Um cortador de cana que se tornou Bispo

Minha fé e relações com a Igreja andam complicadas. Já briguei com Deus, com os santos, com Jesus Cristo, com pastores e padres. Só não consegui brigar com Nossa Senhora. Não sei se, ainda, por me considerar um cavalheiro e, portanto, evitar brigar com mulheres ou pela candidez irresistível de Maria. Ela nunca se irrita comigo. Admito: é complicado.

O intróito é para dizer de meu estado de espírito quando me propus entrevistar Dom Moacyr José Vitti, digníssimo Bispo Diocesano. Nem sei porque o escolhi para iniciar a série de entrevistas que o “Jornal de Piracicaba” me propõe. Pensei em outras personalidades. E cheguei a Dom Moacyr. Talvez, na verdade, eu tenha chegado ao mistério de Santana. O que acontece com aquele distrito? Santana e Santa Olímpia formam a República Trentina Católica dos Vitti. Tem Príncipe de poesia, o Lino; tem Mestre, o Guilherme; tem 21 padres e 21 religiosas. E, agora, tem Bispo. Logo, é um destino, um privilégio, algo escrito nas estrelas. Foi o que pensei.

“Cara dos Vitti”

Entrevista marcada para as 15h30, atrasei-me dois minutos. Não conseguia encontrar a Cúria Diocesana, agora arejada, moderna, encravada em espaços contíguos ao Lar Franciscano. O Luiz Forti, assessor de comunicações, me recebeu. Deve ter-me julgado grosseiro, pois não fui muito afável. Na verdade, eu transpirava muito, inquieto. Era um ambiente eclesial e aquilo me incomodava. Afinal de contas, eu estaria com um Príncipe da Igreja, com Sua Excelência Reverendíssima, o Bispo Diocesano.

Vi uma sala aberta, um grupo de leigos discutindo e conversando com um homenzarrão de “clerygman” cinza, tudo às escâncaras. Tinha que ser D.Moacyr, pois era a “cara dos Vitti”

Meus olhos bateram nos dele. Foram olhares cruzados. Eu o vira apenas em fotografia. Era impossível aquele grandalhão não ser o Bispo, pensei eu. Pois ele, na aparência, nada tinha de bispo, de Príncipe da Igreja. Nem parecia ser padre. Isso, obviamente, segundo os meus conceitos ou experiências anteriores. Para mim, Bispo ou é afável como pai ou chato como um príncipe. Aquele homenzarrão – alegre entre o pessoal da APAC, tratando de pastoral de presidiários – parecia transpirar uma alegria tão pura e simples, uma forma de ser tão descomplicada e natural que me incomodou. Pois ele me fez lembrar de quando se falava de “Primavera da Igreja”, quando ateus e crentes, padres e leigos, comunistas e católicos se sentavam à mesa para conversar. Aquele D.Moacyr José Vitti que eu vi de relance – “cara de Vitti” – incomodou-me. A imagem literária que me veio à lembrança: “Se é Bispo, tem jeito de Primavera.”

Ainda que sem semelhanças físicas, lembrou-me João XXIII. Nas longas horas de duas tardes seguidas, entendi o porquê daquela impressão: ele é, sim, homem de Primavera, de terra, de campo, de campina, de rio, de água, alma da sacralidade rural. Pois, ainda agora, o sagrado é rural. E o profano é das cidades.

O menino de Santana

A história de Santana é, antes de mais nada, uma história de fé. Num pedaço de terra piracicabana, foi instalada uma comunidade que trouxe séculos de fé e de fidelidade às tradições e realidades católicas. Aos pioneiros de Santana, importou menos dizerem-se italianos ou austríacos, assumindo-se mais como naturais de Trento. E, portanto, orgulhosamente trentinos. Pobres, mas trentinos. Adquiriram a Fazenda Santana do Barão de Serra Negra e, nela, criaram uma comunidade baseada na fé e no trabalho.

