O movimento operário no interior paulista (6-final)

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(imagem: reprodução Google/BBC Brasil)

Existe um aspecto que enlaça mais uma vez os movimentos paredistas de São Paulo e Piracicaba em 1917, mas que também manteve singularidades nas duas cidades: o papel desempenhado pela imprensa durante a greve. Foi formado, na capital, um comitê de imprensa, com o objetivo de intermediar o conflito entre os empresários paulistanos e o Comitê de Defesa Proletária. A comissão da imprensa, liderada por Nereu Rangel Pestana – diretor do jornal O Combate – e Umberto Serpieri  – do jornal Fanfulla –, foi motivada tanto pelo alastramento da greve que tomava a cidade e vinha ganhando ares de uma verdadeira revolta urbana, quanto pelo entendimento, por parte de alguns jornalistas, da necessidade de uma conciliação frente à situação desesperadora dos trabalhadores naquela época.89 Em um momento em que a imprensa operária na capital havia sido silenciada pela repressão policial, jornais de maior público, como o Fanfulla, foram um ponto de referência importante para difusão das atividades de organização e protestos que vinham sendo desenvolvidas pelos trabalhadores. Grande parte dos dirigentes dos periódicos operários atuaram como lideranças do movimento grevista – dentre eles podemos citar o tipógrafo anarquista Edgard Leuenroth diretor do jornal A Plebe – e, em alguns casos, o conflito os afastou temporariamente da confecção dos impressos. Após o término da parede, os jornais operários puderam se reorganizar e voltaram a circular, ainda que sempre sob vigilância dos órgãos de repressão do governo.90

Na cidade de Piracicaba, a imprensa também foi convocada a intermediar alguns dos conflitos travados entre os operários e seus patrões. No dia 18 de julho, a comissão operária se dirigiu até a sede do Jornal de Piracicaba e lá os trabalhadores solicitaram ao redator do jornal, Pedro  Krähenbühl, que ele fosse até o Engenho Central conversar com o diretor-gerente, o senhor Dr. Kock, sobre o aumento dos ordenados, na intenção de ajudar os empregados daquele estabelecimento, o que de fato ocorreu. O jornal, durante o movimento paredista de 1917, insistiu na justiça das reivindicações dos trabalhadores, o que lhe rendeu agradecimentos por parte dos operários ao fim da parede.91

Pedro Krähenbühl era neto do fundador da Casa Krähenbühl.92 O Jornal de Piracicaba, fundado em 1900 e ativo até hoje, foi um periódico que manteve ao longo da sua trajetória um vínculo estreito com a elite da cidade. O apoio dado pelo jornalista ao movimento da classe obreira em 1917 foi um dos momentos de exceção na história desse periódico e pode estar relacionado ao fato de, em São Paulo, a grande imprensa ter assumido esse papel de intermediadora, com resultados que contribuíram para o fim do conflito. Contudo, muito mais comum foi o posicionamento apresentado pelo jornal em 1919, quando o movimento grevista foi duramente criticado pelo órgão de comunicação e houve uma intensa campanha contra os dirigentes da Liga Operária. Apesar disso, em Piracicaba, as lideranças operárias souberam se utilizar das brechas deixadas pela grande imprensa e fizeram dela um espaço de comunicação com as bases.

A falta de jornais operários na cidade, que só aparecem de forma significativa a partir da segunda metade do século XX, levou os dirigentes operários a se comunicarem com os trabalhadores através do Jornal de Piracicaba (1900) e da Gazeta de Piracicaba (1882). Foi comum, portanto, que as reuniões, assembleias e festas da Liga Operária fossem informadas nesses periódicos.93 Houve também uma importante atuação de alguns militantes operários socialistas e anarquistas nos grandes jornais do município. Em 1904, a Gazeta de Piracicaba noticiou a terceira conferência promovida pelo Grupo S. Anárquico Germinal em Piracicaba, e, nesse ano, o Partido Socialista de Piracicaba promoveu a festa do dia 1o de maio, o que aponta para a presença de militantes socialistas e anarquistas na cidade desde, pelo menos, essa época.94 Alguns desses militantes se tornaram verdadeiras pontes de ideias do movimento operário de Piracicaba com São Paulo e o mundo; esse foi o caso do italiano Vittorio Buttis.

