O movimento operário no interior paulista (3)

O desenvolvimento dos movimentos grevistas em Piracicaba

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(imagem: reprodução do livro “A síntese urbana”, de Marly Perecin)

1917

A greve geral de 1917 em São Paulo terminou oficialmente no dia 16 de julho. Entretanto, alguns historiadores já demonstraram que muitos empresários se recusaram a assinar o acordo apresentado pelo Comitê de Defesa Proletária e preferiram negociar diretamente com seus empregados; tal fato fez com que os trabalhadores fossem voltando pouco a pouco às fábricas paulistanas.29 Enquanto o movimento paredista, que tomou ares de uma verdadeira revolta urbana na capital, caminhava para o fim, em Piracicaba a classe trabalhadora se reunia com o objetivo de iniciar o que viria a ser a maior mobilização obreira verificada no município até aquela época.

Era domingo, dia 15 de julho, quando alguns trabalhadores distribuíram de mãos em mãos nas ruas e nas portas das oficinas e engenhos de Piracicaba um panfleto no qual convocavam os companheiros a decretarem greve geral. Na segunda-feira pela manhã, novo boletim foi distribuído na cidade, dessa vez convidando os piracicabanos para um grande comício que seria realizado no largo da Matriz, às 16 horas; nele, seria discutido, entre a classe obreira, o advento da parede. O mês era de inverno, mas o frio não impediu que cerca de mil trabalhadores de diversos estabelecimentos comparecessem diante da igreja e ouvissem seu colega, o operário José Freire, falar sobre o difícil dia a dia dele e dos outros camaradas do município, no interior das fábricas. Aos poucos, os homens, mulheres e adolescentes que ali estavam foram se identificando e apoiando o discurso daquela liderança que, junto dos seus, viam que suas vidas cada dia mais se distanciavam da condição material dos seus patrões, levando-os a passar por uma verdadeira crise de subsistência.30

A reunião no largo da Matriz não ocorreu exclusivamente por ser a praça um espaço aberto que comportava grande número de pessoas. A ocupação do espaço público, sobretudo em lugares frequentados pela elite, era uma estratégia do movimento operário para chamar a atenção e angariar apoio da população ao movimento paredista, e já havia sido testada em São Paulo, cidade na qual os trabalhadores realizaram comícios em plena praça da Sé.31 Outra prática comum do movimento operário durante a Primeira República, e que foi seguida pelos piracicabanos, foi a formação e o desenvolvimento de cortejos.32 Após a reunião no largo da Matriz, os trabalhadores em massa caminharam pelas principais ruas do centro do município, pararam em frente às sedes da imprensa e também na casa do juiz de direito da comarca – o senhor Raphael Marques Cantinho – para pedir apoio ao movimento. Terminaram o cortejo retornando ao largo da Matriz, onde decidiram todos pela greve.33

Quando escureceu, nesse mesmo dia 16, um grupo de operários se dirigiu ao Engenho Central, que funcionava durante o período noturno, e clamou para que ali os operários cruzassem os braços. Antes mesmo de acontecer o comício no largo da Matriz, na manhã dessa segunda-feira, os trabalhadores do Engenho Monte Alegre já haviam cessado suas atividades e conquistado da gerência um aumento de 10% nos salários de todos os funcionários. A ação dos montealegrinos motivou todos os demais trabalhadores da cidade e, já na tarde desse dia, os operários da Fábrica Arethusina e da Casa Krähenbühl não trabalharam. No entanto, aquele primeiro dia de greve já havia sinalizado que a semana seria difícil para a classe obreira, pois, naquela mesma noite, na saída do Engenho, houve tensões e brigas, não muito bem explicadas pela imprensa, mas que terminaram com operários exaltados e vidraças quebradas na rua do Rosário.34

Dia 17 de julho, a cidade de Piracicaba amanhecia com ares completamente diferentes daqueles que a população de quase 67 mil cidadãos estava habituada.35 A pedido dos grevistas, o comércio local e todas as pequenas indústrias, como fabriquetas de calçados, de arados e de máquinas de beneficiar arroz, fecharam suas portas.36 Nesse dia, novo cortejo ocorreu pela cidade com mais de mil trabalhadores e trabalhadoras, e, dessa vez, a parada foi feita na Sociedade Beneficente Operária, fundada em 1905,37 onde uma das lideranças do movimento solicitou uma bandeira e lhe foi entregue a flâmula dessa associação. Empunhando-a ao alto e à frente do cortejo, sob vivas e aclamações, seguiram todos para o salto de Piracicaba, depois para a fábrica de tecidos Arethusina e, por último, para o bairro Vila Rezende, onde estava localizado o Engenho Central, pedindo de fábrica em fábrica que os patrões assinassem um acordo com toda classe proletária.38 Foi formada uma comissão operária, ao modelo do Comitê de Defesa Proletária de São Paulo, com o objetivo de representar os grevistas e dentre seus membros constavam39: João Freidemberg, Antonio Breviato, Guilherme de Gori, João Craveiro, Herculano Monaco, Jorge Sacone, Benedito João de Camargo, Domingos Raphael, Hermínio Guirado.

