentou que não falta capacidade aos políticos, mas um interesse real pelos problemas do povo.

A Toninha acredita que o afastamento dos jovens da política deve-se à falta de informações e embasamento para discutir determinados assuntos, como Capitalismo por exemplo. “Foram vinte anos de ditadura e repressão”. E a Cássia completa: “alguns jovens são alienados, mas não é culpa deles e, sim, da conjuntura social e política em que cresceram”.

Para terminar foram questionados sobre o seu relacionamento com a cidade em geral. Aqueles que se manifestaram foram unânimes em afirmar que o relacionamento é insatisfatório. Alguns ainda acrescentaram que “moram” na cidade, nas não “vivem” aqui.

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