Salão do humor: rascunho da história

757_gdPublicar a lenda, quando parece ser mais interessante do que o fato, acompanha, há tempos, os registros históricos. Já se falava disso na política mineira, atribuindo-se a Benedito Valadares a esperteza: “Se a versão for melhor que o fato, divulgue a versão.” Mas foi num filme – “O homem que matou o facínora”, de John Ford – que a frase ganhou o mundo. O diretor do jornal é categórico: “Se a lenda for maior que o fato, publique a lenda.” A verdade é esquecida.

Com o Salão de Humor de Piracicaba, isso ocorreu diversas vezes. E, ao que parece, à medida que o tempo passa, a lenda vai adquirindo novas formas. E isso confirma, também, o ditado popular: ”quem conta um conto aumenta um ponto.” Ora, o Salão de Humor tornou-se um dos acontecimentos artísticos mais importantes do Brasil, com reconhecimento internacional. No entanto, o seu nascimento se deu de maneira por assim dizer banal, uma iniciativa sem grandes ambições ainda que audaciosa.

A ideia de um salão de humor nasceu em minha sala – ou melhor, à porta dela – no velho “O Diário”, ainda na rua Prudente de Moraes. Há 41 anos, era uma época de horrores. E lá estava, eu, sobrecarregado com mil problemas, com mil dificuldades, quando os então jovens Roberto Antônio Cêra e Ermelindo Nardin me procuraram. Apressado, perturbado com os problemas, atendi-os no corredor, à entrada de minha sala. E eles me diziam do desejo de fazer, a partir de O Diário, um salão de humor em Piracicaba.

Fiquei pasmo. Como, diante de tantas dificuldades, eles queriam falar em salão de humor? De bom humor? Para livrar-me deles, concordei de imediato: “Tudo bem. Façam o que vocês quiserem, O Diário irá apoiar mas não temos verba nenhuma para isso.” E voltei ao trabalho. E dei o assunto por encerrado. Mas o Cêra e o Nardin levaram a sério a ideia, foram ao Rio de Janeiro, conversaram com o pessoal de O Pasquim. Confesso ter-lhes dado pouca atenção. Alguns atritos, entre a equipe, ocorreram, o Alceu Righeto e a moçada da redação colocaram mãos à obra, o salão aconteceu.

No segundo ano – ou no terceiro, já não me recordo bem – pedi que a equipe chamasse o Luiz Antonio Fagundes, o Fagundinho, responsável pela comissão de Turismo da Prefeitura. Expliquei ao Fagundinho que O Diário não teria condições de manter o Salão, de levá-lo à frente, sugerindo que a Prefeitura o adotasse. E assim aconteceu. Eis, pois, o fato, mais simples e corriqueiro do que as outras versões.

Neste 41º. Salão, presidido pelo jornalista Evaldo Vicente – que fez parte, também, da moçada do Primeiro Salão – fui à abertura, após muitos anos de ausência. Vi, emocionado, os frutos da ideia e da iniciativa pioneira de Ermelindo Nardin e de Roberto Antonio Cera. O Salão de Humor tornou-se muito maior do que todos, ao seu início, puderam imaginar, fruto, evidentemente, dos muitos  que lhe deram continuidade estas décadas todas. Mas me dei conta, por outro lado, de Piracicaba não ter tomado plena consciência do que significa o Salão Internacional do Humor não apenas para nossa cidade, mas para o nosso país. Pois, numa cidade média do interior paulista, está criada e solidamente instalada como que uma urna protetora de um rascunho da História. Pois é isso que os participantes, artistas de muitas partes do mundo, estão fazendo: rascunhando a história, prevendo-a, narrando-a, antecipando-se ao que irá acontecer.

Em Piracicaba, artistas do Irã, de Cuba, da Ucrânia, da Turquia, da Espanha, da Itália, do Peru – de partes conflagradas e tensas do mundo – encontram guarida e abrigo para manifestar a análise e o senso críticos, muitas vezes cerceados em seus países. Tornamo-nos, com o Salão de Humor, uma vigorosa ilha de liberdade de expressão e de pensamento, aberta ao mundo, aos artistas cujas almas se rebelam diante de realidades brutais.

Piracicaba, pelo Salão de Humor, recolhe, visionariamente, o rascunho da história ainda não escrita, ainda não concluída. Naqueles cartuns, naquelas tiras, naqueles desenhos estão registrados, para a posteridade, o que a alma universal dos artistas sentiu e intuiu diante da realidade de um tempo. Sim, o Salão de Humor é um imenso, um retumbante sucesso. Acredito, porém, que deva ser cuidado, preservado, estimulado e resguardado com um respeito ainda maior de nossa comunidade. É um tesouro reverenciado pelo mundo. Temos que reverenciá-lo também. Com orgulho e como patrimônio de nossa terra.  Bom dia.

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