Imaginar Santana em 1940 é pensar na Guerra, na perseguição aos italianos, na discriminação e, portanto, em pobreza e dificuldades. Foi em 30 de novembro de 1940 que nasceu Moacyr José, terceiro filho de Sophia e João Vitti, pais de quatro meninas e quatro meninos. Em Santana, as famílias realizam a vontade de Deus. Basta ter paciência que essa vontade se manifesta. Assim seria com Moacyr.

A pobreza acompanhou a família. Todos trabalhavam em terras alheias. E, ainda pequenino, Moacyr se tornou cortador de cana. Ainda hoje, ele se lembra, mostrando orgulho da infância sofrida mas vivida em uma família feliz:

– Eu me levantava às cinco horas da manhã, íamos de caminhão para o corte da cana. Voltávamos apenas às cinco horas da tarde. Meus pais tinham muito amor, eram amigos dos filhos.

Pela manhã, o desjejum era polenta com leite de cabra. E, por quase o dia todo, mais polenta, mais leite de cabra. “De comida, o que eu mais gostava era de quando havia arroz, feijão e frango.” – recorda-se, com o pensamento voltando-se para as terras da Usina Costa Pinto, nos ouvidos ecos do nome Celso Silveira Mello, comandante da usina. Mas cortar cana era pouco. Para ganhar uns trocados, fez-se “vendedor de alho”. E o comprador era o primo, Lino Vitti, o “cidadão Lino”, assim chamado por ser homem da cidade.

Lino fala de Moacyrzinho:

“Ele era miudinho, misterioso em seus olhares e conversas de criança. Todos trabalhavam, a prole era grande. E, como os tostões do pai eram difíceis, ele inventava maneiras de ganhá-los e uma delas foi a de recolher as cabeças miúdas de alho, que os adultos deixavam no local da plantação ou no terreiro a secar, e com elas fazer trancinhas para me vender. Ele queria ajudar o pai, um lavrador que nunca teve medo da enxada, da foice, do machado, do arado, de todo e qualquer serviço da roça. Ele queria reduzir a angústia da pobreza.”

Um amor infantil

O menino Moacyr morou na Fazenda Negri, numa casa que ainda existe. E, depois, no “Grupo”, como era chamado o local do grupo escolar onde estudou, o “ Samuel de Castro Neves”. No tempo que sobrava, jogava futebol, peladas, pescava, caçava nas matas de Santana e Santa Olímpia. Com o primo Lino, ia colher frutas silvestres, amoras, maracujás. E foi “ladrão” de mangas e bananas dos sitiantes vizinhos, como não?

Lembra-se das primeiras professoras: Lurdes, Isabel, Terezinha. E do professor Nestor, diretor da escola.

– E não se apaixonou por nenhuma professora? – pergunto.

D.Moacyr ri, pensa, meneia a cabeça, como se lhe fosse estranho imaginar um menino apaixonado pela professora. Insisto:

– Mas não teve nenhum amor de garoto, nenhuma namorada?

Ele dá uma risada larga, a lembrança lhe é agradável e ingênua. Confirma:

– Tive, sim. O nome dela era Irma, morava lá. E teve outras meninas que me interessaram, uma meninice bonita…

Pois é. Irma, hoje casada, escapou de ficar solteirona. Pois o namoradinho de Santana, cortador de cana e catador de alho, logo depois, aos 12 anos de idade, iria para o seminário.

A vocação e o Bar do Chico

Quase tudo em Santana é envolto em religiosidade. Se não apenas católica, uma religiosidade diante da natureza. O menino Moacyr viveu esse ambiente de fé, de respeito, da presença de religiosos, de orações, missas, novenas, terços. Nunca pensou, no entanto, em se tornar religioso. A vocação começou a brotar “em frente ao Bar do Chico”. Era onde um frade capuchinho, Frei Paulino, estendia um telão para passar filmes. Naquela noite de seus 12 anos, o primeiro chamado lhe veio quase à porta do bar, na emoção de um filme, a história de um padre belga, missionário entre enfermos: “Padre Damião entre os leprosos”, o nome do filme através do qual o chamamento chegou a Moacyrzinho. Irma, a namoradinha platônica de Santana, começava a perdê-lo.

