Cuscuiz da p…Frora.

Ai, ai, ai, Jisuis do céu! E num é que adescobri que morreu a puta Frora, a Frora da Rua do Porto? E agora? E o cuscuiz mais conhecido que ixistia, cum dois nome que condundia: cuscuiz da puta Frora, cuscuiz do Divino, tudo a mema coisa, o cuscuiz, tô dizendo. Ai, judiera de vida: que pena, a Frora morreu!

Num intendo de festança do Divino Ispirito Santo. Pur essas banda de nóis pescador, tem muita coisa que só poca gente é capaiz de expricá. Tem briga demais, tem mistura de profano e de sagrado, num sei o que isso tem que vê cumigo, cansado pescador desse rio bendito, que iscuito história que vem desde lá do Iguatemi. Sei fazê canoa e rede de pescá, mai num sei nada desse treco de fé, de devoção. Diz que o Divino é um coiso lá das coisa do céu. Pra mim, o sagrado do divino num tem nada a vê cum sagrado de igreja. O divino, aqui na bera do rio, é o divino de tudas as coisas que existe.

Festa do Divino é, pra mim, coisa bem religiosa mai sem tê religião, num sei se dá pra entendê. Tem incontro de barco no rio, quermesse, prucissão, tem missa, tem cururu. E tem cuscuiz. É o que eu tô quereno contá, do que aprendi de meu pai e ele, do pai dele, meu avô. E meu avô, do pai que é bisavô meu. Tudo mudô, aqui nas beleza da Rua do Porto, que foi lugar de doença, de putaria, mai, também de muita festa e alegria.

Festança do Divinos sempre foi nossa, aqui de pescador barriga-verde. Num tem nada de religião oficiar. Tem de religião das pessoa, num consigo expricá. Só posso dizê que era festança. Das brava. Que foi contada por Nhô Manduca Duarte, por Affonso Pecorari e, despoi, por nóis tudo. É o que eu tô quereno dizê, se arguém me permiti: era, no começo de tanta história – lá pros miado de 1800 – putaria de putada e de religioso, tudo mundano. Mai tem coisa que num mudô, que é o segredo, o mistério da festança: o cuscuiz.

É prato inventado por um montaréu de deus negro, do Olimpo da Negrada. Ele faz a sustança da festa. E ninguém mai do que a Frora – a mai verdadera puta que já existiu – tinha o segredo do cuscuiz, o Cuscuiz do Divino. E dela mema, o da Puta Frora. Nesse cuscuiz, o divino e o humano tão tudo junto.

Frora me revelô o segredo despoi que, numa noite de Lua Cheia, nói se amemo num bote lá pras banda das Ondinha. A merda é que ela só contô como fazê o cuscuiz de pexe. Prometeu ensiná o de frango na outra veiz, quando a gente fosse no Tanquâ. Nóis nunca mais se vimo, num amei Frora no Tanquâ, ai que tristeza!

Intão, lá vai a receita di cuscuiz da Puta frora, cuscuiz tamém da Festança do Divino:

“Separa uns meio quilo de filé de pintado. Já num tem mai no rio, mai quarqué merda de pexaria traiz pintado do Pantanar. Daí, taca tudo junto: um quilo de farinha de milho, treis ovo, 100 grama de farinha de mandioca. Daí, taca uma merdinha de uma pitada de orégno e otra de nois moscada. Daí, taca ervilha, azeitona, moio de tomate, sarsinha, tudo a gosto de cada cuzinhera, pois gosto é tudo, né, caraio? Pra recheá, taca otra merda de mistura de tomate, parmito, azeitona, cum mai otra porrada de farinha de mandioca com a de milho. Despoi, taca um tiquinho de água sargada, a sarmora, né? Daí, junta a merda do resto – azeitona, ovo, erviha, sarsinha picada – e taca no cuscuzero, tacando o pexe em pedaço, tacando mai e mai, até enchê o cuscuzero. Daí, dexa cuzinhá por uns vinte minuto.”

Perguntei pra minha amada Frora como fazê cuscuiz sem cuscuzero. Ela me oiô, suspirô, virô pro lado, durmimo que nem dois anjo…

1 comentário

  1. Celso Bisson em 02/12/2012 às 07:32

    crônica do Jornalista piracicabano Cecílio Elias Netto. Uma bem tramada fusão do religioso, profano, histórideamor(?) e receita. Coisa de Mestres da literatura!

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