A pauta de reivindicações apresentada pela Comissão Operária de Piracicaba foi idêntica àquela pleiteada em grande parte do território nacional. A classe obreira do interior já contava com a experiência paulistana, e as conquistas na capital serviam como argumento para mudanças na vida dos piracicabanos. As solicitações eram:

  • Garantia de que nenhum operário fosse dispensado por ter participado da greve.
  • Fim do trabalho de menores de 14 anos nas fábricas e oficinas.
  • Que os menores de 18 anos não fossem ocupados com trabalhos noturnos.
  • Abolição do trabalho das mulheres nas fábricas.
  • Aumento de 20% dos salários.
  • Que o pagamento dos salários fosse efetuado pontualmente nos dias 5 ou 16 do mês.
  • Jornada de 8 horas de trabalho.
  • Aumento de 50% sobre todo o trabalho extraordinário.
  • Que fosse garantido aos operários trabalho permanente.
  • Que fossem implantadas as feiras livres em Piracicaba.
  • Que os operários gozassem das mesmas conquistas dos operários de São Paulo.40

A organização dos piracicabanos logo chamou a atenção da polícia e no mesmo dia 17 desembarcaram na estação Sorocabana 26 praças vindos de São Paulo; o secretário de justiça da capital ofereceu ainda mais reforços para contenção da greve em Piracicaba. Exatamente às 15 horas, o delegado fez circular um boletim no qual exigia que os trabalhadores não se aglomerassem, sob ameaça do uso da força e, nessa mesma tarde, houve confronto entre os manifestantes e os policiais que efetuaram a prisão de um operário. A repressão não esmoreceu os proletários que conquistaram depois disso o apoio dos chauffeurs e dos cocheiros; os bondes do município também foram completamente paralisados. O gerente do Engenho Central sinalizou trégua e disse que poderia atender aos pedidos da Comissão Proletária, aumentando em 20% o salário dos empregados, mas o movimento paredista prosseguiu, com os trabalhadores se dirigindo ao Engenho Monte Alegre a fim de requerer o mesmo aumento. Foi marcada nova reunião para o dia seguinte no largo da Matriz.41

No terceiro dia de paralisação, 18 de julho, a greve assumia as mesmas proporções do dia anterior, o comércio mantinha-se fechado, os bondes circularam, mas não se viu carroças ou outros veículos nas ruas, e os operários dos grandes e pequenos estabelecimentos piracicabanos continuavam com as mãos fechadas e braços empunhados ao alto. Da janela do Hotel Central, lideranças, como Benedito João de Camargo, clamavam união dos companheiros até que todos fossem contemplados em sua pauta comum. Houve novo cortejo e às 10 horas da manhã, os trabalhadores se dirigiram ao Engenho Monte Alegre, onde houve novos confrontos entre os grevistas e os agentes da polícia, mas os operários conquistaram o aumento pretendido e o compromisso do estabelecimento com alguns pontos da pauta apresentados pela comissão proletária. À tarde, a imprensa foi chamada a intervir com o objetivo de ajudar a selar o acordo no Engenho Central, o que de fato ocorreu.42

Paulatinamente os patrões das grandes fábricas e pequenas oficinas assinaram um compromisso de aumentar os salários dos trabalhadores. Quando as gerências do Engenho Monte Alegre e do Engenho Central aceitaram o aumento de 20% nos salários e jornada de 8 horas de trabalho, o clima da greve começou a mudar, caminhando para seu encerramento. À noite, os operários acataram o fim do movimento paredista e o retorno ao trabalho na manhã seguinte. Porém, antes da decretação do término da parede, os trabalhadores foram até o presídio da cidade acompanhar a soltura do companheiro preso durante um dos embates com a polícia, o que também havia deixado alguns operários feridos no dia anterior.43

