Tijolo por tijolo

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images (5)Por volta dos 30 anos já tinha acumulado conhecimento suficiente sobre o sofrimento do povo. Sabia das causas e tinha uma proposta. Mas quem acreditaria? Se transformasse pedras em pães poderia ganhar credibilidade. Porém, ele sabia que só esse pão não mata a fome do ser humano. Pensou arriscar-se em exibições portentosas para que Deus se manifestasse; e existia também a possibilidade de aliar-se aos poderosos e fazer sua mensagem vir por decreto.

Percebeu, no entanto, que não era por aí. As transformações devem vir de dentro para serem definitivas. Isso não acontece com milagres, pirotecnia e movimentos de massa. Massa gosta de espetáculo e de mudanças mágicas. Por isso, exige sinais, não para crer, mas para satisfazer sua mentalidade descartável e consumista.

Para mudar as coisas seria preciso partir, se entregar, ir atrás, argumentar, testemunhar, semear com largueza, construir tijolo por tijolo, enfrentar o desacordo, driblar o perseguidor, dormir ao relento, botar a vida em risco e confiar na providencia. Quando ele fechou as portas da carpintaria e deixou a mãe aos cuidados dos parentes, correram atrás dizendo que ficara louco. Tinha decidido. Arrumou um grupo de desencanados e começou fazer-lhes a cabeça. Até voltou para sua terra certa ocasião; quase foi linchado. Afinal, que sinais davam fiança ao filho do carpinteiro que até outro dia era um deles?

A partir de então sua família passou a ser os que nele punham crédito. Sua fama cresceu e a certeza também. Ia de cidade em cidade e falava abertamente. Arrumou encrenca com os líderes do povo. Furou muitas regras que eles prezavam mais que a vida. Chegou a desafiá-los a matarem-no que ele se reergueria em três dias. Chamou de víboras, donos da verdade e opressores do povo os que se julgavam mestres. Encarava discussões desgastantes com os chefes e não deixava ninguém sem resposta. O cerco foi apertando e armavam-lhe ciladas para o pegarem em alguma palavra atravessada. Pediram que desse uma sumida porque até o rei queria matá-lo. Chamou o rei de raposa, e disse que ninguém o impediria de completar sua obra.

Como pop star do momento desapontava a galera com atitudes como entrar na capital da nação montado num jumento; lavar os pés dos amigos; não resistir ao malvado, defender prostitutas, aceitar um traidor no grupo e perdoar quem o torturava.

Tinha compaixão dos doentes e resgatou-lhes a fé que cura. As pessoas de vida duvidosa e os excluídos encontravam nele proteção. Enternecia-se com as crianças porque via nelas o protótipo do cidadão do Reino que anunciava. Contudo, temia que sua missão fosse desvirtuada. Teve de se esconder muitas vezes para não ser aclamado.

Todavia, do que ele gostava mesmo era falar do Pai, e com tal autoridade que o povo ficava suspenso. Deixou muito claro que a maldade vem de dentro das pessoas. É necessário conversão do coração ao amor, porque o amor vem de Deus e supera todas as barreiras que atravancam uma vida de bem-aventuranças. Não adianta colocar remendo novo em pano velho. Gestos de bondade nada mudam. É necessário ser bom e dar rumo novo à vida. “Se observais os meus mandamentos permanecereis no meu amor, como eu guardei os preceitos do meu Pai e permaneço em seu amor. Eu vos digo isto para que a minha alegria esteja em vós e vossa alegria seja plena”. (Jo 15,10).

Chegada a hora deixou-se capturar sem resistência. Afiançou a inocência dos seus amigos e sozinho encarou as conseqüências de sua opção. Despejaram-lhe nas costas o ódio que os consumia por serem cegos e não abrirem o coração à misericórdia. Aguentou toda a humilhação a que foi exposto e do alto do suplício ratificou tudo o que disse e fez. Foi sepultado num túmulo emprestado. Porém, a morte era pequena para ele. Apesar da enorme pedra e dos guardas ele saiu vivo radiante de luz.

 

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