PRUDENTE DE MORAES: vida, paixão e morte (3)

III – Paixão

Um republicano entre barões

Em 1863, Prudente José de Moraes Barros, com o diploma de advogado, chega a Vila Nova da Constituição para dar rumos à sua carreira. Desde 1822 – quando o governo provincial quis homenagear a Constituição de Portugal – Piracicaba se havia tornado “Constituição”. Para o povo e para Prudente de Moraes, porém, o nome Piracicaba permanecia intocado.

Prudente de Moraes retornava a uma terra de barões e baronesas, de poderosa gente vinculada ao governo imperial de D. Pedro II. Eram os barões de Serra Negra (Francisco José da Conceição), de Rezende (Estevão Ribeiro de Souza Rezende), de Piracicamirim (Antônio de Barros Ferraz), além das fortes influências de marqueses e de marquesas, de Valença, de Limeira, grandes proprietários de terras. Quando Prudente de Moraes chega para advogar e seguir carreira política, a Vila da Constituição assistia aos embates para a construção da “Ponte Nova”, o jogo de interesses para que ela se erguesse acima ou abaixo do salto. A população queixava-se da falta de higiene no matadouro, dos muitos “becos” que fechavam a cidade com cercas de arame, das goteiras que havia na capela do “simitério”, contra a jogatina de “casas de tabollagem em que meninos, menores e escravos jogão”.

Em 1863, quando Prudente de Moraes chega a Constituição para traçar seu destino, há como que duas coincidências significativas nesse seu início de carreira: é quando também chega, vindo de Itu, o padre Galvão – Francisco Galvão Paes de Barros – que se tornaria líder popular e, quando – pela primeira vez – se vê registrado o nome “Rua do Porto”, em referência à rua da Praia, em 9 de abril de 1863. Era como se a Vila da Constituição estivesse à espera da inteligência e da paixão de Prudente de Moraes pelo povo e pela “res publica”.

O advogado

A influência do irmão mais velho e também advogado Manoel de Moraes Barros foi decisiva para a acolhida a Prudente de Moraes. Ligado a grandes fazendeiros, Manoel como que apresentou o brilhante advogado de pouco mais de 23 anos aos líderes de Constituição. A primeira notícia que se tem, na Câmara Municipal, do advogado Prudente de Moraes é de 5 de outubro de 1864, quando a edilidade o consulta a respeito de “arrematação das rendas do município”, questão tida como inconstitucional. Sua atuação como advogado não se desvinculou de suas convicções ideológicas, passando a refletir, também e consequentemente, em sua ação política. O caso do “menino Georg” tornou-se como que um testemunho da ação do advogado e do político Prudente José de Moraes Barros, antes ainda de completar trinta anos, em 1869.

O “menino Georg” era um garoto da família alemã Lose, moradora no “Bairro dos Alemães”, em Piracicaba, tempos de preconceitos e discriminações. Georg morreu de tifo e a família foi impedida de sepultálo no interior do Cemitério da Igreja Católica, pois, aos alemães, cederam-se “apenas oito braças de terreno”. Prudente de Moraes indignou-se e, como advogado e político, enfrentou a Igreja – onde pontificava o Padre Galvão – em defesa da família alemã e do “menino Georg”. Perdeu a causa, mas, junto ao povo, a admiração e o respeito cresceram.

A atuação de Prudente de Moraes, nas palavras do escritor Gastão Pereira da Silva: “como advogado, seu nome correu fama em toda a vizinhança, chegando mesmo a romper fronteiras estaduais, projetando-se, distante, de Norte a Sul do País. Suas causas tornaram se notáveis. Dentre elas, citamos uma muito discutida, com repercussão nacional, que o obrigou a escrever um trabalho intitulado ‘Limites interestaduais’, questão que foi ventilada no Supremo Tribunal Federal. Era, além disso, Prudente, uma espécie de conselheiro bom daquele povo, pois, em quaisquer dificuldades em que se encontrava, era a ele que recorria e da sua palavra se resolviam os casos mais complicados.”

 Líder aos 24 anos

Num Brasil dividido entre liberais e conservadores, Prudente de Moraes abraçou o então ideário do liberalismo. E a pequena Vila Nova da Constituição começou a ver o surgimento de um político notável. Em 1864, com apenas 24 anos, Prudente de Moraes elegia-se vereador, o mais votado, com 420 votos. E, no dia 7 de janeiro de 1865, presidia a Câmara Municipal onde estavam personalidades que se tornariam altamente representativas da vida piracicabana, como Nhonhô Fernando Ferraz de Arruda, José Romão Leite Preste, Joaquim Silveira Mello, Ricardo Pinto de Almeida.

O primeiro ato de Prudente Moraes foi o de determinar, no dia seguinte ao da posse, que as “seis copas fiéis” das posturas municipais fossem endereçadas às autoridades policiais para que fossem cumpridas. Num dos artigos de posturas, constava a proibição da “prática das folias do Espírito Santo”, que a polícia e o vigário locais condenavam. Havia excessos. Entre os foliões – com bandeiras vermelhas em cujos mastros havia pombinhas simbolizando o Espírito Santo – estavam “maus elementos” que esmolavam embriagados, misturando rezas e folias.

Prudente de Moraes e os camaristas tomam outra providência: exigem que o governo da Província providencie que o correio “passe de cinco em cinco dias” na cidade. A Vila de Constituição estava esquecida pelo Correio, que alegava pouco rendimento na vila, ao contrário do que ocorria em Rio Claro, Limeira, Sorocaba, Itu, Porto Feliz e Capivari. E, sob o comando de Prudente de Moraes, a Câmara exige que o mítico Miguel Arcanjo Benício Dutra, o Miguelzinho, derru-basse o Teatro Municipal, que, deteriorando-se, ameaçava a população. Um certo Capitão Ricardo Leão Sabino tivera autorização, em 1852, para construir o teatro e Miguelzinho fora o responsável pela feitura do telhado.

