Lírica discrição da praça central, nos 1900

João Miguel Amaral, que durante anos escreveu para o Jornal de Piracicaba, formou-se professor em1917. Mas suas lembranças da Piracicaba datam ainda da época de estudante. O registro, publicado no Jornal de Piracicaba, dá uma idéia do jardim público, atual Praça José Bonifácio, ao início do século:

…”no meu tem o de estudante – lá s evão para mais de 5 0anos – o jardim público de Piracicaba ocupava apenas um quarteirão, o mais próximo da Catedral.Pela quantidade de árvores seculares, frondosas, muito unidas, enredadas de cipós, entremeadas de palmeirinhas, bananeira-palma e várias outras espécies vegetais menores, a quadra merecia antes o nome de bosque. Dois passeios calçados, pouco mais ou menos de forma elíptica, serviam aos freqüentadores e transeuntes. O passeio interno rodeava um tanque todo de mármore, também elíptico, no meio do qual se elevava o belo chafariz de mármore, composto de um pedestal sustentando uma como que grande fruteira de mesa com três pratos sobrepostos, de desigual tamanho. A água do repuxo central, caindo de prato em prato, até o tanque, envolvia o chafariz como véu de tule. (NR: A referência é ao chafariz doado por Júlio Conceição, filho do Barão de Rezende, para a inauguração da canalização da água em Piracicaba, em final do século XIX.) De bicos invisíveis, nas margens do tanque, saíam jorros parabólicos em direção ao chafariz.

O segundo passeio seguia em meio ao arvoredo, cortado por oito saídas retas, desde o passeio central até os lados e os cantos do retângulo. Os passeios se proviam de bancos coletivos, pintados de verde, muito cômodos, com assento e encosto de gradil de madeira e pés de ferro. Nos dias ensolarados ali se reuniam os amigos para dois dedos de prosa, ou vinha algum solitário em busca de repouso para o espírito, na quietude do ambiente, talvez mesmo por um pouco de refrigério. Nos domingos, à noitinha, o jardim se enchia de freqüentadores. Sem nenhum premeditado preconceito de classe, se separavam, o ‘grand monde’ no passeio central, os mais modestos no segundo e a pequena classe nas calçadas exteriores.

No passeio central, as moças, sob as vistas das matronas sentadas, circulavam num sentido, enquanto os rapazes, ou parados nas entradas, ou circulando em sentido contrário, procuravam correspondências aos seus olhares amorosos. Velhos, também sentados, palestravam, talvez relembrando o seu bom tempo de juventude, quando ali namoricavam. Os focos de luz elétrica reverberavam e a água dos repuxos, mais abertos os registros, jorrava a maior altura e caia para o tanque num doce murmúrio.

No segundo passeio, sob a luz mais abrandada pela ramaria do arvoredo, também passeavam rapazes e moças num e noutro sentido, ou sentavam-se cansados do longo trajeto de muitas voltas, talvez sem a vigilância de matronas cuidadosas.No passeio exterior, o mesmo movimento. Os adoradores, junto ao meio-fio olhavam suas eleitas passarem, de braços dados, às duas, às três.

As horas voavam e pouco e pouco o jardim se despovoava. Vinha a quietude da noite alta apenas quebrada pelo farfalhar das árvores ao sopro do vento e o rumor dos jatos d’agua agora diminuídos , ao cair na bacia central…”

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