Cidinha e Ernst Mahle: uma história de amor

 

 

(Esta entrevista foi feita em 2004. Em respeito à sua importância histórica, o autor não atualizou datas e situações.)

A sala de Cidinha Mahle é nova. Ela está feliz: “É a primeira vez que tenho uma sala apenas minha.” E são 50 anos de Escola de Música. Completa: “A sala virou até atração turística.” Agitada, rápida, Cidinha sai e volta, enquanto aguardamos Ernst Mahle que está no pátio. Sobre a escrivaninha, uma pauta musical: “Louvor a Deus”, arranjo de Mahle. Um sofá branco, um órgão e a banqueta.

Há 14 gravuras de Clóvis Graciano nas paredes. “Como você percebeu que era Graciano? As pessoas acham bonitas mas não sabem que são dele.” – pergunta-me Cidinha. E como esquecer de Clóvis, artista que tão próximo foi de Piracicaba? Pensei em contar para Cidinha, calei-me: Graciano quase ilustrou um livro meu. Nas paredes, “Os Músicos”, obra de gênio.

Pensei em gênio e foi como se bastasse para Ernst Mahle aparecer. Magro, risonho, gentil. Pensei estivesse de cabelos inteiramente brancos, mas são ou estão amarelos seus cabelos, ao contrário do que percebi ao vê-lo reger com emoção e bravura. Cabelos de um amarelo dourado, pensei em trigais, em figuras heráldicas.

– Agora, são 50 anos de Escola de Música. Mas, em 2005, serão 50 anos de casados. – falei, querendo provocar.

Cidinha e Ernst surpreendem-se da informação que tenho. É que, ainda, eles não sabem que o jornalista está em busca não da história da Escola de Música, que é parte disso, mas de uma história de amor. Eu sabia que Cidinha e Ernst casaram-se no 10 de abril de 1955. No mesmo dia, minha irmã Leninha casara-se com Rogério. Eram amigas, duas moças que estudaram juntas, pianistas. Cidinha consagrou-se à música. Leninha seguiu outro rumo.

Cidinha deixa a sala por alguns instantes. Pergunto a Ernst: “qual a sua cor preferida?”

 

O menino do jardim

 

Penso entender porque os cabelos de Ernst Mahle estão amarelos. Pois é tal a marca de Stuttgart em sua vida – marcas de infância, de alegrias, de guerra, de familia, de adolescência – que a cor preferida dele é o amarelo. “O amarelo da bandeira de Stutgart, que tem amarelo e preto.” Ao falar de Stuttgart, a fisionomia de Ernst Mahle se altera, os olhos como que passeiam por espaços que apenas ele enxerga. Ele olha para o alto, acompanho-lhe o olhar, nada vejo. Mas Ernst vê a infância, a adolescência, isso começa a ficar-me claro. E, no rosto, há uma aura de menino. Ernst Mahle acredita em aura, é um espiritualista. Acredita na vida, acredita em Deus ou em deuses, em algo profundamente superior. O criador da Antroposofia, Rudolf Steiner, era amigo do pai de Ernst, o dr.Mahle, e, em Stuttgart, o grande filósofo se instalou. As idéias ficaram hibernando. As reflexões de Steiner sobre a condição humana plantaram-se no menino Ernst.

– Você sabe o que significa Stuttgart? – pergunta-me.

De imediato, lembrei-me de Margareth Wagner, que me deu aulas de alemão na adolescência. Quase a invoco, para não fazer feio. Penso em “garten”, jardim. Logo, Stuttgart deve ser alguma coisa relacionada com jardim e, então, isso explicaria um ideal estético, visão paradisíaca de vida que Ernst Mahle tem. Seu olhar distancia-se, agora, para pradarias, jardins, montanhas. Sorri e explica: “Stuttgart é um lugar onde havia um jardim com muitos cavalos. É o jardim das éguas.”

E, de repente, eis que sou eu imaginando coisas: cavalgadas de éguas, cavalgadas de valquírias, a alma germânica expandindo-se entre seus músicos, pintores, filósofos, escritores. Ernst sonha e faz a gente sonhar. É um perigo. Mesmo porque, nas salas ao lado, há sons de flautas, de piano, de violinos. Penso rápido. Ou retomo a racionalidade de entrevistador ou entro no delírio e, daí, não saio mais.

