Abel Bueno: o guardião do nosso cururu

Em homenagem a Abel Bueno, reproduzimos agora histórica entrevista que ele deu ao jornalista Ronaldo Victoria, então editor de A PROVÍNCIA.

17/09/2006

O incansável guardião do nosso cururu

Aos 73 anos, Abel Bueno, piracicabano do bairro do Paredão Vermelho, é como se fosse um herói da resistência. É um dos últimos representantes de uma arte, piracicabana na essência, e que, segundo ele, “está em extinção”: o cururu. “Os cantadores autênticos já se foram e não deixaram herdeiros”, lamenta. E as novas gerações não conhecem o canto, ou conhecem de forma deturpada, já que muitas apresentações que se rotulam de cururu “viraram pornografia”. Abel, irmão de outro famoso cantador já falecido, Nhô Serra, tenta junto ao poder público preservar o cururu, mas anda meio desanimado. “Não adianta só boa vontade, eles precisam investir”. Apesar de tudo, não reclama da vida – “fazer o quê, deito e acordo pobre” – e, nesta entrevista exclusiva para A PROVÍNCIA mostra que seus versos continuam afiados.

Foto: Abel Bueno / http://tradicaopiracicaba.wordpress.com/2008/08/page/2/

Foto: Abel Bueno / http://tradicaopiracicaba.wordpress.com/2008/08/page/2/

A PROVÍNCIA – O cururu está morrendo?

Abel Bueno – Está em extinção, por falta de incentivo do poder público e até da nova geração, não por culpa deles mas de falta de divulgação. Como eles vão valorizar o que não conhecem? Acontece que aqueles que sabiam da tradição do cururu morreram todos e não deixaram herdeiros.

– O Projeto Cururu, da Ação Cultural, com apresentações semanais, não ajuda?

-Está ajudando, mas muito devagar. O poder público faz, mas falta divulgação. Não adianta nada só boa vontade, hoje em dia a gente sabe que sem dinheiro não se consegue mais nada. Então eles marcam apresentações que tem meia dúzia de gente ou são canceladas por falta de público. O que eu queria mesmo era um espaço para fazer oficinas que ensinassem as danças folclóricas de Piracicaba.

– Como é esse projeto?

– A gente teria um espaço para ensinar coisas que o pessoal de hoje em dia nem sabe de que se trata, como catira, samba lenço, cana verde, samba de roda, dança do caranguejo… Eu não gosto de falar em resgate, como esse pessoal mais estudado fala, porque pra mim resgate é chamar ambulância pro nego que está trombado na rua. Mas seria uma coisa parecida, seria mostrar para quem tem interesse coisas que nasceram em sua terra.

– E o que é cururu?

– Cururu é mensagem, é poesia. Tanto que antes era religioso, era cantado no altar, na frente dos santos. E você tinha de conhecer a história não só geral mas desta região do Médio Tietê que foi onde nasceu essa arte, no triângulo entre Piracicaba, Sorocaba e Botucatu.

– Cada pesquisador tem sua teoria…

– Pois é, mas eu não falo do que pesquisei, eu falo do que vi.

– E a nova geração, valoriza?

– Como eles vão valorizar o que não conhecem? Outro dia uma repórter me disse que tinha a impressão de que cururu era tudo igual. Isso é triste. E tem também muita deturpação. Em bares aparece gente que começou ontem e começa com uma cantoria que cai para a pornografia. Isso não é cururu.

– De onde vem o nome cururu?

– Ih, aí que começa a encrenca! Quando você não tem uma história escrita, cada um tem a sua teoria e fica difícil dizer qual é a certa. Uns dizem que é por causa de um sapo que tem no Norte chamado cururu, outros dizem que cururu é a roda que se formava dos violeiros. Eu acredito mesmo que era por causa do mutirão que se fazia nos sítios naquele tempo em que o dono oferecia para os caboclos uma erva chamada caruru que servida junto com feijão e farinha de monjolo. Então os caboclos falavam um pro outro: “vamos lá que o caruru do hóme é bão” e daí virou cururu, não só a erva mas a cantoria que se fazia.

– Desde quando o senhor vive o cururu?

– Desde que nasci, há 73 anos, aqui em Piracicaba, no bairro do Paredão Vermelho. Meu mano mais velho, Sebastião, o Nhô Serra, já era cantador. Aos 6 anos eu já amanhecia na roda de cururu.

– O que é preciso para ser um cantador?

– Não precisa nada, pois o cururu está morrendo.

– Reformulando a pergunta, o que era preciso para cantar cururu?

