As coisas simples e belas

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unnamedÀs vezes, sentimos vontade de filosofar e de manter um gentil contato com a poesia, sobretudo para driblar a aridez destes tempos, nesta convulsão política, econômica e moral que assola o nosso país. Em toda parte, só se ouve falar na “crise”. A crise tomou conta de tudo e, se algo der errado, a culpa é toda dela.

Mas a verdade é que o país atravessa mesmo um momento difícil e, da esfera política, a crise passou para a econômica, deixando a população preocupada. Quase que os aposentados e pensionistas ficam sem a primeira parcela do 13º… E o desemprego? A inflação e os juros altos? E a falta de coragem para investir, numa conjuntura como a atual?

Não, não. Vamos mudar de assunto. Pretendo escrever um texto leve e sem grandes complicações temáticas, que não deixe o caro leitor ainda mais angustiado com as contas do TCU (Tribunal de Contas da União). Tentemos algo do nosso cotidiano mesmo, o doce da padaria, a música no rádio, o sabonete perfumado, essas coisas tão simples e tão belas, capazes de fazer sonhar o nosso coração.

Como de costume, meu poema evoca uma paisagem possível de ser vista em sua perfeita nitidez, apesar da sépia do tempo. São fotografias de uma pureza única, tanto para a elaboração do verso quanto para o deleite de recordar.

O corpo envelhece, mas a alma não. Toda pessoa guarda uma história de vida em seu íntimo e isso faz parte de um compartimento sagrado. Cada um é esse “eu” pleno, inteiro, digno. Creio que o mais difícil de envelhecer é lidar com as lembranças. Esta é a parte mais dolorosa.

Lembrar o tempo de estudante, os bilhetes deixados sobre a mesa da cozinha, pedindo para minha mãe me acordar bem cedinho. Prova de matemática, era preciso dar uma última revisada na matéria e, enquanto ela passava o café maravilhoso, as equações corriam pelos meus olhos.

A rosa jogada no terraço próximo ao jardim era recebida com a alma em chamas. As serenatas que minhas irmãs e eu ganhávamos dos nossos amores, a expectativa do sábado, a beleza da juventude saindo pelos poros, essas maravilhas me fazem voltar no tempo e chorar.

Mas não havia ventura maior que essa: passar de ano, ficar livre das provas, merecer o elogio dos pais, esperar pelo Natal, com aquela sensação ao mesmo tempo leve e pesada dentro do peito – coisa que o Natal me causa até hoje.

Ó Deus, o que é isso que me esmaga por dentro toda vez que o Natal se aproxima? Sei de muita gente que se angustia terrivelmente nesta época do ano. Para mim, é mortal. Tenho de fazer força para resistir. E depois que vi meu lindo numa UTI, cuja entrada era decorada com motivos natalinos, esta festa passou a ser ainda mais triste para mim.

As imagens surgem de todo lado e em cada canto da casa há uma foto, uma lembrança daquilo que jamais ficará perdido no tempo, porque está bem vivo no coração. E virá mais um Natal, onde me perguntarei se mudou o Natal ou mudei eu. Virá mais um início de ano novo no qual depositamos as nossas melhores esperanças.

E la nave va…

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