A morte tão aguardada

Morte aguardadÀs 10 horas desta manhã de 24 de junho de 2010, morri. Finalmente, morri. E Deus sabe o quanto, nos últimos meses, aguardei essa morte, ansiando por ela. Por razões que apenas Ele soube – mas que penso, enfim, começar a entender – cheguei aos meus 70 anos de idade. Foi-me uma angústia terrível esperar por este momento, na agonia do desenlace aguardado, desejado, ambicionado. Pois, no mais fundo de minha alma, eu sabia que, morrendo, eu ressuscitaria para uma nova e esplêndida vida, aquela pela qual ansiei, que me apaixonou, que se me tornou sonho e desejo – mas que os atropelos da existência impediram de chegar à plenitude.

Morri, pois, às 10 horas desta manhã de 24 de junho, 70 anos depois do dia e do horário em que nasci. Morreu o guerreiro, morreu o jornalista investigativo, o intelectual preocupado com o cotidiano, morreu o cão de guarda de uma cidade à qual dediquei minha vida, morreu o perseguidor de corruptos, morreu o adversário de políticos medíocres e oportunistas, morreu um D.Quixote caipira, um Brancaleone de exército ridículo. Morri para banalidades e contingências de cotidianos pequeninos. Foi morte desejada, aguardada. Porque, a partir dela, renasço e ressuscito para um outro momento no qual, tenho plena e absoluta certeza, serei mais digno da vida que Deus me deu, do tempo que ele me proporcionou, da energia que ainda me anima, da força que mais sabiamente me oriente nessa minha infinita inquietação. E renasço com o propósito de, mais compassivamente, estar com amigos e familiares, com minha gente piracicabana. Morri para, ressuscitando, me transformar no que, com o coração abrasado, sinto ser o plano de Deus para mim: contador de histórias. De nossa história. A de nossa gente, a de nosso tempo.

Volto a insistir no que, há anos, venho tentando explicar: se mais humilde eu fosse, andaria de joelhos. Pois estes 70 anos foram de graças abundantes, de experiências e vivências, de acontecimentos, de participações como ator e espectador privilegiados, privilegiadíssimos. Nada mais tenho a fazer senão contar, senão manter viva a memória desse tempo e dessa geografia. É para isso que renasço, após essa morte tão aguardada por mim mesmo.

Ao primeiro momento desse meu renascimento, ouvi, da mulher que amo: “Venha, menino, que eu o acolho em meus braços.” E, antes dela, meus filhos amados – tão amados que me doem de amor na carne e na alma – tentaram surpreender-me com a celebração dessa data, sem saberem que se tratava, também, de um velório e de um batismo. Amei-os ainda mais por essa tanta ternura para com o pai. E, então, eles inventaram um convite – a alguns amigos e parentes – onde, numa síntese que me comoveu, estava o leiaute deste jornal, a informação como notícia e um espaço para eu escrever algumas palavras, o meu bom dia.

Ao anunciar minha morte tão aguardada, ansiada, desejada – e apresentando-me em minha ressurreição, o homem enfim liberto – reproduzo o que escrevi, oferecendo-o ao meu eventual leitor, como compromisso de nova vida, de esperança e de certeza, de convicção e de profissão de fé:

“Ao calor da lareira, tornei-me contador de histórias. E eis o que aprendi: viver é rendição. Começo a sujeitar-me. Rendo-me, cativo. Enfim, entendi: sou apenas o que fui, num tempo e num lugar, com os que amei e que amo.

Fica-me uma comovedora imagem da vida: um filho, sugando o seio da mãe, é como fruto pendurado da árvore que o sustenta. Frutos bons existem para serem comidos. Se não o forem, morrem em outro chão. Aos 70 anos, ofereço-me, fruto maduro, para ser saboreado pelos que amo.

A lagarta, que fui, fez-se borboleta. Viver, pois, é minha aventura de voar.”

Rendo graças a Deus por esse meu novo tempo, o de contador de histórias. Morto e ressuscitado, entrego-me, cativo, à minha terra e a meus conterrâneos. Amém e bom dia.

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