No entanto, recuo, deixo fluir. Pois é apenas para privilegiados poder penetrar o cosmos interior de Ernst Mahle, o homem que construiu um mundo de sons e de idéias. Em Stuttgart e em Bludenz, pequena cidade da Áustria, o menino Ernst colheu imagens definitivas desse mundo.

Sons de flautas e de serras

Há uns 30 anos, numa entrevista que me deu, Ernst Mahle falava de um de seus derivativos: cortar lenha. Com machado na mão, ele cortava rachas de lenha para o seu próprio fogão. Era o pedreiro de sua casa. E o encanador e o pintor e o marceneiro e o eletricista. Ainda é. De suas mãos, nascem brinquedos – com alguns dos quais me lembro de ver a Leonora, uma das filhas, brincar – objetos práticos. De uma família de engenheiros, essa arte de fazer coisas tornou-se parte de seu cotidiano, desde a meninice.

Quem pensa num menino Ernst jogando futebol, estudando música, fazendo traquinagens, engana-se. O menino Ernst ficava numa oficina de sua própria casa entre serras, martelos, parafusos, tornos. Era o seu brinquedo, companheiro do pai. Lazer? Esquiar nas montanhas, escalá-las. As montanhas estão na alma de Ernst. Basta perguntar-lhe qual a flor de que mais gosta, num Brasil com tantas e tantas flores. Ele responderá, olhos de alma milenar: “a rosa alpina”. Esportes? Fazer ginástica. O pai, dr.Mahle, em sua fábrica onde nasceriam os pistões famosos, estimulava o pessoal a fazer ginástica. Pelo menos uma vez por semana, tudo parava e diretores e funcionários faziam ginástica. O menino Ernst, também.

O primeiro instrumento musical foi uma prosaica flautinha, dessas que as crianças recebem nas escolas infantis. Ernst encantou-se com a flauta. E ficou tocando flauta por uns três anos, um brilhante tocador de flauta, sem que ninguém lhe dissesse que aquilo era música, que ele era um músico nato, que tinha talento. Apenas aos 17 anos, tocando piano de ouvido, descobriu a grande paixão pela música. Tentou ingressar no Conservatório de Stuttgart. Humilde, ainda hoje se lembra e usa a palavra fracasso para se explicar: “Fracassei, fui um fracasso.” Pois não fora aprovado nos exames teóricos. No entanto, inconformado, voltou a falar com outro professor, o homem prometeu-lhe nova oportunidade se ele, ao piano, fizesse algumas variações e improvisações em torno de um compositor alemão. Ao piano, Ernst improvisou e deslumbrou o diretor.

– Ele improvisou Mozart… – conta Cidinha. E os olhos dela brilham. E eu não entendo porque os olhos de Cidinha e de Mahle brilham. Afinal de contas, Mozart é Mozart, continua sendo Mozart. Ou há, para eles, um Mozart que o resto do mundo desconhece? Descubro que há.

Mas, então, as bombas caíram. A casa dos Mahle não era mais um santuário de sons – doces sons de flautas, de piano; ásperos sons de serras, de tornos – mas de ruídos assustadores: o silvo das bombas no ar, a explosão delas dentro de Stuttgart. Os norte-americanos, entrando na Guerra, bombardeavam a Alemanha. A poucos quarteirões de onde morava, a casa dos tios de Ernst foi destruída. Toda a família se refugiou na grande casa do dr. Mahle e, de lá, resolveriam ir-se em defitinivo para a Áustria, para a pequenina Bludenz. Uma tristeza sem fim marcara a alma de Ernst, o adolescente: três de seus melhores amigos tinham morrido na monstruosidade da guerra.

Equilibristas

A família Mahle precisou viver como equilibrista durante o nazismo na Alemanha. Grandes industriais, com relações em todo o mundo, viam-se sob o jugo de Hitler. Protestantes, com visão cristã de mundo, não se conformavam com o quadro de violência que se desenhava. Mas precisavam silenciar. O “Fuehrer” mandava. Ou equilibrar-se ou fugir. Eles não acreditavam, porém, na vitória do nazismo. Ernst se lembra dos presságios de um de seus tios, em conversa com a família: “A Inglaterra, em mil anos, nunca perdeu uma guerra. Quando os Estados Unidos entrarem, Hitler será derrotado.”