Pouco tempo depois, um padre estigmatino apareceu em Santana para fazer orações e falar à juventude. Era o Padre Frederico Vetori. O tema: “o que era ser padre”. Moacyr ouviu, foi para baixo de uma árvore conversar com o pai e um tio. Ora, não sei se é a mesma árvore, mas os poetas de Santana falam de uma árvore mágica em cuja sombra acontecem maravilhas. Sob aquela árvore, aconteceu o novo chamamento. Passando por ela, o Padre Frederico andou, voltou, falou para o menino: “Você poderia ser um bom padre.”

Mais não precisou ser dito: Moacyr entendeu o chamamento. A família sacrificou-se, a irmã Ilda passou noites e noites na labuta de fazer-lhe o enxoval para o seminário. E, no dia 17 de janeiro de 1953, Moacyr – acompanhado do pai – subiu num caminhão e foi-se embora para Rio Claro, onde o Colégio Santa Cruz o aguardava.

– Foi uma despedida triste, difícil. A separação da família doeu muito, principalmente porque, sendo muito criança, eu não tinha certeza da vocação.

Nos pulmões, Moacyr levava o cheiro que nunca mais o abandonaria e que, até hoje, é o perfume que lhe traz recordações e emoções: o cheiro da cana. No colégio, dois padres piracicabanos o receberam: Fernando Guarda e Alcides Spolidoro. Começava a grande aventura religiosa.

Tempos de seminário

Estou diante de um homem emotivo. Ele admite esforçar-se para conter lágrimas, emoções. Pergunto-lhe de sua primeira noite em Rio Claro, a criança afastada da família. Os olhos de D. Moacyr afastam-se para algum lugar ou outro tempo. Admite: “Foi difícil, muito difícil. Aquele casarão silencioso, enorme, a saudade da família, a disciplina rígida…” Certamente, deve ter pensado em roubar mangas ou caçar passarinhos. Mas muda de assunto.

Fica dois anos em Rio Claro e, depois, vai para o Instituto Gaspar Betoni em Ribeirão Preto, onde faz o Seminário Menor. Tempo de grandes amizades, entre eles o atual arcebispo de Sorocaba, José Lamberto, o primeiro bispo estigmatino e professor, D.Hélio Pascoal, o bispo de Guaxupé, D.José Geraldo. “Foi o tempo de amadurecer a vocação.” – enquanto se entusiasma lembrando-se das amizades, jogos de futebol. Ora, quem joga futebol tem apelido. Qual era o apelido do Bispo Moacyr?

– “Massa”… Eles me chamavam de “Massa”. Ainda me chamam. – responde o Bispo.

E, então, descubro que o Sr.Massa é, como todo ex-jogador de futebol, um grande inventor de histórias. Deixo que ele conte, fingindo acreditar:

– Eu era zagueiro central, jogava bem. É verdade que eu entrava duro nos adversários, mas não era fácil passar por mim, não. O Sócrates – o grande Sócrates que foi da Seleção – jogava no juvenil do Botafogo de Ribeirão, uma vez o time do Seminário jogou contra ele e…

Fico esperando o papo-furado, aguardando que, no entusiasmo, S.Exa.Revdma. me conte que, “então, eu parei o Sócrates, não o deixei pegar na bola.” Acho, porém, que ele se lembrou que é Bispo e não contou a vantagem. Mas, vantagem ele conta, sim. Pois é pescador e não há pescador que não invente coisas: “Ainda não peguei o peixe que eu quero pegar, mas já pesquei muito peixe grande.”, fala. E, além de tudo, joga truco. Que truqueiro não blefa, não mente, não fala palavrões? Dom Moacyr admite que, no “truco”, é conhecido por “guardar carta nas mangas”. Pergunto:

– Qual o palavrão que V.Exa. mais gosta de falar no “truco”?

Ele tenta disfarçar. Sorri, ri. Depois, gargalha. Tento, teologicamente, provar para Dom Moacyr que falar palavrões no “truco” não é pecado. Finalmente, ele reconhece. E diz seu palavrão preferido:

– “Lazzaroni!”