Prudente de Moraes e os camaristas viram o perigo de queda em 12 de janeiro de 1865. Miguelzinho não atendeu a ordem e, em 12 de setembro daquele ano, uma parede do teatro caiu e matou um cavalo…

Uma ironia histórica

Quando chegou à Presidência da República, Prudente de Moraes arcou também com as conseqüências da Guerra do Paraguai (1864/1870), que se somavam a outras crises nacionais. Mas foi em seu primeiro mandato de vereador em Constituição, estando na Presidência da Câmara Municipal, que apresentaram-se os primeiros voluntários de Piracicaba para a Guerra no Paraguai, no dia 20 de fevereiro. E foi Prudente de Moraes quem, tomado também de ardor cívico por aquela guerra, indicou que se passasse a chamar “de Riachuelo, a rua desta cidade que passa atravessando a da Boa Morte pela casa de Antônio de Paula Martins” – cujo nome ainda se mantém – “para comemorar essa glória nacional.” Tratava-se da Batalha do Riachuelo, travada em 11 de julho de 1865 e vencida pelo Almirante Barroso.

Outra ironia foi a de, ao início de sua vida política, Prudente de Moraes ter visto o seu mandato de vereador ter sido contestado por seus adversários. Alegava-se que sua eleição não fora válida, pois não tinha, como exigia a lei, “residência fixa” de dois anos. Os adversários apoiavam-se no fato de Prudente de Moraes ter estudado em São Paulo. Mas provou-se que, desde 1858, sua mãe e seu padrasto e tutor, major Caetano José Gomes Carneiro, tinham fixado residência em Constituição.

Prudente recupera Piracicaba

A luta de Prudente de Moraes – da família Moraes Barros e dos liberais que os acompanhavam – permanecia contra os conservadores, os monarquistas. Uma das figuras de proa era Estevão Ribeiro de Souza Rezende, que se tornaria, por título concedido por D.Pedro II, oBarão de Rezende, um benemérito de Constituição, empresário de grande influência. Já se delineava o grande embate entre republicanos e monarquistas. Prudente de Moraes foi eleito, em 1867, deputado provincial (estadual), para a legislatura 1868/69. Mas, em 1868, os conservadores conseguem grande vitória em São Paulo, repercutindo em Constituição, onde os Moraes Barros e os liberais são derrotados pelo grupo representado por Rezende e Costa Carvalho. São tempos difíceis, acirrando-se os embates entre os que buscam a República e os monarquistas. O manifesto republicano é lançado, intelectuais proeminentes assinam-no e o desejo da República se espalha. Em 1876, Prudente de Moraes finalmente filia-se ao Partido Republicano, sendo eleito deputado provincial diversas vezes (1878/79, 1881/83, 1883/85, 1888/89). Em 1.885, é eleito para a Câmara dos Deputados.

Em 1877, ainda na Câmara Municipal e republicano, Prudente de Moraes consegue realizar um de seus sonhos: que fosse restituído, à cidade e ao povo, o nome Piracicaba. Ninguém aceitara Constituição. Em 11 de março de 1877, a indicação de Prudente de Moraes é enviada, pela Câmara Municipal, à Assembléia Legislativa. No dia 13 de agosto do mesmo ano – conforme a lei nº 21, de 13 de abril de 1877 – a cidade readquire o seu nome original: Piracicaba. Um sonho de Prudente.

 O fundador da Maçonaria

Com a derrota dos liberais em 1868, os Moraes Barros ficaram desarvorados. Manuel e Prudente de Moraes, com seus companheiros, haviam perdido o “senado”, o lugar de reuniões, de troca e de semeadura de idéias. Desde a revolução liberal de 1842, os conservadores temiam os liberais. O germe da República estava semeado. Piracicaba – ainda Constituição, naqueles tempos penosos dos Moraes Barros – era terra de monarquistas e escravocratas, elites que se arrepiavam dos republicanos e abolicionistas. O clero apoiava os monarquistas, a Igreja estava vedada aos Moraes Barros.

O historiador piracicabano Leandro Guerrini – ao analisar o Centenário da Loja Maçônica de Piracicaba – enfatizou essa angústia política e ideológica de Prudente de Moraes, “moço culto, viajado”, que conhecia os “fundamentos da Independência”, que sabia “quem eram os maçons”. Então – sem espaço para debater, para influir – como “haviam de se portar os liberais da terra que nem tinham um sítio próprio para as suas tímidas assembléias? A centelha republicana marcava passo, sem chama, sem calor algum. A Abolição dava aqui ou ali sinais de vida, mas tênues”.

Liderando 35 piracicabanos que comungavam dos mesmos ideais – republicanos e abolicionistas – Prudente de Moraes assumiu o enfrentamento, desafiando a Igreja e a Monarquia e até mesmo o nome de Constituição. Assim, em 24 de setembro de 1875, Prudente de Moraes fundou, solenemente, a “Augusta e Respeitável Loja Piracicaba”. Entre os seus membros, estavam – ao lado de Prudente de Moraes – piracicabanos que haveriam de ter papel marcante na história republicana, como Antonio Teixeira Mendes, Antônio José da Silva Gordo, Francisco Antônio Siciliano, herdeiros do Barão de Serra Negra (a família Conceição) e Manoel de Moraes Barros.

Prudente de Moraes – em terra de barões – assumira o comando do ideal republicano e a luta não tinha mais retorno. A Vida de um homem conhecia a Paixão. Daqui, para a Presidência da República. Parecia estar escrito.

(continua)

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