O dr.Mahle soube, por antecipação, do golpe que generais alemães preparavam contra Hitler, a tentativa de assassiná-lo. E, em Stuttgart, foi um operário da indústria Mahle, que cortou o cabo de transmissão de um discurso de Hitler no ginásio da cidade, perante mais de cinco mil pessoas. O empregado, um comunista, foi encontrado pela SS nazista. O dr.Mahle respondeu: “Aqui, dentro da fábrica, ele é um grande trabalhador. Não sei e não me interessa o que ele faz quando está lá fora.”

Foi nesse tempo e, para não ser convocado a tornar-se parte das tropas nazistas, que o adolescente Ernst foi trabalhar como operário num fábrica de Bludenz. Depois, a família viria para o Brasil. Assim, Hitler perdeu um soldado e o mundo ganhou um grande músico. E Cidinha um grande amor. E Piracicaba um grande benemérito. Como Ernst diz, sem saber ou pretender explicar:

– Os deuses já tinham decidido…

A escrita dos deuses

Os deuses germânicos sempre foram poderosos. Eles vêm lá dos celtas. Logo, é preciso acreditar que eles tenham decidido o que iria acontecer. Acredito nisso pois, afinal de contas, o mundo árabe tem muito dessa sabedoria misteriosa: “mactub”, estava escrito. Portanto, partindo da certeza de que os deuses já tinham decidido, só isso poderia explicar o encontro de Ernst e de Cidinha, tão impossível de ocorrer, se visto pelos olhos da razão prática.

Cidinha, em Piracicaba, fôra aluna da notável e lendária Dona Dirce – professora Maria Dirce Rodrigues de Almeida Camargo – formando-se pelo Conservatório Carlos Gomes de Campinas. Mas queria mais. Ia à Pró-Arte de São Paulo, queria assistir a concertos, ter aulas especiais. E Ernst, chegando da Alemanha, já tinha certeza de sua grande paixão: a música. “Eu nunca pensei em ser compositor ou regente, achava que não tinha jeito para isso. Queria apenas ser pianista, um músico.” – fala. E uma tendinite absurda haveria de impedi-lo, segundo os médicos, de ser pianista. Mas havia outros instrumentos, pois Ernst Mahle toca todos eles, ainda que sua preferência sejam o piano, o violino, a flauta.

Os Mahle chegam a São Paulo, moram em uma pensão na rua General Jardim, no centro de uma cidade ainda calma e pacífica. Poucos meses depois, estão numa grande casa no Broocklin. Ernst, apaixonado pela música, sai à noite em busca de ouvir concertos. Há, no Museu de Arte, um ciclo de Sonatas de Bach. Fica extasiado ouvindo-as. Ingressa na Pró-Arte, torna-se aluno e amigo de uma personalidade extraordinária: H.J.Koelreutter. Lá estão os deuses escrevendo, escrevendo… Pois Cidinha vai a São Paulo para participar de um curso com um dos mais famosos pianistas da época, Walter Gieseking, que viria ao Brasil. Na Pró´-Arte, aguardando ser recebida, Cidinha vê um jovem com feições alemãs. Mal se cumprimentam. Ele está rabiscando coisas, sério. Cidinha percebe algo diferente para a época: o jovem não usa meias. Era Ernst Mahle.

Então, os deuses escreveram que o pianista Gieseking precisava adiar a sua viagem ao Brasil. E Cidinha, então, o quê e como fazer? O maestro Koelreutter lhe sugere – chamando-a de “Princesinha de Piracicaba” – que ela faça cursos na Pró-Arte. Com quem? E os deuses decidiram: com ele, Koelreutter, que lhe daria aulas de regência e com aquele moço alemão, o Ernst Mahle, que seria seu professor de harmonia.

Eram as primeiras linhas da escritura.

