O homem que se apaixonou pela sapucaia

Você já se apaixonou por uma árvore? Deveria, pois esse amor, literalmente, dá bons frutos. Brincadeiras a parte, é coisa séria a paixão do químico de formação e hoje vendedor autônomo Rubens Santana, de 55 anos, por uma majestosa sapucaia, nome popular da castanheira, que se espalha na esquina da rua Moraes Barros com a avenida Independência, no Bairro Alto. “Ela é uma heroína da resistência”, diz Rubens. Ele conta que a árvore é a remanescente de um bosque que desapareceu para dar lugar a um estádio de futebol. Foi por isso que enxergou na árvore um símbolo para um bairro que estava correndo o risco de perder a alma, virando apenas um corredor entre o Centro de Piracicaba e os locais mais distantes. De lá pra cá, o bairro tem uma sociedade – claro que o nome é Amigos da Sapucaia -, criou uma praça e faz mil eventos. Leia a entrevista e entenda melhor essa paixão.

A PROVÍNCIA – Como você se apaixonou pela sapucaia?

Rubens Santana – Eu nasci há 55 anos na rua Silva Jardim, em frente a um bosque que havia. Eu me lembro quando o bosque começou a ser derrubado para que se construísse o Estádio Barão de Serra Negra. Na época não havia tanto essa consciência ecológica, mas eu já achava um absurdo cortar centenas de árvores para erguer um campo de futebol. Mas como ela era a última, a que ficava justamente na pontinha do bosque, foi a única que resistiu, a que não foi cortada. Então acho que ela é uma heroína da resistência.

– Quantos anos tem essa árvore?

– Pelo que a gente pesquisou, ela deve estar chegando aos 90 anos, pois foi plantada pela família Caprânico para comemorar o final da Primeira Guerra Mundial, em 1918. Depois de inaugurado o estádio, isso em 1965, ela ficou muito tempo praticamente esquecida.

– E quando voltou a ser lembrada?

– Foi em 1995, quando começou a circular a Gazeta da Cidade Alta. Aí a gente quis resgatar a identidade do bairro, que estava ficando sem alma, apenas um corredor comercial. Então, por exemplo, a gente propôs que uma das praças do bairro passasse a se chamar Bonga e Daniel, e explicamos aos moradores a razão. Bonga e Daniel eram dois negros, autênticas lideranças populares do local, Bonga como carnavalesco e Daniel na área do esporte. Aí a sapucaia passou a ser para a gente como um símbolo.

– Qual foi a primeira providência para destacá-la?

– Em 1996 a gente tratou de iluminar a árvore para que ficasse realmente como um símbolo. Nesta época foi criada a Sociedade Amigos da Sapucaia.

– O bloco carnavalesco surgiu na mesma época?

– Foi em 1997 que criamos a Banda da Sapucaia que sai no carnaval de um jeito informal. Mas desde o começo lutamos para descer a rua Moraes Barros na contramão do trânsito. Lembramos que se o ditador Médici fez isso quando veio visitar Piracicaba com seu carro oficial, por que a gente, que é o bairro, não pode? Em 2006 vai ser o nosso décimo ano e já escolhemos o tema, que é “Com Vida e Memória a Sapucaia conta 10 anos de História”.

– Por falar nisso, é verdade que um dos temas da Banda foi censurado?

– Foi o do ano passado, que seria “Do Cano Frio à Sapucaia”. Cano Frio era o nome da antiga zona do meretrício do bairro, que ficava na Silva Jardim, mas o pessoal mais conservador achou que não pegaria bem, pois saem muitas crianças na banda.

– Depois de assumir a paixão pela sapucaia, o que você acha que mudou no bairro?

– Olha, eu acho que foi criada mais união entre os moradores. As pessoas que moram aqui nem sabiam muito da própria história do bairro. Como o Bairro Alto fica muito perto do Centro de Piracicaba, ele estava parecendo mais uma continuação, sem muita coisa para se destacar. Acontece que aqui há uma tradição enorme em várias áreas. Quanto ao esporte, havia vários times como o Paulistano, o Nacional, o Lusitano, o Palmeirinha. Também havia muitos cordões carnavalescos, como o Leão, e a escola de samba Unidos da Cidade Alta.

– Vocês preferem a denominação Bairro Alto ou Cidade Alta?

– Eu prefiro Bairro Alto, como era no início, quando a cidade tinha apenas o Centro, a Paulista e o nosso bairro. Depois é que foi crescendo.

– A Sociedade Amigos da Sapucaia virou mesmo um órgão oficial do bairro?

– Com certeza, pois passamos a receber muitas reivindicações e a cobrar providências do poder público.

– E como a administração de Piracicaba tem respondido?

– Por enquanto muito bem. Em dezembro de 2004, no final da gestão do Machado e com o Heitor Gaudenci como secretário da Ação Cultural conseguimos a inauguração da praça que revitalizou muito o local. E os painéis artísticos com paisagens de Piracicaba foram uma iniciativa do Laércio Moretti, que é morador do bairro e convidou outros artistas para participar.

– E por que vocês não têm mais sede própria?

– Até tentamos, de 2002 ao final de 2003, mas os custos com aluguel e manutenção são muito altos. Mas a gente não pára de promover eventos.

– Com a sapucaia, aumentou a consciência ecológica do bairro?

– Com certeza. Hoje eu acho que seria impossível a loucura de derrubar centenas de árvores para fazer um estádio.

– Faltam áreas verdes em Piracicaba?

– Falta consciência não só das autoridades mas dos moradores. Tem gente que se apega ao comodismo e diz não gostar de árvore em frente de casa porque suja a calçada, entope a calha… Acho que isso é pensar pequeno. É preciso pensar que com mais árvores o clima fica melhor, a vida fica melhor.

– E como anda a saúde da sapucaia?

– Olha, na última conversa que eu tive com o Mário Thomazielo, que é agrônomo, ele me disse que essa árvore chega aos 500 anos. Ela é uma heroína mesmo, vai resistir a todos nós…

*Ronaldo Victoria é redator do Jornal de Piracicaba. Esta entrevista, republicada para constar dos arquivos de A Província, é de sua autoria quando era editor de A Província online.

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