Ora, bolas. E isso é palavrão? Mesmo assim, dou-lhe minha absolvição. Mas não o absolvo quando ele me revela o pecado maior para um bispo: D.Moacyr não é corintiano. Timidamente, como que com medo de ser vaiado pela italianada palmeirense de Santana, ele revela: “Torço para o São Paulo F.C.” Ninguém é perfeito.

A ordenação

Em 1959, o seminarista Moacyr deixa Ribeirão Preto e inicia seu noviciado em Casa Branca. Serão tempos de silêncio, de reflexão, de decisão. Está isolado do mundo. Nem sequer sabe que, em Roma, o Papa João XXIII anunciara a convocação do Concílio Ecumênico Vaticano II, que iria anunciar a “Primavera da Igreja”.

No dia 8 de dezembro de 1960, faz os votos cobrados aos religiosos: pobreza, castidade, obediência. A família, emocionada e rendendo graças, ouve a profissão de fé daquele jovem de 20 anos. Ninguém consegue prever o que Deus lhe reserva. E Moacyr – o Moacirzinho de Santana – vai para Campinas, fazer Filosofia e Teologia no Seminário Estigmatino.

Como foi ser jovem num Seminário? Tento saber da vida pessoal, de tentações, desânimos. Mas a alegria do homem é imperturbável, uma fé alegre, certezas sólidas. “Foi um tempo muito, muito feliz.” Até tocava na banda, dá para acreditar? Era clarinetista. E fazia teatro e cantava no coral. Música preferida? “Aída, de Giuseppe Verdi” – e cantarola, um vozeirão de barítono, a história da pobre escrava da filha do faraó.

Ordena-se em Campinas, dia 16 de dezembro de 1967, na capela do Seminário. Pergunto-lhe da última noite antes da ordenação, se inquieta como a de noivo em véspera de casamento. D.Moacyr admite o paralelismo:

– Muita ansiedade e muita alegria. Foi como um filme, revendo toda a pobreza, as dificuldades e, agora, a felicidade minha e de minha família.

Os Vitti estão todos lá. Aliás, é Santana na capela. E todos chorando e rendendo graças. Chove muito. Talvez, o bispo ordenante, D.Hélio Paschoal, não tenha entendido que, quando Santana chora, chove. E, no dia seguinte, 17 de dezembro, a primeira missa do Padre Moacyr José Vitti é lá mesmo, em Santana. Entre os seus. Num grande almoço onde, obviamente, não faltaram polenta, frango, chouriço e lingüiça calabresa. E vinho feito por mãos tirolesas.

O padre Moacyr

Fico imaginando a judiação que fizeram com o Padre Moacyr José Vitti. Saiu de Santana, ficou em seminários e, logo que se ordena padre, é enviado a trabalhar no Rio de Janeiro. Logo em 1968, ano de chumbo. E na paróquia difícil de Santa Edwirges, em São Cristóvão, perto da Quinta da Boa Vista. Ficou, portanto, entre o operariado e a elite. Para trabalhar com jovens. Entre os quais já havia drogados, o início de um tempo cada vez mais feito de gravidades sociais.

Entre os jovens e numa cidade cosmopolita, o padre amadurece. Os choques tinham sido inevitáveis: de um lado, uma paróquia formada por pessoas conservadoras; de outro, a juventude ansiosa por novidades. Padre Moacyr leva música jovem à igreja, violões, cantorias. E, rapidamente, as famílias conservadoras torcem os narizes: “A igreja virou a boate do Padre Moacyr.” Uma repórter da “Manchete” escreve: “É a mini-missa do Padre Moacyr”. D. Hélder Câmara estava próximo, as idéias ferviam, o novo surgia também na Igreja. O jovem padre faz cursos de pastoral catequética. A alegria do Rio também o contagia.

Pergunto-lhe das praias que freqüentava. Preferia as próximas à Tijuca. Vejo o jovem forte, másculo, correndo, nadando, jogando futebol. Insisto: “E as moças, com o padre bonitão solto na areia?” Dom Moacyr dá uma gargalhada: “Eu fingia que não percebia.” Pois é.