Convocando Mozart

Em seguida, os deuses convocaram Mozart. Que, aliás, já estava à disposição de almas encantadas. Koelreutter apresentou, Mozart acabou unindo. Pois, aluna de Ernst, Cidinha e o professor passaram a tocar Mozart a quatro mãos. E, sem que percebessem – ou, percebendo, e não querendo admitir – já há amor. Sei lá o que esses deuses germânicos – com misturas de celtas e de druídas – fazem. Vai ver, na alma de Cidinha e Ernst, eles atiçaram Mozart, Wagner, Beethoven, misturando “A Flauta Mágica”, “Tristão e Isolda”, “Fidelio”, mais aquelas Brigittes mágicas, Parsifais, peregrinos – pois quem pode imaginar o silencioso, tímido e introspectivo Ernst Mahle fazendo uma declaração de amor? Só com a ajuda dos deuses.

Foi assim. Cidinha iluminou-se, deslumbrada, quando, certa feita e para atender um trabalho da Pró-Arte, Ernst pediu a um amigo que lhe trouxesse as letras da “Ave Maria”, no original em Latim. O amigo esqueceu-se. Ernst exasperou-se. Então, Cidinha intrometeu-se gentilmente, como uma “Princesinha de Piracicaba”, dizendo que, se Ernst quisesse, ela poderia dizer-lhes as letras, mas cantando. Ernst estranhou, aceitou. Cidinha cantou: “Ave Maria, gratia plena, Dominus tecum…” E sei lá o que aconteceu, o fato é que, no final, faltou um “S”, a letra “esse”. E Ernst começou a discutir que, em Latim, precisaria ter aquele “esse”. Cidinha derramou-se toda: “Como podia aquele moço que sabia tantas coisas saber também Latim?”

Na verdade, Ernst, penso eu, sente mais as coisas e o mundo do que sabe deles. É um homem em sintonia, à sua maneira. Se alguém lhe perguntar sobre um filme, um artista de cinema, ficará surpreso. “Em 50 anos de Piracicaba, nunca fui a um cinema.” – conta. E não se lembra de filme algum. Suas lembranças estão presas a uma máquina de projeção e outra de filma que o pai, em sua infância, trouxe dos Estados Unidos. Ernst Mahle fala, então, de algo que parece absolutamente extemporâneo: “Lembro de um ou outro filme de Carlitos, o Charles Chaplin, de Disney…” Ao mesmo tempo, porém, entusiasma-se ao falar das novas tecnologias, um homem ligadíssimo ao computador, que compõe, hoje, no computador.

Então, depois de algum tempo de simples amizade, Ernst ia de passeio a Europa e, na estação da Paulista em Piracicaba, deixou um presente para Cidinha, pedindo que ela abrisse apenas após a partida do trem. Eram partitutas de Mozart. E com uma dedicatória. Que Cidinha recita até hoje, 50 anos depois, acompanhada por balbucios silenciosos e sorrisos de Ernst:

“Para Cidinha, com as melhores esperanças num futuro a quatro mãos.”

O futuro já tinha chegado. E eles já o tocavam a quatro mãos.

Uma lista para casar

Em Ernst Mahle, a célebre discussão entre cultura e civilização – conceitos alemães de “kultur” e “intelligentsia”, e o francês, de “civilisation” – desaparece. O universalismo de Mahle faz como que uma síntese do conhecimento, também do sentimento, acima de conceituações. Da Alemanha, além de seus compositores, Mahle bebeu da cultura de Goethe e de Schiller, os dois maiores nomes do pensamento alemão. E, na Áustria, de um universalismo europeu que se refinou em salões vienenses e em “finesses” francesas.

De formação protestante e espiritualidade antroposófica, há 50 anos vive o sincretismo brasileiro. Assim, Mahle se encantou, também, com o folclore do Brasil, especialmente o nordestino, com carinho especial por Dorival Caimmy. Mas e os hábitos brasileiros? E a comida? Ernst Mahle é capaz de transitar por tudo, mas continua construindo seu mundo pessoal. Pode comer carne aqui ou acolá, mas prefere dizer-se vegetariano. E, quando o amarelo de seus cabelos me surpreenderam e pensei em trigais, aproximei-me ainda mais do mistério quando Ernst me fala de sua comida preferida: “Milho verde”. De música e de milho verde, vive-se também. E bebida? Penso em vinhos alemães, franceses. A resposta é serena: “Água, suco de frutas.” E aproveita-se para fazer uma comparação musical: água e suco de frutas são saudáveis como a música clássica; um pouco de álcool, dá algum encanto à música popular; o “rock” é uma droga.

