A queda do COMURBA

No dia 6 de novembro de 1964, um estrondo aconteceu e uma nuvem de poeira fez anoitecer o centro de Piracicaba, era a queda do Edifício “Luiz de Queiroz”. Completando agora 45 anos, A PROVÍNCIA resgata detalhes dessa triste história. As informações e fotos são do Memorial de Piracicaba – século XX.

Naquele dia 6 de novembro de 1964, quando o estrondo aconteceu e uma nuvem de poeira fez anoitecer o centro de Piracicaba, o prefeito Luciano Guidotti estava almoçando. Ao calor do verão, as mocinhas mais ousadas passeavam pela Rua Governador, à hora do almoço, ou voltavam das aulas desfilando suas minissaias, invenção de Mary Quant, desconhecida modista inglesa. E elas, agora, podiam sair de automóvel com seus namorados, rompendo proibições antes intocáveis. Era, pois, normal ver moças e rapazes andando nas Vemaguets, nos Simca-Chamboard, nos Gordini, carros da moda. E discutir música popular brasileira, aquela Elis Regina que estava aparecendo, a “Jovem Guarda”, Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Wanderléia. E o moço de olhos azuis, Chico Buarque.

Naquela hora, Antônio Néder – pai do futuro diretor da Faculdade de Odontologia, Antonio Carlos Néder – estava passando sob a marquise do Edifício “Luiz de Queiroz”, o COMURBA, e o velho Samuel Neves, em sua casa na rua Prudente de Moraes, estava preparando-se para atender clientes. Então, o prédio desabou. Antônio Néder foi soterrado, Samuel de castro Neves afogou-se no pó, os redatores do “Diário de Piracicaba” pensaram que o mundo estava acabando naquele mar de poeira.

Eram 13h35 daquela sexta feira negra. Toda a parte do edifício, voltada para a rua Prudente de Moraes, viera abaixo, sem qualquer aviso ou suspeita. Eram 15 andares e 45 metros de largura que desmoronavam. Cerca de trinta operários, naquela hora de almoço, estavam trabalhando e, pelas ruas próximas ao edifício, a cidade se movimentava, inclusive à espera da sessão do cinema. Uma nuvem de poeira cobriu o centro, nada se enxergou, não se sabia o que estava acontecendo. Após o silêncio inicial, os gritos, os pedidos de socorro, a mobilização do povo, a chegada rápida do Corpo de Bombeiros, a ajuda maciça da indústria com suas máquinas possantes, socorro vindo das cidades circunvizinhas. O Clube de Radioamadores, nessa oportunidade, revelou a importância que tinha para com a comunidade, estabelecendo pontes de comunicação com o mundo todo.

A família de Francisco Candeias Coroa – dono da Casa Portuguesa e personalidade queridíssima – foi soterrada quando o prédio caiu sobre a casa em que residiam. No primeiro dia, já se contavam 19 mortos e 14 feridos. O Cine Plaza foi inteiramente destruído quando se preparava para a sessão das 14 horas: Clarice Carrel, jovem funcionária da “bombonière” do cinema, se tornou símbolo da tragédia ao ficar por longas horas gemendo e gritando sob os escombros. Retirada com vida, não resistiu. Morria, também, um garotinho que por lá passava, Clóvis Galvani. Piracicaba conheceu o sentido da palavra “dantesco”.

O Governador Adhemar de Barros veio pessoalmente averiguar a extensão da tragédia, o prefeito Luciano Guidotti não quis recebê-lo. A política intervinha naquela hora amarga, para desassossego e indignação da população. De Roma, onde estava em visita “ad limina”, D.Aníger Melilo enviava palavras de conforto poucas horas depois, com bênçãos especiais do Papa. Uma semana depois, ainda se procuravam corpos de vítimas: 41 já tinham sido encontradas mortas.