– Era preciso saber da tradição, saber o que estava falando. Mas os mais famosos se foram e, apesar de todos ter muitos filhos, nenhum quis seguir os pais. Então não houve renovação.

– O que o senhor acha desse cururu que se canta em bar?

– Acho que não é cururu, é pingaiada. Acho que eles confundiram tudo, não só a mensagem, mas o jeito de cantar. Eles ficam junto com o povo nas mesas, antes tinha de haver uma separação entre o cantador e o público na hora de se apresentar. E eles querem falar coisas para o povo dar risada, aí caem numa coisa pornográfica, na ofensa. É preciso moralizar porque do jeito que eles estão cantando cururu virou besteira e não uma mensagem. Isso é um desrespeito aos grandes como Nhô Serra, Pedro Chiquito. Zico Moreira, João Davi, Sebastião Roque e tantos outros.

– Além de ser cantador, o senhor teve outras profissões?

– Fui motorista de táxi, tive restaurante, mas hoje estou parado, nem aposentado estou. Tive quatro filhos, todos formados, e nenhum quis seguir no cururu. Hoje faço shows e viajo bastante.

– Como é recebido em outros Estados?

– Ah, é uma beleza, todo mundo tem muito carinho por Piracicaba! Em Piracicaba não tem caipira, o que a gente tem é esse sotaque que é muito nosso e ninguém precisa ter vergonha disso. No Rio de Janeiro eles sempre gostam quando eu conto causos.

– Que tipo de causos?

– São histórias de antigamente. Como aquela do caboclo da cidade, formado, que foi conhecer os caipiras do sítio mas começou a tirar sarro, dizendo que eles eram muito atrasados. Parou para falar com um, um caipira típico de barbinha rala e picando fumo, e perguntou se podia tirar retrato. O caipira respondeu: “É cinco merréis adiantado”. O outro pagou e o caipira disse para ele: “Pois é, dotô, nóis sêmo atrasado mas nóis nunca paguemo pra tirar retrato!”

– O senhor parece não gostar de reclamar da vida…

– E adianta? Eu deito pobre e levanto pobre, fazer o quê? Mas o nosso presidente Lula gosta tanto dos pobres que dizem que até o fim do governo dele vai ter 80% a mais de pobres no Brasil…

– O que é a carreira do cururu?

– A carreira é a rima. Tem a carreira de São João, com versos terminados em ão, a carreira do sagrado…

– Qual é a importância da viola?

– A viola é que dá a inspiração. Eu gosto de me apresentar com meu companheiro Milo da Viola pois ele me conhece mais. Cada cantador tem a sua toada, seu jeito de cantar. E tem o baixão, que é a introdução típica de cada cantador. No meu caso eu consegui fazer com que as mulheres se interessasem mais por cururu porque meu baixão é poético: “Perambulando pelas ruas da cidade/ Uma criança vivia vendendo flores/ Quando encontrava um casal de namorados/ Oferecia com carinho e muito amor/ Rosa vermelha, rosa amarela/ Compra, seu moço/ E dá de presente a ela

– É só dar um tema que o senhor segue em frente?

– Essa que é a arte do cururu. Falo de política e outro dia cantei numa igreja falando do milagre de Jesus.

– E se eu pedir para o senhor falar do nosso jornal eletrônico e também da situação do país?

– “O primeiro verso que canto/ Vou fazer apresentação/ Meus companheiros que é de raiz e tradição/ Me orgulho de ser brasileiro/ Ser filho dessa nação/ Quando nasci nesse mundo/ Deus me deu satisfação/ Sou filho de um homem pobre/ Trabalhador desse chão/ Mas ele tinha grande riqueza/ Que é o perfume do sertão/ Perto do meu rancho/ A vida não tinha problema não/ E também na piracema/ Se catava peixe com a mão

Meu prezado Ronaldo/ Você está fazendo um trabalho/ De grande opinião/ Dá um abraço pro Cecílio/ Que mora no meu coração/ É um dos piracicabanos/ Que estimo que nem um irmão/ Para o Cecílio que Deus dê sabedoria/ Igual deu a Salomão/ E agora tem Província Online/ Que é um jornal muito do bão/ Nós vamo entrando no site/ Que vai chegar até o Japão

Mas o Brasil de hoje em dia/ Tem grande complicação/ Nós temo de ter cuidado/ Logo vem vindo mais eleição/ Vamo pensar bastante/ Que os home são embrulhão/ Mas para o Brasil ficar de pé/ Por que não uma muié/ Pra presidir essa nação.”

*Ronaldo Victoria é redator do Jornal de Piracicaba. A presente entrevista, ora republicada, é de sua autoria quando e como editor de A Província online.

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