A HISTÓRIA QUE EU SEI (CXVII)

Golpes finais
Há uma lenda piracicabana que, talvez, possa ilustrar melhor esse longo período de vazios e de desencontros na política piracicabana. Ou servir de reflexão. Diz a lenda que o Morgado de Mateus determinara, ao povoador Antonio Corrêa Barbosa, que o orago de Piracicaba seria Nossa Senhora dos Prazeres cuja imagem deve-ria ser exposta à veneração dos fiéis. Antonio Corrêa Barbosa, no entanto, diz a lenda, era devoto de Santo Antonio, seu santo protetor e de quem tinha o nome. Ocorreu que, enquanto fazia suas viagens por Iguatemi, os caboclos e bugres construíram uma pequena capela e nela deveriam haver entronizado Nossa Senhora dos Prazeres, conforme desejo do Morgado de Mateus e contrariando o povoador. Quando retomou, construída a capelinha, ele decidiu-se por entronizar a imagem de Santo Antônio, o seu onomástico. Velha raposa. Antonio Correa Barbosa, esperou a noite chegar e, então, dizem que jogou a imagem de Nossa Senhora no Rio Piracicaba. Os anjos, porém, recolheram a imagem das águas e, na curva do rio, enquanto era levada para os céus, Nossa Senhora se voltou e disse: “Esta nunca haverá de ser uma cidade verdadeiramente grande.” É o que diz a lenda.

De 1942 a 1972 – um espaço, portanto, de 30 anos – Piracicaba teve 24 prefeitos, uma história, por assim dizer, de atropelos, de a1tetllâncias, de alta rotatividade no comando político do município. Mortes, cassações de mandato, renúncias, tragédias, o quadro de uma cidade cuja vida política girou em tomo de pessoas ou de grupos reduzidos, sob ações individualistas, sem que jamais houve-se um projeto partidário, político-administrativo, que buscasse definir identidade e também a vocação do município. Nos anos da ditadura militar – os mais difíceis de todos, momento em que o país passou por transformações radicais. Piracicaba perdia as suas principais lideranças políticas, entrando em conflitos internos que apenas conduziram ao retardamento de estudos, reflexões e revisões, quanto ao futuro e aos destinos do município Em 1968, morriam Luciano Guidotti e Alberto Coury; em 1969, eram cassados os direitos políticos de Salgot Castillon; em 1972, morria Cássio Paschoal Padovani, todos eles, em pleno exercício de seus mandatos. Novas tragédias, ceifando lideranças importantes ou promissoras para o município, aconteceriam durante o mandato de Adilson Benedicto Maluf, empobrecendo os quadros políticos de Piracicaba e impedindo a transição mais fácil na mudança de comando que ocorre de geração a geração. Em 1974, no dia 26 de Maio, morria Humberto D’Abronzo; e, no dia 23 de Novembro, Guerino Trevizan. Em 1975, no dia 16 de Fevereiro, morria Jorge Antonio Angeli e, no dia 24 de Maio, João Guidotti. Acidentes, mortes repentinas, inesperadas, desaparecimentos rápidos de lideranças com prestígio junto à comunidade que, de repente, se viu entregue a moços sem experiência política e de vida, entregue a pouquíssimas opções que lhe passaram a ser oferecidas pelos partidos políticos, um vazio de lideranças justamente num momento histórico de profundas e irreversíveis transformações.

Os tempos que vieram, a partir de 1972, foram de perguntas que ficaram sem respostas, de desafios que não levaram em conta o passado, a história e a vocação da cidade.

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