Por mais de uma década, os escombros do COMURBA ficaram na Praça José Bonifácio como um espectro a anunciar a paralisação de Piracicaba. Não apenas houvera tragédias pessoais e familiares, mas intensas repercussões econômicas. A construção civil permaneceu paralisada, uma indústria que, em Piracicaba, se revelara arrojada e pioneira. Discutiam-se muito mais as causas – responsabilidades, culpas – do que os efeitos da tragédia. As famílias recusavam-se a comprar apartamentos. Todo o ambicioso projeto urbano de Piracicaba – que se concentrara naquela Companhia de Melhoramentos Urbanos – tinha ruído com o “Edifício Luiz de Queiroz”. (Continua)

Autor: Texto de Cecílio Elias Netto, edição de Tais Romanelli
Memorial de Piracicaba, de Cecílio Elias Netto – séc. XX

14 comentários

  1. Wenceslau Castilho em 10/01/2013 às 16:49

    "///.Eu me lembro perfeitamente daquele dia 06 de Novembro de 1964,quando ao retornar-me da cidade de Rio das Pedras,mais ou menos ,ás 15:30hs,vi toda a cidade de Piracicaba coberta por uma imensa nuvem de poeira,resultante do desabamento do "Edifício Comurba,sendo na ocasião o maior prédio construído nesta cidade.Após a queda do referido "Edifício",podia-se ver corpos de trabalhadores,presos e pendurados sobres os escombros,uns mortos e outros pedindo socorro.Foi grande a movimentação das pessoas,inclusive do corpo de bombeiros que fizeram de tudo para resgatar alguns corpos com vida"//.

  2. Toni em 08/11/2013 às 18:14

    Por que voce não falou se alguém foi responsabilizado ?

  3. Linneu Stipp em 10/11/2013 às 07:45

    Minha mãe ia pagar a conta de água, sempre visitava a famíliaia portuguesa, mas…

  4. Rubens Morandi Junior em 20/11/2013 às 19:55

    Eu estava na casa dos meus avós que morava na Moraes Barros esquina com a Vergueiro, meu avô José Marconi era mecânico e fomos até a auto geral comprar peças eu tinha 4 anos e 10 meses ele deixou o carro debaixo das arvores da praça, e voltando fomos para casa, qdo um estrondo grande foi ouvido e em seguida as viaturas da policia começaram a sair da delegacia que era na vergueiro no quarteirão de cima, esta história nunca saiu da minha cabeça quando eu narrei para minha vovó que eu estava com meu velocipede e uma laje do prédio caia em camera lenta. sobre mim isto a uns 15 dias antes.O que mais marcou foi a familia portuguesa, a bomboniere e o gerente do cinema, segundo contaram ela falou onde o gerente estava localizado nos escombros. Rubens Morandi Junior, 53 anos

  5. Antonio M. L. Toledo em 04/12/2013 às 18:19

    Lembro muito bem dessa tragédia. Tinha meus 15 anos e estava passando em frente ao Museu Prudente de Moraes quando ouvi um enorme estreondo e uma imensa nuvem de poeira . Corri até a praça e fiquei estarrecido com aquele cenário horroroso. Jamais podia imaginar que aquele enorme e bonito edifício podia desmoronar daquele jeito, como se fosse um castelo de areia. Saber que muitas e muitas vezes estava eu lá, engraxate que era na praça, apreciando os cartazes de filmes do cine Plaza e as incríveis figuras do Museu de Cera, que funcionavam no térreo do edificio. Depois lembro que toda aquela montanha de entulho, formada por ferros e concretos, foi jogada no quadrilátero formado pelas ruas 13 de Maio, Visconde do Rio Branco, Voluntários de Piracicaba e Manoel Ferraz de Arruda Campos, onde anos mais tarde foi construida a loja Eletroradiobraz (hoje Pão de Açucar), onde fui trabalhar por longos 25 anos.

