“Ó, abre alas, que eu quero passar.” É Carnaval

Dizer que o Brasil é o País do Carnaval não é dizer toda a verdade. No entanto, se se falar que o Brasil é o país onde o Carnaval se transformou na mais espetacular festa coletiva do mundo, isso é verdadeiro. Se Carnaval é festa universal, no Brasil ela se tornou uma consagração.

Até os caipiras paulistas o adotaram como grande festa do povo. Piracicaba, na década de 1970, foi considerada a cidade do interior paulista com Carnaval mais animado, com cordões e baterias que congraçaram, pioneiramente em São Paulo, os grupos de foliões brancos e negros. As escuderias Zoon-Zoon, Ekyperalta, Ekypelanka e outras nascem dessa época.

Origens

As origens do Carnaval – bem como o próprio nome – são ainda discutidas. É uma festa coletiva transmitida oralmente e de que se tem notícia há milênios. Há docuementos dessas festas pagãs na Grécia, em comemoração ao deus Saturno, realizadas a 17 de dezembro, as Saturnais. E, em Roma, em 15 de fevereiro, com o nome de Lupercais, em honra ao deus Pã. Gregos e romanos comemoravam embriagadamente e com grandes danças os deuses Dionísio e Baco. Eram os rituais dionisíacos e as bacanais. Autores há, porém, que dizem haver vestígio dessas festas orgíacas que se realizavam em honra da Primavera, rituais agrários que datam de 10 mil anos a A.C. No Egito, dois mil anos antes de Cristo, havia festas semelhantes em honra à deusa Ísis.

Carnaval e a Era Cristã

Na Era Cristã, a Igreja Católica deu nova orientação a essas festividades, punindo severamente os abusos. Se o Catolicismo não adotou o Carnaval como festa religiosa, acabou tolerando-a, mesmo porque o período carnavalesco coincidia com datas pré-determinadas pela Igreja. Era uma festa com características pagãs que, no entanto, antecedia a Quaresma, terminando, portanto, em dor, na Quarta-Feira de Cinzas.

Os cristãos começavam a comemoração do Carnaval, originariamente, em 25 de dezembro, reunindo as festas de Natal, do Ano Novo e de Reis. Em Roma, havia corridas de cavalo, desfiles de carros alegóricos, corridas de corcundas, lançamentos de ovos. O Baile de Máscaras foi introduzido pelo Papa Paulo II, adquirindo força nos século XV e XVI, por influência da “Commedia dell´Arte”. As máscaras eram usadas, pelas mulheres da Corte, como arma de sedução. Em fins do Século XIX, as festas carnavalescas começaram a decair na Europa. Mas já tinha influenciado o Brasil.

A discussão sobre a palavra Carnaval ainda permanece. Para uns, carnaval se origina da expressão latina “carrum novalis” (carro naval), uma espécie de carro alegórico imitando os barcos romanos. Para outros, seria derivada de “carnem levare”, depois modificada para “carne vale” (adeus carne!), significando a chegada da Quaresma e a proibição de comer carne. Era, pois, a festa de abusos para se preparar para o jejum.

No Brasil

A introdução do Carnaval, no Brasil, surge com a colonização portuguesa, uma herança do entrudo português e das mascaradas italianas. O elemento africano, que passou a preponderar no carnaval brasileiro, somente irá surgir no início do Século XX. O entrudo português data de 1641. A palavra entrudo significa “entrada, “começo”, do latim “introitus” com que a Igreja celebrava a chegada da Quaresma.

Diferentemente dos festejos das “mascaradas” da Itália Renascentista, o entrudo português se tornou, no Brasil, uma festa violenta e de muitos excessos, às vezes até mesmo de atrocidades. Era comum os escravos molharem-se uns aos outros com ovos, farinha, polvilho, laranja podre, restos de comida, polvilho, enquanto as famílias brancas divertiam-se em suas casas derramando baldes de água suja nos passantes. A rigidez dos pais relaxava e permitia que os filhos cometessem verdadeiras atrocidades. O entrudo, pode-se dizer, era uma festa selvagem.

Máscaras e cheiro

Contra o entrudo, os protestos passaram a ser tantos que, aos poucos, foi-se civilizando, adquirindo mais graça e leveza, substituindo as formas grosseiras por brincadeiras mais delicadas. Assim, a água suja e os líquidos repulsivos foram substituídos por “limões de cheiro” (pequenas bolas de cera cheias de água perfumada) ou por frascos de borracha ou bisnagas cheias de vinho, groselha ou vinagre. Estas formas precursoras dos lança-perfumes, introduzidos em 1885.

