Bolão, o gogó de ouro

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Na carteira de identidade ele é Antonio Carlos Fioravante, mas confessa que se alguém o chama assim demora para atender. Ele é Bolão mesmo, como ficou conhecido em qualquer seresta. E seresta em Piracicaba sem o Bolão não tem tanta graça. “Piracicabano com a graça de Deus”, como se define, Bolão contou nessa entrevista, publicada em 2005 no site A Província, que que teve “a sorte” de se dedicar à música apenas como hobby. Pois assim a paixão pelas canções românticas não se misturou com dinheiro.

A PROVÍNCIA – A seresta é eterna?

Bolão – Gostaria que fosse, mas infelizmente a tendência é acabar. Quando esses músicos que estão levando a seresta em frente se forem, quem vai ficar no lugar?

Não há renovação?

Não é que os jovens não gostem, mas falta conhecimento. Não é culpa deles, pois como eles podem conhecer se as rádios não tocam e as TVs não mostram? Em meio a isso ainda tenho umas boas surpresas como na última Noite da Seresta, quando quatro rapazes me chamaram e disseram: “nós somos do rock mas também curtimos a seresta”. Acho que os jovens podiam pensar mais assim, que uma coisa não impede a outra.

Mas essa reação não mostra que há jovens interessados?

Sim, mas é um caso isolado, no geral os jovens não se interessam. E eles ainda estão muito na posição de espectador. Para haver uma renovação deveria aparecer mais jovens se dedicando. Há um rapaz novo aqui em Piracicaba, o Roberto Mahn, que canta bem, mas também é um caso isolado.

A Noite da Seresta é importante para essa preservação?

Claro que sim, pode colaborar muito, mas você percebe que os músicos que se apresentam são quase sempre os mesmos.

O que é preciso para ser um seresteiro?

Em primeiro lugar, e não é para me gabar, tem de ter uma voz poderosa. Seresteiro tem de cantar pra fora, tem de ter dó de peito. E precisa mostrar sensibilidade, é preciso interpretar a letra da canção, ser um poeta, um ator mesmo, viver aquela letra, aquele poema, como se tivesse acontecido com ele mesmo.

E o que o senhor acha da crítica que a seresta é uma coisa antiga?

Ué, é antiga mesmo, e por isso mesmo é que é bom! Mas é preciso não confundir seresta com serenata, que essa acabou mesmo.

Como era o tempo da serenata?

Ah, era uma maravilha! Aconteceu até meados dos anos 60, por aí, e a cidade era outra, era mais romântica, mais provinciana. A gente se reunia no Líder Bar, que ficava na esquina da Governador com a São José, e lá pelas 10 e meia, que naquele tempo era muito tarde, ia fazer a serenata, que era para acordar a nossa amada ou a amada de um amigo.

E como vocês eram recebidos?

Sempre com muita elegância. A homenageada acendia a luz do quarto par amostrar que estava ouvindo e depois das músicas a gente era recebido na casa pela família com um café. Para você ver como é algo que desapareceu mesmo! Hoje em dia as pessoas vão dormir mais tarde e há a questão da segurança.

O senhor tem muita saudade daquela época?

Demais, demais! Eram outros tempos. Podem me chamar de quadrado, mas hoje em dia acho que falta mais cavalheirismo, mais elegância, mais romantismo.

Como começou a cantar?

Desde menino. Sou o filho caçula e meus dois irmãos mais velhos sempre tiveram muitos discos e eu desde pequeno me interessava.

Quem é seu cantor favorito?

Para mim nunca houve nenhum melhor que o Orlando Silva, ele era completo. O Orlando foi um dos maiores intérpretes do mundo, ele fazia o que queria da voz, atrasava ou adiantava o andamento. Um maestro da época, o Gabriel Migliori, dizia que o Orlando era um cantor chopiniano. Até hoje procuro ouvi-lo todo dia, para um cantor o Orlando é como um remédio: ouça Orlando 3 ou 4 vezes por dia e se inspire.

E por que nunca quis seguir carreira profissionalmente?

Não sei, talvez eu tenha ficado muito preso por essa admiração. Pensava: como eu vou chegar a cantar como esse homem? Mas foi bom porque eu sempre acabei vendo a música como um hobby, uma paixão mesmo.

Nunca lançou disco?

Gravei umas coisinhas, mas foi mais para distribuir para os amigos. Mas procurei gravar de uma maneira legal, num dos discos todos os instrumentos foram tocados pelo Alessandro Penezzi, que é um grande talento.

Que profissão o senhor seguiu?

Fui Guarda Civil durante muito tempo. Comecei em São Paulo, onde nasceu a Guarda, mas sorte que precisei ficar lá pouco tempo, só um ano. Logo vim para Piracicaba, a terra que sempre amei, pois a cidade foi uma das primeiras do interior de São Paulo a ter guarda civil. Ajudei muita criança a atravessar a rua na saída da escola. Hoje sou aposentado por uma empresa privada, o que foi uma grande sorte. Trabalhei 20 anos na Itelpa.

O que acha de Piracicaba hoje?

Continuo amando minha cidade, costumo dizer que sou piracicabano com a graça de Deus. Mas hoje fico preocupado ao ver que a cidade está ficando muito violenta.

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