Aparecida

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downloadSegundo narrativa do padre José Alves Vilela, vigário de Guaratinguetá de 1725 a 1745, na segunda quinzena de outubro de 1717 alguns pescadores encontraram no rio Paraíba uma imagem de terracota e cor escurecida de Nossa Senhora da Conceição; primeiro o corpo depois a cabeça. Após nove anos fizeram um oratório de madeira, que mais tarde virou pequena capela, onde a santa – chamada então a Aparecida – passou a ser venerada. De capela à igreja, e em 24 de junho de 1888 foi benta a hoje “Basílica Velha”.  Em outubro de 1894, missionários redentoristas vindos da Baviera a convite do então bispo de São Paulo, assumiram o santuário. Em 1904 a imagem recebeu uma coroa oferecida pela princesa Isabel. Em dezembro de 1928, a vila que se formara ao redor da igreja no alto do chamado Morro dos Coqueiros emancipou-se politicamente de Guaratinguetá, vindo a se chamar Aparecida em homenagem a Nossa Senhora, cuja devoção fora responsável pela criação da cidade.

O culto à Santa só cresceu, exigindo estruturas maiores. Em novembro de 1955 teve início a construção da Basílica Nova. Em outubro de 1982, a imagem foi levada da antiga para a nova Basílica, para onde foram transferidas as atividades religiosas.

É o maior Santuário mariano do mundo. Em 1983, a CNBB oficialmente declarou a Basílica de Aparecida como Santuário Nacional. Foi visitado por três papas: João Paulo II, em 1980, Bento XVI em 2007 e Francisco em 2013.   Em 2014, 12.225.608 pessoas passaram pela Basílica. Trabalham no Santuário cerca de 30 missionários redentoristas, várias congregações religiosas femininas, mais de 800 voluntários e mais de 1.500 funcionários. Além de toda a sua estrutura de acolhimento, acessibilidade e investimentos em comunicação, o Santuário Nacional atua na área da ação social. O número de beneficiados pelas parcerias e projetos atinge milhares de pessoas, entre crianças, adolescentes, idosos e portadores de necessidades especiais. Pela Lei nº 6 802, de 30 de junho de 1980, foi decretado oficialmente feriado o dia 12 de outubro, dedicando-se este dia à devoção. Também nesta lei, a República Federativa do Brasil reconhece oficialmente Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil.

De tão fantástica essa história, me pergunto o que a Senhora esperava de nós ao aparecer negra e decapitada no Rio Paraíba. Há 70 anos estamos fazendo ‘uma casa para ela’. Está mais para casa de rainha que casa de Mãe. Não acaba nunca. O gasto com sua manutenção será eterno, tanto que a pedição de dinheiro não tem fim. Era mesmo o que ela queria? Lá dentro a gente se sente uma formiga. Foi projetado para receber massa. Massa quer milagre, emoção, portento. Lá fora, o comércio ferve. Sei que o Santuário sustenta a cidade e gera milhares de empregos. Isso é boa coisa. Mas se foi só para isso que veio, a Senhora poderia “aparecer” também nas cidades onde a miséria grassa.

Em 1930, Aparecida foi proclamada Rainha do Brasil. Faz por merecer um país onde 18 milhões de cidadãos vivem na pobreza e o 1% mais rico tem renda maior que a dos 40% mais pobres? Além disso, que alegria sente nossa rainha preta vendo que seu povo negro – apesar de ser mais da metade da população – continua à margem, e se for jovem e nordestino o risco de sofrer morte violenta é cinco vezes maior?

Ônibus lotados vão e voltam de Aparecida ano inteiro. Talvez um dia o lugar se torne centro de fraternidade e ecumenismo. Devoção é bom e sei que para muitos sofridos a Mãe de Jesus representa conforto e refúgio. Porém, em vez de intermediar curas particulares, seu desejo é que ninguém mais sofra. E essa não é tarefa dela; é nossa. Nessa empreitada ela está junto não só em Aparecida, mas aqui em nossa casa, bairro, comunidade. Talvez o jovem que espatifou sua imagem em 1978 seja um sinal para que nos preocupemos menos com igreja de tijolo e mais com Igreja de gente. Gente ninguém espatifa, especialmente quando quer tornar realidade o sonho de seu Filho.

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