Retorna a Campinas onde fica por seis anos. Sempre na pastoral vocacional. Percorre o Brasil a serviço da Igreja. A crise dos anos 70 o atinge pessoalmente, como a outros padres que deixam o ministério. O padre Moacyr enfrenta dúvidas, ora muito, reage, permanece fiel. Em 1975, faz sua primeira viagem a Roma. Em 1976, é eleito – na cidade de Waltham, perto de Boston (EUA) – Vice-Provincial-Geral da Congregação dos Estigmatinos. Seu novo lar: Roma

Um doutor no mundo

O antigo menino de Santana, morando em Roma, torna-se cidadão do mundo. Suas funções o enviam para todos os continentes. Conhece Europa, Américas, Ásia, África. Passa pelo Tanzânia, Quênia, Tailândia, Filipinas, atravessa os continentes, vai diversas vezes à Terra Santa. E, ao mesmo tempo, faz licenciatura e doutorado na Universidade Santo Thomas de Aquino, em Roma. Doutora-se em Teologia Dogmática. Sua tese: “A vocação à luz do Vaticano II”, uma teologia do cristão leigo e “A Teologia dos Estados de Vida”. Tem atenções especiais para com os leigos.

Morou no centro histórico de Roma, “Via Mazzarino, 16”, insiste em lembrar. É onde está a igreja “Santa Agatha Dei Gotti” e onde o seu prazer pela história se acentuou. Passear a pé por Roma foi um de seus prazeres. Teve encontros pessoais com João Paulo II. Em 1983, é eleito Provincial da Congregação, da “Província Santa Cruz do Brasil”, respondendo por São Paulo, Rio, Paraná, Bahia e Chile. As viagens não param. Santana o acompanha nas lembranças.

O Bispo

No dia 7 de novembro de 1987, recebe uma carta da Nunciatura Apostólica. Fora nomeado Bispo Auxiliar de Curitiba. Lembra-se de cada detalhe:

– Eu estava sozinho em casa. Eram oito horas da manhã, o carteiro se anunciou. Era uma carta do Núncio Carlos Furino. Queria que eu respondesse, com urgência, se aceitaria minha designação para bispo auxiliar de Curitiba.

O cortador de cana tinha-se tornado bispo. Precisei insistir para ele confessar ter chorado. Chorou e chorou muito. Mas faz ressalvas: “Não sou muito chorão, mas tenho emoções fortes.” Teve receios. Mas seu compromisso de estigmatino é o de “servir onde a Igreja precisar”. Rezou, rezou. Aceitou. No dia 3 de janeiro de 1988, é sagrado bispo em Americana, onde os pais estão sepultados. Um dos ordenantes foi D. Lucas Moreira Alves, um dos luminares da Igreja do Brasil. No dia 1. de março, toma posse em Curitiba como Bispo Auxiliar do Arcebispo D.Pedro Fedatto.

A vida do trentino Moacyr José Vitti mudou por completo. Lecionou “Teologia da Libertação” na PUC, cuidou da periferia de Curitiba, trabalhou com intelectuais, na pastoral universitária, representou a CNBB para a questão do ensino religioso, criou o “Círculo Bandeirantes” para debates intelectuais, foi homem de confiança de D. Fedatto por 15 anos. Amigo de Jaime Lerner, na Prefeitura e no Governo, participou de julgamentos de indenizações para torturados, invasões de terras.

Em março de 2002, recebe, do Núncio Alfio Rafisarda, um aviso na cidade de União da Vitória (PR): “está na hora de deixar de ser bispo auxiliar. Já há processo andando. Fique na expectativa.” Então, em abril, numa Assembléia em Itaici, recebe a carta do Papa João Paulo II: está nomeado Bispo de Piracicaba. O cortador de cana, como os heróis da história, volta à sua própria terra coberto de honras e, também, de santidade.

