Enchentes

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cheia do rioNas chuvas do último dois de fevereiro, Piracicaba parecia o Titanic com o casco rasgado. Era água por todos os lados. A cidade parou. Avenida Armando Salles retornou ao rio que um dia foi. A Rodoviária e um monte de lugar ficaram alagados.

Já está virando rotina. Qualquer chuva mais forte paralisa tudo. Claro que há 15 anos não era assim. Piracicaba era chamada de fim-de-linha, porém era feliz e tranquila. Mas, não demos valor. Depois da segunda gestão petista veio a tucanada e sua turma de ‘’entendidos’. Juntamente com a Câmara de Vereadores IPPLAP, ACIPI, pessoal do mercado imobiliário e a imprensa pelega que domina essas plagas desviaram o destino da cidade. Planejamento mal feito, imediatismos, interesses políticos e econômicos despertaram a cobiça dos donos de terras. Sem os devidos estudos e debates com a população, aumentaram o perímetro urbano para atender interesses imobiliários; aprovaram loteamentos a torto e a direito sem levar em conta a disposição das bacias hidrográficas que a natureza moldou milhares de anos atrás; suprimiram áreas verdes e impermeabilizaram o que foi possível para dar passagem a carros, que hoje entopem ruas. Viramos uma cidade com os mesmos problemas de outras. E ainda foram buscar essa gente de volta. O duro é que os sensatos pagam o mesmo preço dos insensatos.

Contudo, não é do céu que vêm as enchentes, mas da terra; mais propriamente da imperícia das administrações públicas. Exceto a Rua do Porto, onde a mata ciliar foi ocupada, nossa incompetência começou com a canalização do Itapeva na década de 50 do século passado com o objetivo de construir uma avenida por cima, o que de fato aconteceu. Evidente que não tem como questionar com a mentalidade de hoje, os que na época achavam a obra um grande avanço. O que não dá para justificar é que com os conhecimentos de hoje não se leve em conta que o lugar continua sendo uma bacia, e quanto mais impermeabilizada estiver mais água correrá.

Foi o que ocorreu com as obras que levaram a efeito a Avenida 31 de Março na década de 70. Quando criança eu brincava nesse trecho do Itapeva, chamado Coréia. Era limpo e suas margens cheias de verde. Vieram os tratores e traçaram a avenida. Para o ribeirão deixaram o menor espaço possível.  Incompetência ou ganância? Não sabiam o prefeito da época e seus ‘engenheiros’ que estavam intervindo numa bacia hidrográfica? Não tinham estudos sobre o volume de água que por ali corria em tempos de chuva, prevendo que urbanizando o local muito mais água viria? Até hoje pagamos o preço, por sinal, cada dia mais caro. O Itapeva é senhor de seu destino. Se não pode correr por baixo, corre por cima. A mesma burrada foi feita no bairro Itapuã, ocasião em que padre Vicente de saudosa memória, alertava sobre a precariedade da obra, já que o ribeirão do Enxofre ficou espremido numa estreita vala de concreto. Um absurdo. Deram ouvidos? O primeiro toró que deu foi um estrago.

“Antigamente as avenidas eram de terra, que absorve melhor a água. Agora, com tudo asfaltado, a água desce dos bairros mais altos. As galerias já não suportam o volume para o escoamento e por isso acontecem as inundações”. (João Chaddad, então presidente do IPPLAP referindo-se ao alagamento da Avenida 31 de Março. JP 17.02.11). Até uma criança sabe disso. Contudo, continuaram na mesma toada. Loucura igual querem fazer erguendo shopping na Boyes. E ninguém abre a boca. “Poucos se importam com seu encanto, que eu amo tanto, dês que nasci”. (Newton de Mello).

Agora vêm a ideia de “piscinão”, que nada mais é que o reconhecimento da vitória das águas sobre a cobiça, pois não conseguiram domá-la. Porém, não temos saída. Ou tiramos o Itapeva do túmulo e o renaturalizamos ou ele vai nos assombrar para sempre, pois ante a natureza somos nada, mesmo os insensatos que pensam que dinheiro pode tudo.

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