De “pharmacias” e “pharmacêuticos”, segundo Erasto da Fonseca

Neste princípio de Século XXI, farmácias e drogarias são parte de uma engrenagem comercial. E farmacêuticos, profissionais quase sempreanônimos, distantes do público e da comunidade.

No entanto, “pharmacias” e “pharmacêuticos” foram, até algumas décadas passadas, parte integrante da vida comunitária, locais e pessoas que acolhiam a população não apenas para vender ou ministrar medicamentos, mas atendendo- as em dificuldades pessoais, familiares e até amorosas. “Pharmacêuticos” eram conselheiros; “pharmácias”, locais de confidências, de conversas e, até mesmo, de decisões políticas. Na verdade, foram eles, ao longo do Século XIX, e desde o Brasil Colônia, que atenderam o povo, ao lado de “físico- barbeiros”, benzedeiras, curiosas. Em Piracicaba, também foi assim.

O dentista Erasto da Fonseca, falecido aos 97 anos (em 11/07/07) foi uma das memórias privilegiadas de Piracicaba. De algumas de suas anotações, extraímos trechos que são como que uma viagem pelo tempo.

O “Elixir Dória”

Lembra-se, Erasto da Fonseca:

“Na rua São José, onde existia o prédio COMURBA (NR: atualmente, em frente ao Bradesco.) havia uma farmácia cujo farmacêutico proprietário era Miguel Luiz de Souza, a Farmácia Normal. Na rua Alferes José Caetano, esquina da Prudente de Moraes, havia uma farmácia, fundada em 1905 por Benedicto Affonso da Fonseca, meu pai. Nessa farmácia, eu nasci em 1910, no dia 11 de janeiro.” Era a famosa “Pharmácia Popular” da qual Benedicto Fonseca se desfez em 1915 e que, com o tempo, teve diversos proprietários. A “Pharmácia Popular” ficava à esquina da Câmara de Vereadores, onde, atualmente, há um prédio com lojas comerciais.

Prossegue Erasto da Fonseca:

“Na rua Santo Antônio, esquina com 13 de maio, havia a Farmácia

do Antônio Ferraz e, na mesma rua, no início dos anos 1900, existiu a farmácia de Pedro Dória, da qual meu pai foi gerente no ano de 1903. A farmácia ficou muito conhecida pelo fato de fabricar o Elixir Dória, num barracão dos fundos. O elixir ficou famoso, de forma que muitas pessoas vinham a Piracicaba apenas para adquiri-lo.”

Nehring e as toalhas

Outra farmácia das lembranças de Erasto Fonseca é a de Antônio Carlos Nehring, que ficava na atual rua Governador, entre as ruas Moraes Barros e 15 de Novembro. Indo à Europa visitar os pais, que moravam na Alemanha, Nehring deixou a farmácia sob a responsabilidade de Benedicto da Fonseca. Antes de ir-se, entregou-lhe seis toalhas brancas, recomendando que Benedicto as conservasse, mantendo- as sempre em ordem.

Um mês depois, quando Nehring retornou da viagem, Benedicto da Fonseca foi ao seu encontro, com as toalhas embrulhadas em uma outra toalha que ele próprio havia comprado. E falou: “Aqui estão, sr. Nehring, as toalhas, do jeito como o senhor as deixou.”

Farmácia Neves

Uma das mais antigas “pharmácias” de Piracicaba foi a “Pharmácia Neves”, que pertenceu a Samuel de Castro Neves, médico dos pobres, político de destaque, prefeito de Piracicaba. Segundo Erasto, ela foi adquirida, “na esquina da Governador com Moraes Barros”, por Maxilimiliano Serqueira, que possuía outra farmácia, na mesma rua Governador (então do “Commercio”), “logo após a rua 15, indo do centro para a Paulista”.

“Pharmácia” que permaneceu na lembrança de todos e, também, na de Erasto da Fonseca foi a “Pharmácia Central”, de propriedade de Guilherme de Mattos, “pharmacêutico” conhecido e respeitado por “diagnosticar doenças e formular os medicamentos para as curas”.

Com saudade, Erasto anota:

“Farmácias dos velhos tempos, quando Piracicaba tinha dez mil habitantes, cujas ruas eram pisos de areia trazida do piscoso rio Piracicaba. Era no tempo dos carros de praça, puxados por parelhas de cavalos da mesma cor, trazendo sobre a testa um penacho, onde se pendurava uma campainha.”

Dr. Alfredo Cardoso

Das “pharmácias” e de “pharmacêuticos”, Erasto da Fonseca é levado, por suas lembranças, à figura do médico Alfredo Cardoso, uma das mais queridas personalidades piracicabanas, também um “médico dos pobres”.

Alfredo Cardoso, lembra-se Erasto, “morava num vasto casarão da então Rua do Commércio (Governador Pedro de Toledo) , com D. Pedro I. Na casa, havia uma sala onde ele praticava suas arrojadas cirurgias.” Uma delas, segundo Erasto, foi de uma audácia espantosa: operou a glândula tireóide de um pedinte, num tempo em que tal cirurgia era tida como quase impossível”.

Aconteceu, segundo Erasto da Fonseca, que o esmoler apareceu à porta da casa do dr. Alfredo Cardoso apenas em busca de um auxílio. Vendo, porém, “o vasto papo do homem, tão grande que a voz e os movimentos do pescoço se tornavam um martírio para o coitado”, Alfredo Cardoso resolveu operá-lo. A dificuldade estava em convencer o homem, pois a glândula tireóide era tida como intocável. Por alguns dias, o médico hospedou o esmoler em sua casa, alimentando- o, cuidando de sua higiene e, finalmente, realizou a cirurgia, tendo Benedicto da Fonseca, pai de Erasto, como seu auxiliar.

Aquela cirurgia tida como impossível fez crescer, ainda mais, a fama de Alfredo Cardoso, tido como homem generoso e santo. Uma semana depois, o esmoler foi liberado, sem problemas e sem maiores dificuldades.

Alfredo Cardoso morreu com 33 anos, num trem da antiga Estrada de Ferro Sorocabana, na estação de Charqueada. No vagão, sofreu uma hemoptise e não resistiu. Seu túmulo está no Cemitério da Saudade. E, desde a sua morte, velas passaram a ser acesas na lápide de mármore, como se as pessoas mais humildes e pobres se tivessem tornado devotas do médico que Piracicaba amou.

1 comentário

  1. M.Cristina Frota de Souza Laurino em 02/01/2015 às 01:11

    Gostei de saber que meu avô, Miguel Luiz de Souza, pai do meu pai Dr. Eugenio Frota de Souza,faz parte dos pioneiros desta cidade.

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