Na aurora do dia 19, aquela gente humilde, que havia se organizado com o objetivo de conquistar mudanças sociais que melhorassem ou mesmo transformassem radicalmente as condições de vida da classe trabalhadora do país, se encontrava nos seus postos de trabalho. Dia 20, a cidade amanhecia em perfeita normalidade. Diversos industriais acataram naquele momento o aumento de 20% dos salários e a jornada de 8 horas de trabalho, o que fez com que a greve fosse considerada vitoriosa pelo movimento proletário piracicabano. Houve comemorações no largo da Matriz, com a presença de três bandas operárias e ouviram-se vivas calorosos dos trabalhadores ao som do hino operário. Foi feito, ainda, um último cortejo em agradecimento à imprensa. Dessa greve resultou a fundação da Liga Operária de Piracicaba, cujo objetivo era lutar pela manutenção dos direitos conquistados e por melhores condições de trabalho.44 A primeira diretoria foi empossada no dia 7 de agosto, após uma reunião realizada na rua Moraes Barros, 69. Compuseram a direção da liga os operários45: Luiz Mainardi – presidente, Guilherme Gori – secretário, Jacomo Pucci – tesoureiro, Jorge Saccone – procurador, Benedito João de Camargo – fiscal, Antonio Previato, Domingos Rafaele, João Freidenberg Sobrinho.

Todavia, os meses e anos seguintes demonstrariam que a batalha do movimento operário no interior, e em todo o país, por uma condição de vida digna, estava apenas no início. Como aconteceu em várias regiões Brasil, muitos empresários piracicabanos que se comprometeram com as reivindicações da classe proletária na grande greve geral de 1917 não cumpriram os acordos após o término do movimento paredista.46  Em 1919, os operários ainda lutavam pela jornada de 8 horas de trabalho para todas as categorias. Vale lembrar que, nessa época, esses homens e mulheres permaneciam 14 horas dentro de um estabelecimento fabril sem direito aos finais de semana e podendo cumprir até mesmo 16 horas diárias em momentos de crise econômica ou política, como de fato ocorreu durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).47

referências

29. BIONDI; TOLEDO, op. cit.

30. Jornal de Piracicaba, Piracicaba, 17 jul. 1917. Biblioteca Municipal de Piracicaba, Piracicaba, SP.

31. BIONDI; TOLEDO, op. cit.

32. Idem.

33. Jornal de Piracicaba, Piracicaba, 17 jul. 1917. Biblioteca Municipal de Piracicaba, Piracicaba, SP.

34. Jornal de Piracicaba, Piracicaba, 17 jul. 1917. Biblioteca Municipal de Piracicaba, Piracicaba, SP.

35. NETTO, Cecílio Elias. Os primeiros dados oficiais de Piracicaba. A Província. Disponível em: http://www.aprovincia.com.br/bom-dia/vila-rezende-nicho-da-alma/. Acesso em: 3 abr. 2020.

36. Jornal de Piracicaba, Piracicaba, 17 jul. 1917. Biblioteca Municipal de Piracicaba, Piracicaba, SP.

37.  TERCI, op. cit.

38. Jornal de Piracicaba, Piracicaba, 18 jul. 1917. Biblioteca Municipal de Piracicaba, Piracicaba, SP.

39. Idem.

40. Ibidem. Grifos da autora.

41. Ibidem.

42. Jornal de Piracicaba, Piracicaba, 19 jul. 1917. Biblioteca Municipal de Piracicaba, Piracicaba, SP.

43. Idem.

44. Jornal de Piracicaba, Piracicaba, 20 jul. 1917. Biblioteca Municipal de Piracicaba, Piracicaba, SP.

45. Jornal de Piracicaba, Piracicaba, 7 ago. 1917. Biblioteca Municipal de Piracicaba, Piracicaba, SP.

46. BIONDI; TOLEDO, op. cit.

47. Sobre a classe operária durante a Primeira República, ver: BATALHA, Claudio. O movimento operário na Primeira República. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2000. Sobre a greve de 1917, ver também: FRACCARO, Glaucia. O direito das mulheres, feminismo e trabalho no Brasil (1917-1937). Rio de Janeiro: FGV, 2019.

(continua)

Para conhecer o artigo completo, acompanhe a TAG Greves Piracicaba.

*Fabiana Ribeiro de Andrade Junqueira é doutoranda em História Social pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Graduada e Mestre em História pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3431-6188. E-mail: [email protected]

[Este artigo foi publicado em revista da UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina: Mundos do Trabalho, Florianópolis, v. 12, p. 1-21, 2020 | e-ISSN: 1984-9222 | DOI: https://doi.org/10.5007/1984-9222.2020.e74220 ]

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