Pergunto da emoção que o sacudiu. Ele diz de seu receio inicial: “Ninguém é profeta em sua terra.” Mas exulta. E Santana explode de alegria. Piracicaba, também. Uma frase, quando chegou a Curitiba, o anima. Curitibanos disseram-lhe: “Se você passar por Curitiba, poderá enfrentar qualquer lugar no mundo.”

Chorou outra vez. Depois de 50 anos, ele retornava à terra onde nasceu. Como Bispo.

O homem

À minha frente, o homenzarrão. Não se mostra Príncipe da Igreja, mas um pastor. Arrisco dizer tenha 1m89 de altura. Contesta-me: “Tenho 1m87”, a voz jovial, rosto sem rugas. É um homem que se cuida, percebe-se. É difícil imaginar tenha 62 anos. O porte é atlético. Ao contrário de muitos Vitti, tem olhos castanhos escuros.

Não consigo descobrir se os cabelos, bem tratados, são de um louro pálido ou já esbranquiçados. Talvez, um dourado com prata, digamos assim. Os óculos dão-lhe um ar de seriedade que o sorriso constante – às vezes, a gargalhada – logo desmente. As unhas mostram cuidados permanentes.

Pergunto-lhe de uma vaidade. “Gosto de cuidar da aparência pessoal.”

Perfume ou colônia que usa: “as que me dão.” Uma cor: “azul”. Mas por que usa ternos na cor cinza? A resposta corresponde ao voto de pobreza: “é o que me dão.”

Televisão, D.Moacyr vê em seu apartamento onde mora sozinho. Gosta de ver futebol, filmes e telejornais. De suas coisas, quem cuida são duas “quase irmãs” de Santana, Michelle e Dirce. E, se chegou quase a ser guloso – que trentino não é diante de tantas massas? – agora sua alimentação é frugal: saladas, legumes, churrasco de quando em quando. Talvez, saudoso da gula, insiste: “Mas eu era bom garfo até 1997”, quando o colesterol subiu. Alegrias? “Algumas muito especiais: o sacerdócio, ser bispo, concluir o doutorado.” Desilusões? “A de ver amigos queridos deixarem o sacerdócio”

Gente bonita? “Regina Duarte, os falecidos Carlos Zara, John Wayne.” E ainda John Wayne, como artista preferido. Escritor? “Érico Veríssimo, José de Alencar, Leonardo Boff.” Um livro? “O Guarani e Vila dos Confins, de Mário Palmério” Influências intelectuais? “João XXIII, Aristóteles, Padres Luiz Benedetti e José Lamberti.” Santo da devoção? “São José, que está em meu nome.” Filmes inesquecíveis? E, então, sai de cena John Wayne e entra Charlton Heston: “Ben-Hur e Os 10 mandamentos”. Heróis também “Massas”, como o homem de Santana.

A chuva

Peço a Dom Moacyr uma mensagem de Natal a Piracicaba. Seus olhos como que tentam abraçar a Diocese. O céu, repentinamente, fica carregado, há uma ventania inesperada. Ele diz de seu lema episcopal: “Um só coração.” Quase não precisa dizer mais nada. Emociono-me diante daquele homem simples, afável, firme, culto, de espiritualidade comovente. Fui em busca de um Príncipe da Igreja, encontrei um pastor. Ele fala com mansidão:

– Seja um Natal de muita esperança. Jesus Cristo é a luz, a paz e a união. Na abertura de um novo governo, seja essa a certeza de vida digna diante dos desafios, particularmente da fome e da miséria para que sejam superados. Um Natal de uma sociedade mais justa, fraterna e solidária.

D. Moacyr me acompanha até a porta. De repente, a chuva cai, pesada. Despeço-me. Meus olhos estão molhados. Entro no carro, ando a esmo. Paro, sem perceber, na Igreja dos Frades. Entro. Penso no cortador de cana que se tornou bispo.

PS: Pouco tempo após essa entrevista, D.Moacyr José Vitti foi transferido para Curitiba, tornando-se Arcebispo daquela arquidiocese.

*- Entrevista publicada, pelo autor, no Jornal de Piracicaba, em 2004, transcrita para constar do acervo de A PROVÍNCIA eletrônica.

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