Uma aldeia chamada Piracicaba (1)

No princípio, era o rio. E as matas virgens. E índios. O primeiro homem branco apareceu não se sabe quando. Nem quem foi ele. Mas ele trouxe o negro escravo. O fato é que tudo começou a acontecer quando o “rio paulista por excelência”, o Tietê – “o rio fundo, rio verdadeiro, rio dos canários” – era, ainda, para o índio, o Anhembi, “rio dos nambus, das anhumas”.

Um dia o homem branco apareceu nele, o rio de muitas grafias. E outra história começou. Muita coisa aconteceu, coisas incríveis de se contar. Mas, para a aldeia de nossa história, o que importa surgiu da aventura das monções, expedições que, saindo da Capitania de São Paulo, iam em busca de riquezas descobertas em terras distantes. Os “caçadores de índios” foram atacados pela febre do ouro e, ainda no final do Século XVII, vão Tietê abaixo em direção ao El-Dorado, em buca das “minas gerais do ouro de São Paulo”.

Depois, o chamamento viria de Cuiabá: ouro e maldições de doenças, febres, massacres humanos. Índios das tribos guaicuru , caiapó e paiaguá (veja aqui) reagem e enfrentam as multidões que formam as bandeiras, as monções. O homem branco vai dizimando multidões que ele chama de “selvagens”, queimando matas, destruindo florestas. O rio Piracicaba passa a ser, também, uma dessas “estradas fluviais”. E há pequenos grupos de roceiros em um que outro ponto de suas margens.

Roças e índios

Desde 1693, há registros de uma sesmaria (veja aqui) em Piracicaba, requerida por Pedro de Moraes Cavalcanti. Já se sabia de movimentação de pequenos grupos humanos, através de uma velha trilha de índios, transformada em “estrada velha do sertão dos Bilreiros”. Essa seria, em seguida, a trilha do homem branco, feito “estrada de gado e cavalgaduras”, desde São Paulo até a zona de mineração de Cuiabá. Essa estrada cruzava, segundo o historiador Mário Neme, “a paragem de Capivari, o rio Piracicaba e os campos de Araraquara.”

O primeiro e verdadeiro povoador de Piracicaba, no entanto, foi o ituano Felipe Cardoso. Ele estava fixado no porto de Piracicaba desde 1721, homem de recursos e de iniciativa. É Felipe Cardoso quem socorre, com mantimentos e apoio, o desbravador Luís Pedroso de Barros (veja aqui), que se incumbira de, às suas custas, abrir o caminho até Cuiabá. Esse caminho – que seria, depois, interrompido – passava pelo Rio Piracicaba, logo abaixo “das corredeiras do salto do mesmo nome.” Em 1726, Cardoso obteve terras de sesmaria, circundando o porto do rio Piracicaba, que seriam as mesmas anteriormente pretendidas por Pedro Cavalcanti.

A súplica de Felipe Cardoso à coroa era por estar “vaga muita parte de terra no porto de Piracicaba e ele, suplicante, queria situar-se no porto do dito rio” e “se achava com possibilidade de povoar terras.” Apenas em 1767, Antônio Corrêa Barbosa viria a ser encarregado , pelo Morgado de Mateus, da “criação de um arraial permanente na barra do rio Piracicaba” – conforme expressão de Sérgio Buarque de Hollanda .

Antes deles, no entanto, já havia registros de presença de brancos, de escravos fugidos e de índios na região. E, também, de pelo menos um índio civilizado. (veja aqui) O historiador Afonso de E. Taunay ( em “Relatos Monçoeiros”) faz referência a algumas anotações práticas do ajudante de ordens do então Governador Rodrigo César, o Capitão João Antônio Cabral Camello. Em sua viagem a Cuiabá, em 1727 – muito antes, portanto, de se começar a história oficial da aldeia à margem do rio Piracicaba – o capitão fala dos perigos e desastres da aventura a Cuiabá. Fazendo relatos de rios e cachoeiras, escreve:

“Da barra do rio Sorocaba à do Piracicaba serão dois dias. Entre este rio no Theaté (Tietê) pela parte direita. Tem o seu porto acima (…) e serve só na volta do Cuiabá, por ser mais fácil em tempos de cheias. Abaixo do rio Piracicaba, dia e meio de viagem, estão dois moradores com suas roças, em que colhem milho e feijão e têm criações de porcos e galinhas, que vendem aos cuiabanos.”

No retorno de sua expedição, o Capitão Cabral Camelo ainda registra:

“Do Nhandui até a barra do Paracicaba (Piracicaba) gastamos vinte dias, e como o Theaté (Tietê) principiava a encher já com as águas, nos resolvemos a seguir antes o mesmo Paracicaba por ter menos cachoeiras e correntezas. Nele, gastamos dez ou onze dias até desembarcarmos por baixo de um salto do mesmo rio, e aonde há quatro formosas roças com gente, mas muito despovoadas. Este rio tem algumas itaipavas ( fileira de rochas) mas todo ele está cercado de matos capazes todos de roças. Porém, como faltavam as conveniências do Cuiabá, e este porto era o mais distante, deram os mineiros em o não continuar e assim se perderam as roças e as fazendas que nele havia.”

De 1733 a 1737, colonizadores furiosos e as expedições de São Paulo praticamente dizimaram os índios da região oeste paulista e suleste de Mato Grosso. As tropas eram comandadas pelo Capital General de São Paulo, o Conde de Sarzedas, Antônio Luiz Távora. Em Piracicaba, residia um experiente sertanejo, de família descendente de desbravadores, Manuel de Correa Arzão, então com 80 anos. A bravura do sertanista era tamanha que o Conde de Sarzedas o convidou para fazer parte das forças expedicionárias contra os índios. A carta, datada de 27 de fevereiro de 1733, levou um mês para chegar, pois a correspondência era conduzida em lombo de animais. Arzão respondeu em 28 de março e, mesmo alegando idade avançada, aceitou o convite para “a conquista dos bárbaros que infestam as minas de Cuiabá”. Este é, segundo o historiador Mário Neme, o mais antigo documento saído de Piracicaba.

*Continua

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