A partir de 1834, acentuou-se o gosto pelas máscaras também no Brasil. Eram de procedência francesa, feitas em cera muito fina ou em papelão, imitando caras de animais, caretas. E, na mesma época, surgiram as fantasias, que se iam tornando mais ricas e enfeitadas a cada ano, sendo exibidas nas ruas e nos salões.

O antigo entrudo dava lugar, assim, a uma festa popular com mais graça e, muitas vezes, com sofisticação entre as famílias mais poderosas.

Música e bailes

A música carnavalesca começa a surgir ao início dos bailes de máscaras. À época do entrudo, não se podia falar em música, pois não havia ritmo ou melodia que o simbolizasse. Tudo era precário e o que havia era muito barulho e estridências.

O primeiro baile de máscaras de que se tem notícia é o do Rio de Janeiro, realizado no Hotel Itália, no Largo do Rócio, em 1840. Os proprietários do hotel, italianos, animados com os bailes europeus, foram estimulados a imitá-los. A repercussão foi tamanha que se seguiram outros bailes e, então, demarcou-se o Carnaval a partir das diferenças sociais: nas ruas, o povo, a festa popular e ao ar livre; nos salões, o carnaval da classe média emergente brasileira.

Nas ruas, os desfiles de carros alegóricos nasceram como idéia do escritor José de Alencar, imitando o que acontecia em cidades européias. Os cortejos eram realizados pelas chamadas “sociedades carnavalescas”. O primeiro clube a desfilar, em 1885, foi a “sociedade” conhecida como “Congresso das Sumidades Carnavalescas”. Uma das mais famosas foi a “Euterpe Comercial”.

Dos salões, os bailes transferiram-se aos teatros e eram animados especialmente ao ritmo da polca, que foi o primeiro gênero a ser adotado como música carnavalesca no Brasil. E, depois, pelo som da quadrilha, da valsa, do tanto, do maxixe. Os ritmos eram executados apenas em versão instrumental. Apenas por volta de 1880, passou-se a incluir a versão cantada, acompanhada por coros. O primeiro baile infantil, que deu início às famosas matinês, aconteceu em 1907. E o primeiro concurso – premiando a mulher mais bela, a mais bonita fantasia e a melhor dança – surgiu em 1909.

A primeira marcha registrada na história do carnaval brasileiro é a marcha-rancho “Ó abre alas”, de Chiquinha Gonzaga, datada de 1899. A compositora se inspirou na cadência que os negros imprimiam à passeata carnavalesca.

E surge o “Zé Pereira”

A verdadeira revolução do carnaval carioca – pois foi o primeiro grande carnaval brasileiro – aconteceu com o surgimento do “Zé Pereira”. Foi em 1846. Era o “tocador de bumbo”. Há controvérsias a respeito, mas estudiosos atribuem ao português José Nogueira de Azevedo o surgimento do “Zé Pereira”, o tocador de bumbo que animava as festanças nas ruas. O sucesso da personagem foi tanto que, 50 anos mais tarde, uma companhia teatral francesa ainda se referia ao “Zé Pereira”, criando uma quadrinha que se tornaria famosa:

“E viva Zé Pereira

Pois que ninguém faz mal.

Viva a bebedeira

Nos dias de Carnaval.”

O “Zé Pereira” deixou como sucessores a cuíca, o tamborim, o reco-reco, o pandeiro, a frigideira, que animaram, primeiramente, o “bloco dos sujos” e, depois, as escolas de samba.

O verdadeiro carnaval

O verdadeiro carnaval brasileiro, no entanto, surgiu com os blocos e cordões. Apesar do sucesso nos clubes, a festa se tornou do povo. Com as proibições aos excessos do entrudo, o povo passou a organizar-se como que à semelhança das procissões religiosas. Surgiam os blocos e os cordões, que originariam as escolas de samba. Eram formados por negros, mulatos e brancos de origem humilde. Os cordões animavam as ruas ao som de instrumentos de percussão, bumbos, tambores. Sofreram a influência dos rituais festivos africanos.

