São Benedito: dos milagres, crendices e superstições

O texto abaixo foi publicado em janeiro de 1988 no semanário impresso A Província. Preservamos datas, idades, comentários e gramática originais do texto.

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Alguém duvida do poder de São Benedito, o santo dos negros e das donas-de-casa? Em Piracicaba, parece que não, tanto que até hoje existe uma crença entre a população de que mexer com a igreja dedicada ao Santo pode trazer sérios problemas. Construída no século passado, a Igreja de São Benedito fica entre a Prefeitura, a Câmara e o Fórum. Na década de 60, os prefeitos Luciano Guidotti e Cássio Paschoal Padovani tiveram a idéia de demolição, para que fosse construída a praça dos Três Poderes, mas ambos faleceram sem concluir o mandato.

Para o professor Guilherme Vitti, a ligação entre a morte dos prefeitos e o poder do santo só pode ser considerada uma crendice. “O povo liga os acontecimentos com coisas supostas, tentando dar uma explicação ou uma outra versão a uma simples coincidência”.

De qualquer maneira, Vitti, que é um dos maiores pesquisadores da história piracicabana, acredita que essa crença tenha surgido em virtude da grande luta que representou a construção da igreja. Trabalhando na Municipal, onde arquiva todos os documentos relativos ao legislativo piracicabano, Guilherme Vitti diz que “foi principalmente através da Irmandade de São Benedito, que é um dos padroeiros da raça negra, juntamente com Nossa Senhora do Rosário”.

A luta começou em 1859, quando a Irmandade solicitou e conseguiu que uma parte do cemitério localizado onde hoje se encontra o Colégio Moraes Barros fosse destinada para o sepultamento de negros. O terreno media 20 braças e ficava na parte que dá para a rua do Rosário. Porém, já em 1869, a Irmandade perdia o direito, pois o presidente da Câmara Municipal, Salvador de Ramos Corrêa, entendeu que caberia à Irmandade a conservação do local e da capela de taipa que foi erguida, e não à Prefeitura.

Ainda no século passado, começou a construção da igreja onde está até hoje, descrita pelos anais da Câmara como “modesta, não acabada ainda, com poucos materiais de construção e utensílios pobres necessários ao culto. Existe no cofre desta corporação a quantia de trezentos e dois mil, setecentos e vinte réis”.

A igreja era principalmente frequentada por pessoas da raça negra e de renda mais baixa, e logo se viu atingida por manifestações que poderiam ser classificadas como racismo. Por exemplo, no dia 5 de maio de 1888 (portanto, a uma semana da abolição), o vereador Manoel Pedreira solicitou a demolição de um cerco de taipas existente atrás da igreja, afirmando que era para que “cessem os atos ofensivos à moral que naquele lugar praticam pessoas do povo”.

As coisas melhoraram um pouco já neste século, quando em 1912, o vigário da cidade, Monsenhor Manoel Rosa, solicitou que fossem feitas calçadas ao redor da igreja, o que foi aceito pela Prefeitura através da despesa de 300 mil réis.

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 RELIGIOSIDADE POPULAR 

Para o professor Guilherme Vitti, todos estes fatos ajudaram a transformar São Benedito num dos mais cultuados pela população da cidade, mas acha que às vezes as pessoas exageram em sua devoção. Diz isso em relação à outra crendice, a de que numa procissão, a imagem do santo tem que vir na frente, pois caso contrário acontecem tempestades. “Isso é tudo superstição, é resultado da falta de instrução das pessoas”.

Ex-seminarista e católico praticante, Vitti afirma que “inclusive este é o tipo de fato que já nem está mais em discussão, porque lamentavelmente as procissões praticamente desapareceram, a religiosidade passou a ser praticada de outra maneira, pois as famílias se dispersaram”.

