Sem lenço, nem documento, mas…

Sem lençoQuando digo temer por cidades que se desenvolvem caoticamente, estou, na verdade, querendo dizer do desperdício de bênçãos. Muitas delas, as bênçãos, apenas são valorizadas quando perdidas. E, como arte e estilo de viver, não conheço bênção tão suave como a de morar em cidades interioranas, com raízes, com almas compartilhadas. Piracicaba ainda é uma cidade especial de se viver. Mas, por enquanto, pois tesouros se vão perdendo, delícias estão sendo destruídas em nome da ambição de alguns e da ganância de outros.

A vida provinciana é bênção de que se toma consciência apenas quando ameaçada de perder-se. Essa ameaça existe, mas ainda há essa vida singular, honesta, decente, uma cidade que teima em continuar sendo um lugar de viver, não de sofrer, de viver ambições, de especulações imobiliárias, de comissões nem sempre lícitas e legítimas. Somos, ainda, a cidade onde se vai à Farmácia do João Sachs, à Padaria do Zé, ao empório do João, ao bar da Loura, à banca do mercado do Serafim, à pastelaria do japonês.

Pois bem. Se pelo menos uma que outra virtude tive na vida, uma dessas únicas foi a da pontualidade. Não perder hora, cumprir horário, ser pontual, isso se me tornou, ao longo da vida, algo que assumo ser neurótico, à beira da esquizofrenia. Penso ter sido uma herança da vida jornalística, na qual o fechamento do jornal tem hora marcada para cada página, para cada caderno, horário inflexível para chegar às oficinas. E, na terça-feira, lá me vi diante de um compromisso sério e inadiável, aprazado para as 15h. E, atendendo a outro compromisso, eu corria o risco de atrasar-me, o que me aumentava a ansiedade. Barbear-me, banhar-me, trocar de roupa, acho que o fiz em pouquíssimos minutos e lá me fui para o automóvel, ainda abotoando a camisa.

De repente, vi que o combustível estava no fim. E que, portanto, eu não chegaria nem à metade do meu destino. Parei no posto e, quando fui pagar, entrei em pânico: cadê a carteira? Eu a esquecera e não daria tempo de retornar. O moço do posto me acalmou: “Vá em frente, depois o senhor paga, é freguês antigo.” Acelerei, mas com mil pensamentos negativos me atordoando: e se o guarda me parasse, como pagar a zona azul, o pedido de frutas e verduras, de pão e leite, até de cerveja que a família me fizera? Lá estava eu, pois, sem lenço nem documento.

Estacionei na zona azul, procurei um guardinha para explicar a situação. Vi a lojinha de um conhecido, falei de meus apuros, ele sorriu e me deu uma folha para marcar o horário do estacionamento: “qualquer hora você paga.” Fiquei feliz. Mesmo assim, participei da reunião com intranqüilidade, pois havia todo o caminho de volta. E seria absurdo voltar à minha casa distante para apanhar a carteira e retornar para outras compras. Senti-me acabrunhado, humilhado, indefeso.

Passando diante da frutaria, ia prosseguir meu caminho, hesitei: “por que não explicar ao vendedor, que me conhecia, que esquecera a carteira?” Desci do carro, justifiquei-me, o rapaz se tornou ainda mais solícito e até me ajudou a escolher as frutas, já que sou um incompetente para isso: “Qualquer hora, o senhor paga, não se preocupe com isso, volte sempre.” E parei na padaria e, da mesma forma, comprei o leite e o pão. E, finalmente, me lembrei do boteco próximo de casa onde velhos conhecidos meus passam as tardes jogando baralho e bebendo cerveja. Os donos são meus amigos. Quando comecei a explicar, um dos aposentados ouviu, levantou-se e se ofereceu: “Eu pago, depois ele acerta comigo.” A mulher do dono do boteco quase se ofendeu: “De jeito nenhum. Ele vai levar as cervejas e paga quando quiser.” E, sem lenço nem documento, levei também a caixinha de cerveja para casa.

O nome disso é bênção. A bênção e o privilégio de viver numa cidade onde ainda é possível pensar-se em comunidade, em solidariedade, em confiança, em respeito de uns para com outros. Por isso, peço aos céus que a previsão de Nossa Senhora dos Prazeres – quando, levada pelos anjos, foi-se embora ao tempo da povoação – esteja correta: “Esta nunca será uma cidade grande.”, teria dito ela. Pois ela sabia que Piracicaba, em vez de cidade grande, seria uma grande cidade. De fraternidade, lugar de comunhão, de decência e de respeito. Lugar onde se possa, ainda, viver sem lenço nem documento, sabendo que esse não ter é uma bênção. Bom dia.

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