A Piracicaba de Samuel Pfromm Neto

“Dos tempos recuados da infância na Prudente de Moraes, guardo muito viva a lembrança da rua cheia de sol, tranqüila, limpinha, com a igreja e a bela praça de São Benedito: árvores imensas, flores, grama macia, passarada barulhenta e variegada – palco das nossas estripulias de garotos. O sossego da Prudente só era quebrado de quando em quando por algum carro, carroça ou “jardineira”, pela passagem do bonde, e, é claro, pela gritaria da meninada em seus folguedos. Éramos um bando de petizes de calças curtas, mais ou menos da mesma faixa de idades:Sérgio e Silvio Lopes Alarcon, os Bueloni (Tino, Chico e Mimo), Sérgio Cruz, Dadinho da Farmácia, o Pubi da confeitaria e vários outros cujos nomes o tempo desvaneceu na minha memória.

Época de pião e papagaio. Bolinha de vidro. Figurinhas de futebol disputadas no “bafo”. De trocas de revistinhas em quadrinhos como o Suplemento Juvenil, o Mirim, o Gibi, o Globo Juvenil, o Guri, o Lobinho, a Gazetinha, que comprávamosna agência de jornais e revistas do seu Campos, à praça José Bonifácio. De espera da passagem do carteiro, o sr. Stipp, amigão da criançada. Tempo de caça às içás e às aranhas no jardim. Carrinho de rolemã. Coleções e figurinhas de artistas de cinemas (que vinham no cigarros) e de estampas lindas do Sabonete Eucalol. Almanaques ganhos na farmácia de seu Dinho: Capivarol, Leão, Saúde da Mulher, Biotônico… Tempo do sorvete caipira, do cineminha no quintal da minha casa, das frutas que hoje ninguém conhece: sapota, abiu, ingá romã, jambo, guabiroba… De passeiosna carroça ou no calhambeque do meu tio Romeu Meira Barros.

No cine São José, aos domingos, torcíamos nas “matinês” por Flash Gordon contra Ming e batíamos freneticamente os pés no chão quando mocinhos como Buck Jones, Ken Maynard, Charles Starret, William Boyd (Hoppalong Cassidy), Gene Autri e Bob Steele perseguiam os bandidos. No escuro da sala de projeção, os pequenos vendedores de guloseimas ofereciam a mercadoria aos gritos de “balerôôô.”

Tempo de um majestoso rio Piracicaba, repleto de pintados, jaús e curimbatás, de enchentes catastróficas, de futebol à beira rio. Tempos de Júlio Bobo (com um eterno barbante entre as mãos, assustando a criançada), de “Azarma” e de outros tipos populares. Tempo de capilé, pamonha, sardinha frita, Maçãzinha do D´Abronzo, globo da morte, circo, teatro Santo Estevão, bandas de música, procissões lindíssimas, com anjos, Verônica, Passos, música triste, irmandades muito empenhadas.

Tempo de gente grande com semblantes preocupados junto ao rádio, que anunciava o avanço dos nazistas, a queda da França, a invasão da Rússia, a entrada dos Estados Unidos na guerra, a morte de nosso pracinhas na Itália distante. (…)Tempo de surrupiar torrões de açúcar preto na casa Centenário. De chatear o Cerzelim para consertar o carrinho quebrado. De “fabricação” de remédios de brinquedo, num faz-de-conta com tinta e água, no quintal da farmácia de seu Dinho.

Tempo de carnaval com lança- perfumes de vidro e metálicos, Cordão dos Cometas, bloco dos turcos com suas sombrinhas, montanhas de serpentina, pierrôs, colombinas, arlequins. Tempo de pedir a bênção e um santinho ao padre Rosa. De insuperáveis empadinhas, doces e balas de café da bomboniere do Passarela, que também vendia as balas Fruna, com figurinhas de artistas de cinema. Dessa felicidade de que fala o sambista: ´Eu era feliz e não sabia…´.”

*Samuel Pfromm Netto

Nasceu em Piracicaba em 1932. Iniciou sua vida jornalística no “Jornal de Piracicaba”, nas décadas de 40 e 50. Sua coluna “Luz e Sombra” foi uma das mais respeitadas à época.

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