Minha Santa Pretinha

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images (9) Credo, que blasfêmia! Chamar Nossa Senhora de pretinha é um insulto. A beata escandalizada com o título nem percebeu o ato falho que escondia o preconceito. Afinal é blasfêmia, é insulto definir alguém como “pretinho”, afro, negro? Aliás, tem católico que não vai muito com a cara e o jeito de N.S. Aparecida: baixinha e negra. Preferem as Marias brancas, loiras, Fátima, Lourdes, a dos carismáticos, dos Arautos do Evangelho… Tem mais presença, mais simpática, mais fofinha e mais elite.

Aliás, até o Cântico dos Cânticos (1,15) da uma escorregadinha quando faz o elogio da noiva: “Mulheres de Jerusalém, eu sou morena, porem sou bela. Sou morena escura, mas sou formosa”. Como se não existisse beleza na negritude. E a Igreja usa esta citação para falar de Maria.

Nossa Senhora que se revelou no Vale do Paraíba é pra pobre. Escurinha, bem afro-brasileira. Escolheu se identificar com os escravos para incentivá-los a lutar para reconquistar sua dignidade. Aliás, Maria honra sua origem e sua pele. Ela não era branquela. Como seus conterrâneos, ela era mais morena, trigueira, jambo. Aliás, ela não tem preferência por cor. Ela ama seus filhos de todas as cores. A cor negra, ela assumiu no Brasil (Aparecida), na Espanha (Loreto), no México (Guadalupe), na Polônia (Cracovia-Czestochowa), nos Andes (Lujan).

Interessante que no Brasil ela não “apareceu”. Ela foi “achada”. De uma forma espetaculosa? Não! Do fundo lamacento do rio Paraíba, por pescadores que estavam procurando tirar o peixe nosso de cada dia e que foram agraciados pelo milagre de uma pesca milagrosa. Maria Aparecida não se manifestou logo como celebridade, como aconteceu em Fátima, Lourdes e outros. No Brasil ela se deixou achar pelo povo. Bem aos poucos, lentamente, sua devoção foi acontecendo e crescendo. Hoje, milhões a procuram, seja na grande basílica de Aparecida ou nas milhares de igrejas, capelas e santuários espalhados pelo Brasil e no exterior.

Alienação? … Idolatria? O povão não sai em busca de interpretações acadêmicas para suas necessidades. Ele apenas crê e confia e alcança. Por isso, o povo, independentemente de sua crença, e cor, na hora do aperto ou da felicidade grita: Nooosssa Senhora! Virgem Santa! Minha doce pretinha… Virgem Maria. Cruz Credo, Ave Maria!

Pe. Otto Dana -Vigário Paroquial da Igreja Sant´Ana em Rio Claro –SP-

otto.dana@gmail.com

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