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Ninfomaníaca I e II: Lars von Trier, filosofia e psicanálise

Os textos publicados nesta seção não traduzem, necessariamente, a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

hqdefaultA obra de Lars von Trier não deixa dúvidas sobre sua interlocução com a filosofia e a psicanálise. Esta relação fica evidente em duas obras fundamentais do diretor que tratam, entre outras coisas, de um problema crucial para duas áreas: a natureza do discurso, sua capacidade de revelação e oclusão da realidade.

Se em Dogville (2003) o diretor apresenta uma crítica do discurso iluminista, em Ninfomaníaca o objeto é propriamente o discurso do paciente (sujeito do desejo), que se desdobra em uma longa e minuciosa apresentação do processo psicanalítico.

Apesar de parte do público considerar sua obra complexa, em Nifomaníaca I e II, Lars von Trier é bastante didático. O diretor retrata, perfeitamente, um processo de análise psicanalítica. O pressuposto básico de um processo desse tipo é o sofrimento daquele que procura ajuda. Essa opção fica evidente na primeira cena na qual nos deparamos com um corpo que sofre. A personagem Joe é encontrada jogada em um beco visivelmente fragilizada e ferida e, mesmo tendo sofrido violência, impede que Seligman, aquele que a socorre e que vai ouvi-la durante todo o filme, chame a polícia. A origem do sofrimento não está, neste caso, necessariamente, em um culpado externo. Começa, então, uma longa investigação a respeito das causas desse sofrimento.

A partir do acolhimento desse corpo inicia-se um processo de escuta de um discurso que vai nos apresentar tanto o chamado “discurso do desejo” quanto o “discurso da culpa”, uma espécie de dualidade clássica do processo psicanalítico. O trabalho realizado em uma terapia, claramente representado por Seligman no filme, seria, entre outras coisas, identificar os pressupostos de um sujeito que fala. Esse processo pode ser denominado como a escuta de um discurso de um “suposto sujeito”. Todo trabalho do espectador passa a ser análogo ao de um psicanalista. O enigma que se propõe é óbvio, como alguém pode se entregar à um comportamento que gera sofrimento a ele próprio.

Na escuta Seligman desmoraliza o relato de auto-culpabilização com a metáfora do anzol para pegar o mecanismo de funcionamento que se repete nas diferentes situações que o sujeito relata. Em um quarto momento começa o processo de elaboração. Por fim, acompanharemos o quinto ato, no qual a analisante se desfaz do analista. Estas etapas são, por assim dizer, as clássicas fases previstas em um processo psicanalítico.

Durante todo o filme desenvolve-se o processo de escuta daquele “suposto sujeito” que fala. Este termo é usado aqui por representar uma componente essencial do processo. Aquele que fala em um processo psicanalítico não é o sujeito que se apresenta como uma identidade social e cultural. A subjetividade é dividida em duas ordens de funcionamento, uma relativa ao consciente e outra ao inconsciente. Há, portanto, uma sintaxe de fundo inconsciente no discurso.

O sujeito da psicanálise, nesse sentido, é o sujeito do desejo. Esse sujeito, se deseja, é marcado por uma falta. Ao emitir um discurso ele é diferente do ser biológico e, também, do sujeito da consciência filosófica. A carga de objetividade atribuída ao sujeito do conhecimento em relação ao objeto do conhecimento, característico das teorias do conhecimento tradicionais, não pode ser atribuída ao sujeito do desejo.

O sujeito do desejo é atravessado por uma ordem simbólica distinta de qualquer objetividade, daí a necessidade de interpretação e da interferência clínica. Além destes pressupostos básicos é preciso notar que o discurso desse sujeito pode vir carregado de uma culpabilidade ainda não explicitada.

Seligman, ou o diretor, vai trabalhar o tempo todo com a alegoria e a interpretação. Se o discurso é atravessado pela oclusão, é preciso desvendar o sentido das imagens manipuladas pelo desejo.

Vimos que o corpo é recebido, inicia-se o processo de escuta e, em um terceiro momento do filme, o ouvinte (Seligman) desmoraliza o relato de auto-culpabilização com a metáfora do anzol para pegar o mecanismo de funcionamento que se repete nas diferentes situações que o sujeito relata. O mecanismo de repetição vai aparecer em todo o discurso narrativo e em toda a vivência pregressa de Joe.

Joe inicia seu relato, (suposto sujeito), falando sobre sua fascinação sexual precoce durante sua primeira infância. Seu pai (Christian Slater) é um médico fascinado por botânica. Joe o descreve claramente como um objeto de admiração e desejo, enquanto sua mãe (Connie Nielsen) é, segundo Joe, “uma cadela fria”.

Inicia-se um processo de elaboração e a tentativa de Seligman de desculpabilizar a “paciente”. Como o discurso de Joe, em muitos aspectos é pautado pela culpa, o ouvinte tenta, a partir de associações, trazer à tona os elementos que podem ter causado o comportamento compulsivo e o sofrimento advindo dele.

Na elaboração Seligman tenta deixar claro que a repetição compulsiva traz as marcas do que foi recalcado e esquecido de um passado. As teorias psicanalíticas, sobretudo a freudiana, ampliam esta perspectiva afirmando que esse passado teria sido marcado pelo complexo de Édipo. A repetição seria, então, uma força de atualização desses componentes A prática analítica teria como objetivo apontar para que essas atualizações sejam metabolizadas psiquicamente.

Baseado nesta ideia central o cineasta encaminha o quarto e o quinto atos do filme, que é, em nossa analogia, tida habitualmente como os dois últimos passos do processo de análise psicanalítico. No quarto ato se dá o processo de elaboração e no quinto e último ato o paciente se desfaz do analista.

Seligman sugere como algumas questões relativas ao sofrimento de Joe podem estar ligadas à estigmas, culpa e vergonha que ela sentia por suas ações e como a natureza compulsiva se originou em eventos passados como a admiração pelo pai e pela forma como se deu sua iniciação sexual com o personagem Jerome (Shia LaBeouf), um jovem arbitrário e que, na cena, a abandona logo após o ato sexual claramente mais interessado na manutenção de sua moto. O efeito de rememoração e atualização de eventos passados deveria, segundo Seligman, esse seria seu papel, trazer algum sentido ao comportamento compulsivo desenvolvido por Joe e que acabou causando o sofrimento, o perigo e a fragilização característicos da ninfomania. Finalmente, Joe parece se sentir mais aliviada, tendo, em tese, desembaraçado sua história. Nesse momento final a personagem diz que está muito cansada para continuar e pede para ir dormir.

Seligman se vale do sono da paciente, retorna silenciosamente e tenta violá-la. Joe atira em Seligman e foge do apartamento. Fecha-se o movimento completo de um processo psicanalítico; do acolhimento de um corpo que sofre ao ato final e necessário do paciente se desfazendo do analista uma vez que o problema foi elaborado e foram indicadas as causas e objetos da compulsão. Obviamente o que foi exposto aqui, como uma analogia, corresponde a um modelo psicanalítico ideal, mas, como exercício interpretação fílmica me parece plausível.

 

*Eli Vagner F. Rodrigues é professor de Filosofia e Ética da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp de Bauru.

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