Cheiro de casa, comida de mãe

ComidaDizem, alguns, não haver diferença entre gastronomia e culinária. Ora, nada entendo disso, mas sou curioso e, em minha biblioteca, há secções inteiras sobre o assunto. Se não sei fritar um ovo, conheço receitas formidáveis de regiões brasileiras e de outros povos. E a história da alimentação é fascinante, pois a própria história da humanidade. Do cru ao cozido, como nos ensinou Levy Strauss, a civilização se instalou.

Pelo que sei, no entanto, as duas artes não se confundem. Gastronomia é a arte de comer; culinária, a arte de cozinhar. Logo, o gastrônomo pode desconhecer a arte de cozinhas, tendo, à mesa, porém, o bom gosto, o refinamento, que nem sempre significam sofisticações. Sem ser sofisticadas, as coisas podem ser refinadas. Aliás, deveriam.

Ao que se percebe, a arte da gastronomia vai de vento em popa. Mas, em nível familiar, a arte da culinária definha. E é o próprio cheiro das cidades que dizem isso. Pois, até poucos anos passados, as ruas da cidade exalavam o cheiro bom de comida feita em casa, cheiro de feijão, cheiro de bife acebolado, de café coado na hora. Hoje, cheiro de comida as cidades passaram a ter apenas em fins de semana, com as churrascadas que se fazem entre amigos, com as máquinas de assar frango parece que plantadas a cada dois quarteirões. De sábado e domingo, a cidade tem cheiro de frango assado, de churrasco e carvão.

Já até ouço alguém dizendo que tudo mudou. E não sei, eu, lá disso? Mudou tanto que até mesmo a mais tenra geração está perplexa, sem saber o que é isso ou aquilo, geração que, para mim, está sendo penalizada por uma fatalidade de efeito devastador: há multidões de crianças que, ao crescerem, não terão saudade de comida de mãe. A não ser o hambúrguer feito em casa, ao anoitecer, como lanche. Ou as idas aos shoppings, onde a cozinha de casa foi substituída imperialmente pelos Mc Donalds da vida. Crianças de hoje dirão, na maturidade, de sua saudade de comer hambúrguer em shopping levadas por mamãe e por papai. Não ter saudade de comida de mãe é, em meu entender, uma das grandes tragédias que as famílias modernas deixaram como amarga herança à posteridade.

O cheiro da cidade, voltando ao tema, é o da fumaça dos automóveis, cheiro dos bueiros, do lixo espalhado nas ruas ou à espera de ser recolhido. E confesso não conseguir me esquecer de quando, passando pelas calçadas, o perfume do feijão vinha das casas e, de manhãzinha, o do café cujo olor recendia pelas ruas. Na realidade e em verdade, o tempo mudou, os tempos mudaram. Doce feito em casa – de goiabada, de marmelada, cocada, de laranja cristalizada, bolo de fubá – se tornou tal raridade que passou a ser vendido, a peso de ouro, em casas especializadas. Aliás, comer arroz com feijão, comida caipira e mineira, passou a ser programa chique e refinado de final de semana. Tanto assim, que tenho uns cinco convites de amigos para conhecer lugares simples que fazem a velha e imbatível comida caseira, incluindo um lugar onde a especialidade é a linguiça com qualidades mais variadas e apetitosas.

Os tempos, pois, mudaram. E a comida da mamãe ou da cozinheira da família se tornou a comida congelada que se compra nos supermercados. É mais prático, mais cômodo, mais moderno. E com a vantagem de, para esse veneno lento, haver, agora, clínicas especializadas e remédios atualíssimos para combater a epidemia de obesidade, de colesterol, de diabetes que assola nossa gente. No tempo da gastronomia, a arte culinária doméstica entrou em estado terminal, quem diria? Bom dia.

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