Passará…

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  Por que choras, passarinho? Por que estás longe do ninho? Ora, linda avezinha, vem aqui ficar na minha. Vamos juntos de passeio, como quem a nada veio. Dá-me tua asa penada, que a longa madrugada será o nosso recreio.

 

Tu te calas porque é noite, e eu te acolho com carinho. Porque emites sons tranquilos, não competes com os grilos no teu canto de mansinho. Lua alta se derrama no granito da cozinha. Um luar que vejo torto quando a noite se avizinha.

 

Passará a mágoa, o pranto. Passará a dor da espera, como a luz de uma quimera, como sublime acalanto. Vem pra perto, amiguinho. Tu te achegas no meu braço, que será o teu regaço para onde te aninho.

 

Passarão todas as horas, passarão todas as dores. E meus olhos nesta espera é uma esfera toda em cores. Por que rimo, passarinho, por que rimo assim à toa? Não te espantes com meus versos, pois a rima nem é boa…

 

Reconheço, passarinho, que sou frágil como és. Temos esta natureza de nascer, viver, morrer. Mas se podes, vem comigo, vive sempre ao meu redor. Tua vida pequenina, junto a minha, meu amigo, torna tudo tão melhor!

 

Quem me dera, passarinho, quintanares Deus me desse! Para ouvir a voz do vento nas ruazinhas tão nuas. Onde lá no fim do mundo, há dores minhas e tuas. Quem me dera, quintanares! De Quintana a prosa bela, numa noite insone e triste ver estrelas na janela.

 

Passará, meu passarinho, esta dor de esperar. Para ver de novo o certo, como o certo há de ser. Para que haja sentido em nascer, viver, morrer. Ou senão, minha avezinha, de que vale o que se vive? O que tenho, o que terei, ou mesmo o que nunca tive?

 

Tu tiveste, passarinho, meu jardim de moradia. Vi quando vieste esperto beber água à luz do dia. Pois bebeste desta água que é tão tua e é tão minha. Que me mata a sede e a fome, onde poso de rainha. Sem um cetro, nem coroa, sem um reino pra reinar. Realeza é minha casa, como vida é tua asa, para que possas voar.

 

Se me entendes, passarinho, passa aqui sempre que podes. Passarei nas tuas penas o meu lenço ensopado. E enquanto te socorro, tu te apressas e me acodes. Fica assim bem combinado nosso pacto sagrado. Gente e ave se entendendo, num momento abençoado.

 

Passará, meu passarinho, esta dor sem medição. Tu não sabes quanto sofro na visual confusão. Quem  deixou assim confusa a minha vista, assim? Ah, vida de tantos brados! Há enredos bem traçados, como amores bem flechados. Ai de mim!

 

Vem te despedir, amigo, nesta noite mansa e clara. Faz um frio siberiano, mas meu corpo nem repara. Pois me aquece a esperança e uma lembrança rara. Passará, meu passarinho, toda dor, toda tristeza. E verei teu voo ao longe – que beleza, que beleza!…

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