Essas coisas aparentemente complicadas do universo de Ernst Mahle alinhavei-as, apenas, para ajudar a entender a confusão que os deuses armaram, mesmo sabendo o que faziam. Pois havia tudo, entre Cidinha e Ernst, para dar errado aos olhos dos mortais. Cidinha pertencia a uma família católica tradicionalista, com o pai, Sebastião, sendo até mesmo “irmão de opa”, homem da Igreja, de carregar estandarte em procissão. E Piracicaba assistia ao verdadeiro Principado do primeiro bispo diocesano, D.Ernesto de Paula, num tempo em que sequer se falava em ecumenisno. Para D.Ernesto, era católico para cá, protestante para lá. Aliás, protestante para o mais longe que pudesse, se dependesse dele. Cidinha, casando-se com um protestante? E alemão, poucos anos depois da Guerra?

Foi em Teresópolis, num encontro de concertistas, que Ernst finalmente se declarou. Ele se lembra: “passeávamos pelas alamedas, lugar muito bonito. Ficávamos muitas horas conversando numa sala de estar do hotel. Já nos conhecíamos, éramos amigos há mais de dois anos, os pais dela me conheciam, os meus pais gostavam de Cidinha, por que não?”

Ele não fala em amor, tímido. Aliás, Ernst nunca namorou, nem mesmo nos bailes da Áustria, quando dançava valsas vienenses com as mocinhas de sua idade. Ernst Mahle está impregnado do pensamento platônico. E, por isso, o mundo das idéias é essencial. Ter um amor não foi tão necessário em sua juventude. Pois ele já tinha a idéia do amor. E foi com Cidinha que a idéia do amor se personificou. Ela era o seu amor. Logo, nem sequer precisava de namoro. Foi direto: “Quer se casar comigo?” Ela aceitou.

Os pais de Cidinha foram informados. O dr.Mahle, também. Mas este, homem prático e pragmático, foi voando a Teresópolis. Voando, não; isso é forma de expressão. Foi rapidamente a Teresópolis e eu esqueci de contar: o dr.Mahle foi um dos primeiros a importar, para sua família, carro Volkswagen. Foram dois “fusquinhas” e vieram em caixotes para ser montados no Brasil. O primeiro carro de Ernst e de Cidinha foi um “fusquinha”. Isso posto, lá se foi o dr.Mahle tentando dar um pouco de racionalidade ao que os deuses tinham inventado. E levou uma lista de quinze quesitos que precisavam ser discutidos e analisados: religião, nacionalidade, entre eles. Feito o balanço e sendo positivo, aprovou e abençoou o casamento.

No dia 10 de abril de 1955, Cidinha e Ernst casaram-se em cerimônia religiosa discreta, na casa dos pais dela. O celebrante – e mais certo seria falar em cúmplice, não tivesse sido a autorização do Bispo – foi o também lendário Frei Guilherme, o de barbicha ruiva, que era guardião dos capuchinhos. Pelo resto da vida, D.Ernesto de Paula, bem a seu estilo, mudava de calçada quando via o pai de Cidinha, como se se perguntasse: “onde já se viu tal desaforo?” Eram tempos tolos: católicos eram proibidos de passar na rua do Colégio Piracicabano.

Ernst e Cidinha casaram-se, tiveram cinco filhos, amargaram a dor da morte da amada Cecília, filha inesquecível, construíram um mundo a quatro mãos. E, como nas histórias das fadas – que são escritas também por deuses – continuam felizes por toda a vida. Ou 50 anos a quatro mãos não são toda uma vida?

Esta história de amor, como se sabe, foi escrita pelos deuses. Na verdade, é uma partitura. Eu apenas tentei narrá-la.

(Essa entrevista ao autor foi publicada em 2004 no Jornal de Piracicaba. É reproduzida para constar do acervo de A PROVÍNCIA, www.aprovincia.com)

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