E ele também não acredita que a exigência de São Benedito vir à frente se deva ao fato de que o santo tenha enfrentado discriminações em vida por ser negro. “As pessoas enxergam racismo em tudo, é uma coisa que já está exagerada. Inclusive, porque todo negro que quer ser alguma coisa, acaba conseguindo”. Sobre a questão de São Benedito ter sido cozinheiro no mosteiro onde se ordenou, também diz que se acreditar em racismo em relação a isso não procede. “Ele era irmão leigo porque as pessoas que não tinham capacidade intelectual assim eram aceitas. Mas isso era uma regra geral que nada tinha a ver com a cor, e ele logo passou a ser/ muito considerado entre seus confrades”.

O SANTO NEGRO 

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O padroeiro dos negros e das donas-de-casa. Assim passou a ser conhecido até hoje São Benedito. Sua história começou em 1526, quando nasceu numa aldeia da Sicília, no sul da Itália. Seus pais eram descendentes de escravos trazidos da Etiópia, chamados Cristóvão Manassari e Diana Larcari, pois quando libertos por seus senhores, tomaram o sobrenome deles, como era de costume.

Na infância, Benedito era pastor de ovelhas e durante a juventude foi lavrador. Com 21 anos, foi viver entre os monges eremitas de São Francisco, professando quatro votos pobreza, obediência, castidade e vida quaresmal. Este último obrigava a passar a vida em penitência e ficou 17 anos no deserto.

Depois disso, entrou para o Convento de Santa Maria de Jesus, dos frades capuchinhos, onde foi escalado para ser cozinheiro, mas logo foi escolhido como superior do local. Morreu em 1589 e em seu processo de canonização foi considerado que, mesmo sendo filho de escravos e analfabeto, conseguia esclarecer confrades letrados a respeito de dogmas e teologia. Foi um processo demorado e que só terminou em 1807.

Porém, muito antes disso, a devoção a São Benedito já acontecia no Brasil, trazida principalmente pelos franciscanos que vieram de Portugal. E um dos principais responsáveis por isso era a raça negra, tendo o culto ao “Mouro”, como era conhecido, se iniciado na Bahia e no Maranhão, onde se encontravam os maiores contingentes de escravos.

Um dos grandes motivos para a aceitação foi a cor, principalmente pela população mais pobre. E apareceu principalmente através da religião popular, que ainda era olhada com desconfiança pela Igreja Oficial, porque nunca completamente “purificada” de elementos africanos, superstições e crendices. Porém, a própria Igreja Oficial, que na época da escravidão admitia a exclusão dos negros ao lado dos brancos durante missas e outros atos religiosos, teve que aceitar a formação das Irmandades de São Benedito.

Nascidas como forma paralela de coexistência pacífica, as Irmandades eram formadas por negros e criaram um modo especial de expressar sua religiosidade com raízes autênticas e até com a utilização de danças. E o fato do culto a São Benedito ter surgido principalmente através dos negros e das camadas populares, talvez explique porque até hoje persistem tantas crenças em relação a seu poder.

PADROEIRO DAS DONAS DE-CASA

Muitas das crenças estão ligadas principalmente em relação a São Benedito ter surgido em famílias humildes e ter sido cozinheiro. Por isso é considerado o padroeiro das donas-de-casa, pela sua identificação de “santo cozinheiro”. É bastante comum até hoje, as mulheres terem uma imagem do santo na cozinha, por acreditarem que ele irá proteger a família contra a falta de alimentos.

Um detalhe importante é que esta imagem nunca pode ser comprada, mas recebida de presente, sendo que algumas donas-de-casa fazem trocas entre elas. E alguém já deve ter percebido que, em muitas cozinhas, o santo sempre tem uma xícara de café à frente.

Isso é efeito de outra crença, que diz que assim que for coado o café logo de manhã, a primeira xícara tem que ser do santo. E em casos de dificuldades financeiras, algumas donas-de-casa colocam numa vasilha arroz, feijão e uma imagem de São Benedito. Elas acreditam que, antes que seja preciso se utilizar do alimento que está lá, o santo ajuda a melhorar a situação. Superstições? Pode ser. Acontece que o povo acredita nelas.

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