Se o céu desabar…

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ceu_azul-thumbSe o céu desabar, não haverá como sair de baixo. Feliz de quem construiu seu próprio refúgio dentro do coração. É coisa espiritual, que não se compra com dinheiro do mundo. Não é coisa física, tipo uma construção segura, senhores.

Se o céu se abrir, direi que ainda estou nocauteada de sonho. Mas também indignada. As coisas dão uma volta muito longa para chegar aonde desejam. Dona Vida é cheia de nove horas, reparou? Ela se adianta, se atrasa, chega bem no meio da festa.

Às vezes, sai de fininho. Ninguém pode abrir a boca. Resta um caixão tristíssimo, flores de um perfume estranho, uma cova na terra, a conta maior que tiveste em vida. É de bom tamanho, nem largo nem fundo. É a parte que te cabe neste latifúndio.

Saudosista, dou drible em Dona Vida e volto ao passado. Ele lembra que dançamos três músicas seguidas. Eu me lembro que gostava de dançar, de valsar, de viver muitas vidas. Aos 15 anos, pode ser diferente?

Os homens gostam de fazer a corte às mulheres. Clarice Lispector eternizou a abordagem masculina num texto onde ela conta do homem da fronteira, que a convidou para um “passeíto”. Hummm… A escritora, como sempre, espertíssima. Clarice romantizou o evento numa crônica soberba e respondeu: “Eu, hein?”.

A vida é sonho, a vida é parte do que planejamos. Mas nem sempre acontece como se deseja. E há o avesso de tudo, o lado que poucos se interessam em conhecer.

Na vertigem da vida, quero a voragem do que não acontece. Do sonho não realizado. Da sorte que nunca tivemos. Do concurso que não ganhamos. Do encontro jamais tido. Do beijo não dado. Dá para entender? É como digo: melhor o mistério eterno que a revelação absoluta.

As coisas da Terra, às vezes, são um tanto sombrias. Devem ser mais belas e mais alegres as do Céu. Buscai as coisas do Alto. É para as alturas que dirijo meu olhar solene, à espera de solenidades.

Neste outono da vida, encanta-me o frêmito das folhas secas. E a inaudível música do tempo. Acordo do sono dos séculos. Abraça-me a força de que todos nós precisamos para ir em frente. Ainda se o céu desabar.

Aposto sempre na esperança e evito os presságios. Pego o atalho mais curto que leva à solidez, à prudência e a um pouco de juízo. Só o necessário.

Minha irmã mais velha é sábia e repete sempre este ditado: “Você é escravo da sua palavra e senhor do seu silêncio”. Quero ser a senhora de mim mesma, enquanto viver. E que Deus nos conceda a lucidez necessária.

Contemplo as frutas verdes e a floração de algumas coisas imperecíveis. Maturação, parto, sonho. Adivinho um inquietante fragor de astros despertando. O rumor das folhagens ao vento, o coração da Terra pulsando. O Sol se movendo entre as palavras. Perdida de amor, pergunto: Deus, por que fizestes tudo isso, assim, sem ao menos nos avisar?

Uma vez, quando a manhã se abria, me fechei. Foi a pior coisa que fiz na minha vida. O coração não pode se fechar. Nunca. Nem um dia sequer. Não é verdade, meu anjo?

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