Buttis nasceu em Veneza, em 24 de julho de 1866, e antes de emigrar para o Brasil, em 1911, passou pela Suíça e pela Alemanha. Foi no seu país de origem que se tornou um socialista, conhecendo as lutas operárias e camponesas através da leitura de jornais. Em São Paulo, dirigiu o jornal Avanti!, o principal jornal socialista durante a Primeira República, por cinco números. Depois de um tempo na capital, Vittorio Buttis se dirigiu a Piracicaba para trabalhar na fábrica de máquinas de costura Singer. Nesse período, a embaixada italiana no Rio de Janeiro recebeu a notícia da presença dele no país, com a observação de que devia ser mantido sob controle como indivíduo perigoso. No município, atuou como jornalista, escrevendo matérias em língua italiana para o jornal O Popular e para o Jornal de Piracicaba. Nesses dois periódicos, Buttis expôs suas ideias políticas de socialista e incitou o movimento operário local, propondo um programa de política social e de educação das massas camponesas e operárias. Em um artigo publicado em 1913, no Jornal de Piracicaba, denominado “Il nostro augurio”, Buttis lamentou o desperdício de recursos e esforços de italianos cultos no Brasil em jornais e instituições que não tinham conseguido atingir a grande massa dos imigrantes italianos: os trabalhadores das fazendas. Buttis vivia nesse momento em meio aos canaviais piracicabanos e muitos dos trabalhadores rurais nessa cidade também eram seus compatriotas, o que provavelmente contribuiu para sua preocupação com a organização dos trabalhadores no campo. Após dois anos e meio no Brasil, escreveu para a Federazione Socialista Italiana nos Estados Unidos, com o auxílio de amigos, e foi convidado a ir para os EUA.95 Em Chicago, ele escreveu suas memórias, publicadas posteriormente em um livro.

Vittorio Buttis foi um militante que passou por Piracicaba e soube utilizar um espaço na grande imprensa para defender seus ideais socialistas, deixando uma contribuição importante para o movimento operário da cidade.96 Entretanto, se São Paulo foi uma fonte de inspiração para as organizações obreiras piracicabanas, havendo entre a capital e o município uma grande circulação de ideias e pessoas, por outro, a metrópole, para os trabalhadores piracicabanos, também foi sinônimo de repressão. A greve de 1917 foi uma experiência singular para o movimento operário da cidade; embora contassem com certo apoio da imprensa, os operários das fábricas e os colonos dos engenhos, que formavam o núcleo duro da greve em Piracicaba, sofreram literalmente na pele com a ação policial que vinha da capital. Em 1919, os dirigentes da Liga Operária sabiam que viriam praças da capital para reprimir o movimento paredista que começou no início do ano sob ameaças da polícia. O corte nas linhas telefônicas foi uma tentativa dos trabalhadores de romper a comunicação da polícia com a delegacia de São Paulo, conseguindo assim prosseguir com as reivindicações da classe obreira do município.

Próximos ou distantes da capital, sem dúvida, podemos afirmar que os eventos grevistas de 1917 e 1919 são partes germinantes do movimento operário piracicabano e deixaram marcas indeléveis na história da classe trabalhadora da cidade. Em 1945, foi fundada a primeira Associação dos Trabalhadores Metalúrgicos de Piracicaba. A ata de fundação dessa organização e as fichas preservadas dos primeiros sócios nos permitem observar que, frente a uma grande expansão das indústrias Dedini, não foram apenas os trabalhadores desse estabelecimento que participaram da criação da entidade, mas muitos operários do Engenho de Açúcar Monte Alegre foram protagonistas desse processo, como Silvio Magossi, ajudante de mecânico, nascido em 1902; Tiaravuto Modulo, ajustador mecânico, nascido em 1901; Antonio Ercolino, soldador, nascido em 1899; João Arousom, ajustador mecânico, nascido em 1892; Ernesto João Tonin, caldeireiro, nascido em 1901; Wilson Modesto, mecânico, nascido em 1925; Benedito Tonin, mecânico, nascido em 1923; e Natali de Castro, ajustador mecânico, nascido em 1920.97 É difícil afirmar que os trabalhadores montealegrinos que ajudaram a fundar a associação dos metalúrgicos participaram das greves gerais de 1917 e 1919, mas a data de nascimento e a naturalidade piracicabana nos permite vislumbrar que alguns deles experienciaram esses eventos de perto.

