Codepac abre processo de tombamento do dialeto e sotaque caipiracicabanos

Foto: Alinne Schmidt

Foto: Alinne Schmidt

Foi aprovada, no último dia 13, em reunião realizada na sede da Semac (Secretaria Municipal da Ação Cultural), no Engenho Central, a solicitação junto ao Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Piracicaba (Codepac) do registro do dialeto e sotaque caipiracicabanos como patrimônio imaterial. A proposta, apresentada por um grupo de quatro instituições culturais da cidade – Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba (IHGP), Academia Piracicabana de Letras (APL), Instituto Cecílio Elias Neto (Icen) e a Associação Piracicabana de Artistas Plásticos (Apap) – objetiva oficializar o linguajar caipira local como identidade cultural da cidade.

Na reunião foi feita uma apresentação de um relatório prévio sobre o assunto, elaborado por uma equipe formada por quatro conselheiros da entidade: o historiador Fábio Bragança, da Câmara de Vereadores, a publicitária Fátima Silva, da Semac, a historiadora Renata Gava, do IHGP, e o arquiteto Marcelo Cachioni, presidente do Instituto de Pesquisa e Planejamento de Piracicaba (Ipplap).

“Essa iniciativa valoriza a cultura, a história e memória da cidade de Piracicaba e dos piracicabanos e também das cidades da região”, ressalta o prefeito Gabriel Ferrato.

Com a aprovação do parecer, segundo Renata, começam os levantamentos de informações que darão sustentação ao processo, comconsultas a especialistas, levantamento de documentos históricos e registros de manifestações diversas, em gravação de voz, imagens e escritas, confirmando a relação direta entre a formação da cidade e o que ficou consagrado como cultura caipiracicabana.

Para Renata, o sotaque e o dialeto podem mudar, dependendo do acesso à cultura, da motivação e da capacidade de perceber e articular sons de modo diferente, como acontece com o linguajar caipira. Essa singularidade rústica pode ser justificada pela miscigenação dos primeiros paulistas e influências linguísticas, uma vez que os indígenas e mestiços tinham dificuldade em articular sons das letras B, D, F, L, LH, R, V, Z em determinadas sílabas.

Essa peculiaridade que caracteriza o dialeto caipira, que ressoa em letras de modas, no ponteio da viola, carregando em suas pronúncias os ‘erres’ e trocando o ‘L’ pelo ‘R’ e ‘LH’ pelo ‘I’, é o que define o linguajar caipira como a língua dos Bandeirantes”, explica Renata.

No entender da historiadora, a supressão de letras na palavra ou expressão é um traço forte desse falar caipira, juntamente com um estiramento mais ou menos excessivo das vogais, dando ao homem caipira a referência de introvertido e apressado. “O dialeto caipira originou variantes e as manteve. Esta linguagem contém muitas formas arcaicas e característica coloquial, como o elemento principal deste falar, o R retroflexo, mas há também um padrão linguístico característico como a troca do L pelo R, assim como casos de R e S caírem quando final de palavra, o D das formas verbais em ando, endo, indo cai e vocaliza-se em I”, detalha.

De acordo com o jornalista Cecílio Elias Neto, estudioso da cultura piracicabana e conhecido pela sua luta em defesa do linguajar caipira, “o termo caipiracicabano é uma criação do professor Thales Castanho de Andrade. O professor João Chiarini foi o grande responsável por propagá-lo. A minha missão sempre foi mantê-lo vivo. Porque a cultura caipiracicabana é a nossa identidade”, reforça.
PELOS RIOS – Segundo ele, “o sotaque caipiracicabano nasceu em São Paulo, a partir da relação dos índios com os portugueses, e chegou até nós pelos rios, fixando-se no Vale do Médio Tietê, onde está Piracicaba. “É uma questão regional que deveria ser defendida regionalmente, por todas as cidades que se consideram caipiras”, defende.

Cecílio explica que o caipiracicabano é uma língua em que a pronúncia do R se dá com a língua voltada para dentro, enquanto o carioca fala o R com a língua voltada para fora. “Por isso, onde um caipira fala, é logo notado. A língua é a sua identidade. Muitas vezes ele se vê em uma posição inferior, como se estivesse cometendo um erro. Isso é absurdo”, enfatiza.

O jornalista lembra que o presidente Prudente de Moraes ficou conhecido como Biriba, o presidente caipira. “Com essa força de projeção nacional, deveríamos explorar melhor esse diferencial como uma marca. A cidade tem sido procurada pelos grandes canais de TV exatamente pelo seu sotaque. E os repórteres falam de Piracicaba com entusiasmo, porque de fato toca em uma raiz cultural. Uma raiz cultural, por sinal, que deveria ser melhor explorada economicamente, para fortalecer nossa economia”, concluiu.

O procurador-geral do município e presidente do Codepac, Mauro Rontani, explica que a iniciativa tem um valor imenso. “Precisamos agora aprofundar os estudos para estruturarmos a solicitação adequadamente, a fim de que o sotaque e o dialeto caipiracicabanos, como bem imaterial, possam fazer parte do nosso livro de tombo de registro imaterial e receber o título de Patrimônio Cultural de Piracicaba. O que antes era pejorativo deve ser considerado motivo de orgulho para a cidade”, conclui.

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