O primeiro cordão de que sem notícia é de 1885 e denominava-se Flor de São Lourenço. Já havia uma disciplina em sua apresentação. O cordão nasce com música própria, desfilando com estandarte e sujeito à orientação de um “mestre” que comanda a evolução através de um apito. Na verdade, os cordões são uma seqüência de grupos já existentes, conhecidos como “ranchos”. O rancho desfilava, primeiramente, em festas religiosas e, depois, em todas as festas populares. Era formado por pastores e pastoras que “rumavam a Belém”. O rancho criou um gênero musical cadenciado, a “marcha-rancho”.

Carnaval-espetáculo

Com o surgimento da televisão – especialmente da transmissão em cores, nos anos 1970 – começou o declínio do “carnaval de rua”, substituído pelas grandes escolas de samba, espetáculos de forte apelo comercial. O carnaval passou a ser um show para ser visto e admirado, com investimentos maciços de patrocinadores, meios de comunicação, indústria fonográfica. Até as canções carnavalescas sofreram o impacto: não dando mais retorno comercial às gravadoras, foram praticamente substituídas pelo esforço que se fez de popularização do samba-enredo. Do velho carnaval enraigadamente popular, restou o grande espetáculo dos desfiles de escolas-de-samba, que a mídia transformou em show mundial.

O que sobrou da tradição das antigas manifestações carnavalescas permanece, nos tempos atuais, em cidades nordestinas. Multidões de todo o Brasil acorrem ao Nordeste, atraídas pelos trios-elétricos, a nova maneira de Carnaval popular, substituto de corsos, de cordões, de desfiles, dos ranchos. Mesmo assim, está, ainda, no Brasil, o “maior Carnaval do mundo”.

CURIOSIDADES

“Armas” do Carnaval

A festa carnavalesca pode ser comparada, também, a uma grande batalha campal, nas ruas, mas pacífica e alegre. E, como toda batalha, tem as suas armas. Não há Carnaval sem confete, serpentina e, ainda que proibida, lança-perfume.

A serpentina é de origem francesa e chegou ao Brasil em 1892.

O confete é procedente da Espanha, chegando ao Brasil no mesmo ano de 1892.

O lança-perfume – proibido em 1961 pelo então Presidente Jânio Quadros – é uma bisnaga, de vidro ou de metal, contendo éter perfumado. De origem francesa, chegou ao Brasil em 1903.

Figuras carnavalescas

O Rei Momo é o personagem que se tornou símbolo do Carnaval brasileiro. A figura é de origem portuguesa e foi inspirada no bufo, ator de muito comum em Portugal que representava pequenas comédias teatrais para divertir os nobres.

No entanto, em todo o mundo, desde a influência da “Commedia dell´Arte”, da Itália renascentista, há figuras que embelezam e compõem a festa carnavalesca. As três principais são Pierrô, Arlequim e Colombina. Os três compõem um drama de amor. Surgiram entre os séculos XVI e XVIII, a partir de uma companhia de atores italianos que se instalou na França.

Pierrô é um personagem sentimental e uma de suas principais características é a ingenuidade, surgindo sempre com uma expressão de tristeza no rosto. Seus trajes são o de um palhaço refinado, com bandolim.

Arlequim é o rival de Pierrô pelo amor de Colombina, representando o malandro, o palhaço farsante, cômico, cujos trajes são confeccionado a partir de retalhos triangulares de retalho.

Colombina é uma criada de quarto, pela qual Arlequim se apaixona. Mas ela é volúvel, esperta, sedutora e, na realidade, se faz amante de Arlequim. Seus trajes são de cores variadas, acompanhando quase sempre os de Arlequim. Ela se veste, também, como uma “arlequineta”.

“Ó, abre alas”

Além de ser a primeira marcha registrada na história do Carnaval, a música de Chiquinha Gonzaga tem a genialidade de, nas disputas carnavalescas, servir para todos os grupos e cordões. As letras são simples:

“Ò abre alas, que eu quero passar.(bis) Eu sou da Lira não posso negar (bis) Ó abre alas que eu quero passar” (bis) Rosa de Ouro é que vai ganhar(bis)”

Chiquinha Gonzaga, ao escrever “eu sou da Lira”, pretendeu dizer que era da “boêmia, da farra, da cantoria” e que, embora o cordão Rosa de Ouro fosse vencer o desfile, o importante era se divertir. A dúvida está em se saber se Chiquinha fez realmente a marcha para o cordão “Rosa de Ouro” ou se apenas se inspirou nele.

Deixe um comentário