No ano de 1947, essa associação foi transformada em sindicato, ativo até hoje, está localizado na rua Prudente de Moraes, 914, no centro de Piracicaba. A origem dessa organização sindical não se deve exclusivamente aos trabalhadores do engenho. Participaram da sua criação operários das empresas Dedini (1920) da fábrica Morlet (1940) e da oficina Santa Cruz (1938), mas certamente os trabalhadores do Engenho Monte Alegre, espaço de luta nas primeiras décadas do século XX, fizeram parte do processo de autoconstituição do movimento operário metalúrgico piracicabano.98 No contexto do Brasil da Primeira República ou após a Segunda Guerra Mundial, a luta de cada um desses homens foi também um esforço de transformação de toda uma sociedade, porque muitas vezes, como nas greves gerais de 1917 e 1919, as lutas não se resumiam a melhorar os salários e a reduzir a jornada de trabalho, mas de assegurar a própria existência. Seja na organização de uma parede no início do século ou de um sindicato em 1947, essas são histórias de trabalhadores que, nas pequenas e grandes cidades, procuraram construir um projeto de um país mais justo e mais humano, movidos pela crença na possibilidade efetiva de fazê-lo.

referências

  1. BIONDI; TOLEDO, op. cit., p. 63.
  2. Idem.
  3. Jornal de Piracicaba, Piracicaba, 19 jul. 1917. Biblioteca Municipal de Piracicaba, Piracicaba, SP.
  4. MARTINS, Carlos Roberto Sodero; NETTO, Samuel Pfromm. Pena, escudo e lança: cem anos do Jornal de Piracicaba. Piracicaba: Editora Forpap, 2000.
  5. Jornal de Piracicaba, Piracicaba, 30 ago. 1917. Biblioteca Municipal de Piracicaba, Piracicaba, SP.
  6. TERCI, op. cit.
  7. Informações sobre Vittorio Buttis podem ser encontradas em TOLEDO, Edilene T. Travessias revolucionárias – ideias de militantes sindicalistas em São Paulo e na Itália (1890-1940). Campinas: Unicamp, 2004, cap.3, nota de rodapé 39. Há informações sobre Vittorio Buttis no Archivo Centrale dello Stato, Roma (ACRS), acervo do Ministero Degli Interni, Direzione Generale di Pubblica Sicurezza, Casellario Politico Centrale (SPC); consultar pasta 915. Ver também o livro de memórias de Vittorio Buttis: BUTTIS, Vittorio. Memorie di vita di tempesre sociali. Roma: Ediess, 2006.
  8. Outro importante militante que passou por Piracicaba foi Alcibiade Bertolotti. Para a polícia italiana, ele era adepto do anarquismo e do sindicalismo revolucionário e, de acordo com a historiadora Edilene Toledo Bertolotti, foi um defensor das ideias socialistas e era um antifascista. Em Piracicaba, por volta do ano 1926, trabalhou na Usina Monte Alegre. Sobre Bertolotti, ver: TOLEDO, op. cit., cap. 2, nota de rodapé 43. Há informações sobre Alcibiade Bertolotti no Archivo Centrale dello Stato, Roma (ACRS), acervo do Ministero Degli Interni, Direzione Generale di Pubblica Sicurezza, Casellario Politico Centrale (SPC); consultar pasta 577.
  9. Ver: Ata da fundação e fichas dos primeiros sócios da Associação dos Metalúrgicos de Piracicaba – Arquivo Histórico do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de Piracicaba – Piracicaba – SP.
  10. Idem.

Para conhecer o artigo completo, acompanhe a TAG Greves Piracicaba.

*Fabiana Ribeiro de Andrade Junqueira é doutoranda em História Social pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Graduada e Mestre em História pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3431-6188. E-mail: [email protected]

[Este artigo foi publicado em revista da UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina: Mundos do Trabalho, Florianópolis, v. 12, p. 1-21, 2020 | e-ISSN: 1984-9222 | DOI: https://doi.org/10.5007/1984-9222.2020.e74220 ]

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