O retorno da Festa do Divino depois de proibida pela Igreja

Característica de Piracicaba, a Festa do Divino tem seu primeiro registro na província datada de 1826. Mas, em 1965, a Festa correu o risco de desaparecer, quando o bispo diocesano, D. Aniger Melillo, decidiu retirar a participação da Igreja Católica dos festejos, alegando que se tornaram predominantemente profanos. Durante cinco anos, a Festa deixou de ser realizada, só voltando em 1972.

A crônica abaixo foi publicado em 1977, pelo teatrólogo José Maria Ferreira e relata um pouco desta retomada, tendo à frente João Chiarini.

“… sem a participação da Igreja, a própria parte profana da festa entrou em rápida decomposição. O povo não admitia a festa sem a missa, o padre, a procissão. Em 1972, a convite da Prefeitura de Piracicaba, o Centro de Folclore local, entidade presidida pelo Prof. João Chiarini, resolveu recomeçar tudo de novo. Foi preciso ensaiar, então, pela primeira vez, o que durante décadas tinha sido uma manifestação popular espontânea.

Foto: Roberto Henrique Amaral da Silva

Tudo tinha desaparecido. Barcos, remos, o batelão, varejões (imensas hastes de madeira destinadas a mover o batelão ), uniformes de marinheiros e ex-votos que tinham sido conservados durante décadas. A festa teve que ser literalmente encenada como um grande espetáculo de teatro num cenário que também já não era mais o mesmo. A poluição atingira limites tais que cardumes inteiros de peixes mortos rodavam sinistramente rio abaixo,

sem que as autoridades tomassem a menor providência.

Aos poucos tudo começou a renascer. A família Ballestiero voltou a fabricar ‘rojões de vareta’. De Anhembi veio o ‘capelão’ ausente para ‘puxar o terço’, acompanhandoo povo. Os cantadores de cururu reapareceram. As irmandades se organizaram como pessoas jurídicas para salvaguardar seu próprio futuro (e o da Festa) e estudiosos de todo o Brasil e alguns do exterior, voltaram para documentar com suas câmeras e gravadores a festa que ressuscitou….

…. em 1975, tiros de trabuco , um autêntico trabuco do século XVIII, garante o Prof. Chiarini, ainda reboa pelas silenciosas madrugadas piracicabanas para avisar a cidade que os irmãos do Pouso se aproximam em seus barcos carregados de prendas para serem leiloadas. Muitos meses antes eles desceram o rio para pedir as esmolas. Junto ao esmoler, seguiram o violeiro, o tocador de caixa, o tocador de triângulo e o bandeireiro, conduzindo a bandeira do Divino. Agora que eles estão de volta, outra Irmandade, os irmãos do Divino, já tem tudo preparado para recebê-los. As ruas foram enfeitadas com arcos de bambus colhidos na lua nova e carregados de bandeirinhas de papel colorido e um enorme batelão, igualmente enfeitado, no dia marcado sairá ao encontro deles, conduzindo os festeiros e toda a corte do Divino: o Imperador e a Imperatriz, pagens e damas e os famosos marinheiros do Divino, uma função transmitida de pais para filhos através das gerações.

O encontro se dá, finalmente, na curva do Almirante, um trecho do rio remançoso e bucólico, apesar de todo o devastamento da paisagem e da poluição das águas. Revoadas de pombos e centenas de rojões de vareta assinalam o encontro propriamente dito, entre as duas irmandades. Depois, lentamente, o batelão pesado de gente, rodeado pelos barquinhos dos Irmãos do Pouso, volta rio acima até o Largo dos Pescadores, onde os marinheiros erguem com seus remos o Mastro do Divino, nas margens do rio, exatamente no local onde outrora havia o pântano.

O sol de inverno acaba de se por e todo o cenário parece fantasticamente mergulhado numa luz dourada. E quando a noite desce, finalmente há o leilão de prendas, o cururu, há o batuque e a cana verde, o samba e roda e o de lenço, todos mantidos ainda razoavelmente intatos….”

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