Fenômenos de aporte

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images (34)Caro leitor, você já ouviu falar em fenômenos sobrenaturais e em aporte? Bem, minha crônica também é cultura. Aportes são, segundo o Google, “surgimentos repentinos de objetos provindos de locais diversos que não apresentam qualquer limitação perceptível em suas ocorrências: desde frutos até cães e pássaros, tudo parece ser passível de ser aportado”.

Alerta-nos nosso bravo auxiliar Google que “os aportes não devem ser confundidos com transportes ou materializações”. Entendeu?

Vou dar um exemplo concreto. Sabe aquela tesoura que você tinha certeza que havia guardado numa determinada gaveta? Você vai lá pegar a dita cuja e ela não está. Vasculha a casa inteira atrás da tesoura. Reza o “Responso” para Santo Antonio e ela não aparece.

Você fica intrigado (rendo-me à decisão linguística do gênero masculino para nos dirigirmos ao leitor). Dias depois, precisa costurar algo. Pega a caixa de costuras e tchan, tchan, tchan, tchan… a tesoura está lá.

Óóóh! Ei-la que surge! Você tem certeza absoluta de tê-la posto na tal gaveta. Como ela foi parar na caixa de costuras? Este é o chamado “aporte”. Também são conhecidos por esse nome fenômenos de “aparições” que nos chegam do nada. Algo que caia na nossa frente, de forma inesperada.

Deve haver um “buraco negro” (não pode ser branco?) regendo o curso e a existência de todas as coisas, no tempo e no espaço. Invisível fundamento, substrato impalpável, imaterial visão do mistério.

Acho que ando testemunhando estes fenômenos à minha volta. Há dias não encontro uma blusinha marrom, do tipo segunda pele. Depois de lavada e seca, guardei-a numa gaveta. Concretamente fiz isso, com minhas próprias mãos.

Então. A blusinha não está lá! Já vasculhei a casa toda, já arrumei duas vezes meu armário. Ela é tão fininha, pode ter caído sem eu perceber no meio da gaveta onde guardo lenços, echarpes e cachecóis. Nada.

“O acaso vai me proteger / enquanto eu andar distraído”, diz uma canção. A frase musical é uma premissa discutível. Não tem base científica e não tem lógica. Como o acaso irá nos proteger? Inda mais se alguém anda distraído.

A questão é mais filosófica do que se pensa. Haverá aporte nas palavras? Enfim, o verso remete a uma reflexão do cotidiano e das nossas distrações. Onde guardei minha blusinha marrom, senão nesta santa gaveta?

Dizem (e eu não assino nada disto que escrevo aqui, bem entendido) que nos fenômenos de aporte, os objetos podem atravessar paredes. Ir de um cômodo para outro. É por isso meus óculos andam pela casa e eu fico louca atrás deles.

E as chaves? Da casa, do carro. Onde está a chave do carro? Eu pus ali, meu amor. Mas não está. Então, não sei. É o momento de você encontrá-las no bolso da calça ou do paletó. Ou dentro da bolsa.

Uma vez, um frei querido disse que o anjo da guarda dele se chamava “Onofre”. Batizei o meu de “Jeremias”. Penso que “Jeremias” se diverte comigo, escondendo coisas de mim. Tudo bem, mas me ajude a encontrar depois, meu anjo?

 

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