Desejo de matar

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         Já era idosa, com oitenta e dois anos. Lúcida, alta e forte porém, mas um pouco surda e os joelhos inchados de artrose reclamavam dolorosamente do corpo por demais robusto.

Nordestina, fazia lindas rendas, de bilro creio, pelas quais ninguém se interessava muito ali no bairro, tanto mais que eram caras e até, no contexto, fora de moda. Comprei vários metros, os quais ainda conservo.

O marido desta senhora, mais avançado em anos que ela, tinha de um câncer no aparelho respiratório; estava em fase terminal, com cuidados paliativos, sofria muito.

Ambos viviam em três cômodos pequenos, nos fundos da casa de um dos filhos. Tudo muito acanhado, mas plantavam verduras em pneus e latas e as colocavam em toda parte, até no telhado, o que amenizava bem o local. Além disso, havia uma pequena árvore no jardim… Deixavam, contudo, um pobre jabuti aprisionado e abandonado perto de águas sujas, embasados pela crença de que os quelônios melhoram males dos pulmões; porém isso em nada contribuiu nem contribuiria para a melhoria do seu esposo, garanto. Ela cuidava constantemente dele naqueles cômodos malcheirosos e sem sol, onde também era nossa obrigação entrar, e o fazíamos com luvas e máscaras.

O paciente acordava muito sufocado à noite com secreções, as quais ela aspirava com a ajuda de um aparelho. A olhos vistos, aquela mulher idosa se desdobrava.

Esse quadro se arrastou por bom tempo, até que o doente faleceu. Continuei visitando-a no domicílio periodicamente; um dia ela me contou a seguinte história:

Ainda jovens viviam noutro Estado do país, na zona rural. Tudo era diferente na época, dizia-me. O marido teria amante. Quando voltavam da missa ou vindos da casa de parentes, ele a mandava por um caminho e seguia por outro, para encontrar a amante, no seu entender. Sua mágoa, ao me contar isso, parecia bem viva. Afirmou que o caso durou tempo.

Ela teve e criou três filhos, porém refere que a amante também ficou grávida e numa noite, quando essa criança teria nascido, o marido não foi para casa. Dizia ela que conhecidos lhe traziam tais notícias; também contaram que o bebê nasceu morto. Confessou-me, com um sorriso estranho e malicioso, que gostaria de saber que a mulher, a ex-amante, também já teria morrido! Isso me surpreendeu, pois ela mesma já era velha, o marido falecido, tudo ia tão distante e não havia mais com que se preocupar de qualquer forma. O ocorrido era por demais antigo. Mas quem pode dimensionar um coração feminino realmente ferido?

Sei que deveria indagar bem mais detalhes do caso, mas o pudor me impedia. Ou será que foi temor? Tive medo de perguntar-lhe se ela amava o marido e cuidara dele com afeto, ou se, no passado, presa a dificuldades e limitações sociais, emocionais e outras, nunca o pudera deixar nem demonstrar seu rancor. Vê-lo frágil no final, dependente dela, resolvera parte de seu malquerer? Seria isso? Agora, uma notícia da morte da ex- amante deste coroaria totalmente seu êxito?  Faltou-me coragem para destilar toda a situação, faltou-me.

-Muito Machado de Assis, dizia eu para mim mesma, pensativa. Muito Machado…

 

 

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