  6. Roberto Telles de Souza em 23/02/2014 às 11:12

    No momento em que o edifício ruiu, assistia a uma aula de Ciências com o saudoso professor Francisco Godoy, no Sud Mennucci. Na carteira ao lado, o colega de classe, Sérgio Nechar (hoje Deputado Federal, morando em Catanduva) gritou: – Telles, o Comurba caiu. Olhei rapidamente para a direção do prédio e nada vi, apenas ouvi um som diferenciado após uns segundos. Foi quando uma nuvem escura de fumaça começou a se erguer do chão, num horrível espetáculo. Era algo parecido com o que se vê nas filmagens das quedas das Torres Gêmeas do WTC. O nome do edifício era Luiz de Queiroz, mas era conhecido pelo nome da construtora, Comurba. Ainda que o prédio estivesse desabitado e em fase de acabamento, no andar térreo já funcionava o Cine Plaza. Estava em exibição o filme “A vida pecadora de Cristhine Killer”, que narrava um escândalo político real. Havia nesse filme algumas poucas cenas eróticas. Pouca coisa. Ainda bem que não havia sessão naquele horário. Algumas pessoas mais velhas e conservadoras atribuíram a causa da queda do prédio a um castigo divino devido ao conteúdo “pecaminoso” do filme. O que realmente ficou dessa tragédia foi a tristeza pela morte de dezenas de operários da construção civil que lá trabalhavam, além de uns poucos transeuntes e moradores de imóveis do entorno da titânica e imponente obra de engenharia. Aos poucos, a nuvem diabólica de poeira cinzenta que atingira mais de 200 metros, começou a baixar em forma de luto para a primeira grande catástrofe da Noiva da Colina. Eu tinha apenas 13 anos de idade, mas já conseguia avaliar a dor das mazelas humanas.

  7. […] Usina de Letras; A província. […]

  8. Marcia Galesi Abdala em 05/08/2014 às 23:59

    Eu ouvi o barulho e vi a imensa nuvem de poeira da janela de casa ,moravamos na r. Prudente com a Vergueiro ,embora eu fosse muito pequena eu lembro da tristeza da minha tia Margô que perdeu os amigos da casa Portuguêsa e do meu tio Benito que foi voluntário na ajuda das buscas de sobreviventes entre os escombros .

  9. Henrique Faria em 07/11/2014 às 10:47

    Eu me lembro perfeitamente desse dia. Eu estudava em Piracicaba, no Seminário São Fidelis, dos frades capuchinhos. Pode parecer mentira, mas eu estive embaixo desse prédio duas ou três horas antes do acidente. Eu havia saído para buscar um relógio meu que estava no conserto, e dei uma passadinha pelo Comurba para dar uma olhadinha nos cartazes do cinema. O filme que estava passando naquele dia: “A vida pecadora de Christine Keller”

  10. Deuzenildo Ferreira em 14/01/2016 às 20:22

    Entao, o motivo da queda? alguem pode falar mais sobre a cidade naquela epoca, o que era comum nas ruas, tipo, a sociedade de entao, qual era o uso e a moda? o que as pessoas mais falavam, alguem ai da epoca pode ajudar na pesquisa?

    • Afonso Negri Neto em 28/07/2016 às 01:41

      Os motivos foram várias e esta bem documentado na Engenharia mundial e pelo que sei várias Faculdades de Engenharia e Arquitetura derem com exemplos de Sala de Aula.
      Erq para ter um numero de andares e aumentaram mais cinco. Alem de se fazer uma economia de material , pois a proporção de areia para cimento foi no sentido de economizar cimento. Nota-se que o prédio tinha sido construido em duas partes e a que caiu que tinha esses problemas. Ajudei a tirar duas pessoas nessa trgédia: a profa Maria de Lurdes e um que estava na laje superio e desceu junto e estava em estado de choque. Tinha 17 anos nessa data e pensava que tinha acontecido en final de outubro. A profa foi localizada dentro do carro pelo Massariol

      • Deuzenildo Ferreira do Nascimento em 29/07/2016 às 08:24

        Legal, obrigado pela resposta, eu ainda gostaria de saber o que era moda na época, o que estava em alta, por exemplo, hoje à alta na música é o funk, sertanejo universitário e por aí vai.. mas isso já ajuda..

        Abraços..

  11. José otaviano botezelli em 22/05/2016 às 21:01

    Não tinha um museu de cera no local?

  12. Marcos Palombo em 11/11/2016 às 09:57

    Meu Pai foi um sobrevivente dos escombros do Comurba, ele conta a historia com muita riqueza de detalhes

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