Em 1987: A Coca que se cuide! A grande dama voltou

O texto abaixo foi publicado em outubro de 1987 no semanário impresso A Província. Preservamos datas, idades, comentários e gramática originais do texto.

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“Tomou gengibirra, logo espirra! “Foi com esta frase simples que surgiu em 1897 uma bebida que é tão tipicamente piracicabana quanto a pinga: a gengibirra. A invenção cabe à família Andrade, mas em 1913 também passou a ser fabricada pela família Orlando e durante muito tempo foi produzida apenas em Piracicaba.

Atualmente, com a fábrica Andrade, já fechada, a Orlando é detentora da tradição de manter a gengibirra no mercado até hoje. A fábrica começou com Vicente Orlando, passou para seus filhos José e Caetano e hoje é administrada pero neto Renato Orlando.

Caetano Orlando, hoje com 71 anos, diz que na época não existia rivalidade entre as duas famílias em relação à produção e distribuição das bebidas. “Era uma coisa de amigos mesmo, tinha espaço para os dois”. Ele se lembra que no começo, “a gengibirra era fermentada em quartolis, que são barris de 200 litros e engarrafadas manualmente”.

Talvez muita gente não saiba do que é feita a gengibirra, mas Caetano Orlando diz que a fórmula é simples: “A base é limão, gengibre e açúcar. Muita gente pensa que gengibirra é igual a soda, mas o que dá a diferença é justamente o gengibre”.

Depois da fase de produção manual e fermentadas em barril, na década de 30 a gengibirra passou a ser fabricada com máquinas e logo surgiu uma outra bebida que também nasceu em Piracicaba: a tubaína. Caetano Orlando diz que a descoberta mais uma vez foi da família Andrade. “O nome da primeira, ‘Cotubaina’, quem deu foi o Thales de Andrade, porque naquele tempo a gíria ‘cotuba’ significava uma coisa que era legal, bacana. Depois o nome tubaína passou a ser uma coisa genérica, e nós produzimos a ’Etubaina’. É basicamente uma essência de frutas em que cada fabricante faz a sua mistura própria”.

BOA PRA ARROTAR

Caetano Orlando diz que o consumo de gengibirra continua até hoje, principalmente por causa da tradição. “Mesmo depois da chegada da Coca Cola e do guaraná, ela continuou a ser aceita porque já faz parte dos costumes da cidade”. Ele afirma que a fórmula da gengibirra ainda continua a mesma. “É como uma receita de bolo, que a avó ensina para mãe e esta para as filhas. De geração para geração, pode mudar uma coisinha ou outra, mas o sabor permanece igual”.

Desde o começo, os grandes consumidores de gengibirra, segundo Caetano, foram as crianças e “por isso que a procura ainda vai continuar, porque o hábito permanece mesmo depois de adultos”.

Durante este tempo, existiram muitas histórias sobre a gengibirra, principalmente por ser uma bebida típica da cidade. Ele diz que era uma coisa comum alguém não ser atendido quando pedia gengibirra em outros estados e até em outros países. Outra coisa que Caetano Orlando sempre ouviu foi: Quero uma gengibirra para arrotar!.

PRECONCEITO

Renato Orlando, que atualmente é o proprietário da Fábrica Orlando, está relançando a gengibirra e tubaína em grande estilo, diz que, apesar de tudo, ainda existe um certo preconceito das pessoas com relação ao refrigerante de garrafa: “As pessoas ainda não valorizam muito o que é da terra, têm um pouco de vergonha do refrigerante em garrafa comum. Nós poderíamos fazer uma garrafa fantasia para a gengibirra e tubaína, mas isso seria uma coisa muito arriscada, porque exigiria muito dinheiro e teríamos que competir com multinacionais como Coca e Pepsi.”

Renato afirma que quando alguém vai dar uma festa, compra Coca Cola, porque é melhor socialmente. “Agora, se ele vai para o rancho, o que leva é mesmo gengibirra”. E Caetano Orlando faz até uma aposta em relação a isso: “Se o cara for para o rancho e levar uma caixa de Coca Cola e uma de gengibirra, tenho certeza que a gengibirra acaba antes!”.

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