A menina e a metralhadora

Criança com metralhadora

Lenda ou realidade,  passou à história a resposta de Einstein, a um jornalista, a respeito de guerras. Foi logo após o término da II Guerra Mundial. O repórter ter-lhe-ia perguntado como, em sua opinião, viria a acontecer a Terceira Guerra Mundial. A resposta de Einstein, surpreendente, aterradora: “A Terceira eu não sei. Mas a Quarta será com arco e flecha”.   Verdadeira ou não, a previsão ainda é válida.

Desgraçadamente, a história da humanidade continua sendo escrita pela história das guerras. A paz entre os povos acontece em intervalos tão fugazes que quase não importa. Sendo já veterano jornalista – e muito tendo caminhado na vida – estou entre as testemunhas de que, desde a II Guerra Mundial, não houve paz no mundo. Guerras continuaram pipocando de um lado e de outro. Terminado o horror contra o nazismo, veio a Guerra Fria, vieram as guerras na Coreia, no Vietnam, na África, no Oriente Médio, no mundo todo. Revoluções, golpes militares e políticos, ditaduras.

Qualquer estudante de política internacional sabe que o mundo apenas encontra algum equilíbrio quando houver a bipolaridade de poder, um grupo de nações equilibrando-se diante do grupo contrário. A hegemonia do poder – como ocorre agora com os Estados Unidos, após o desaparecimento da União Soviética – é a implantação da tirania. E a multipolaridade – muitos poderes espalhados e contrapondo-se entre si – cria a desordem.

Os Estados Unidos – tornando-se xerifes do mundo – deram-se o direito de impor a própria lei, que tem sido a da força. O histórico do “grande porrete” – a política do “big stick”, imposta desde Theodore Roosevelt – é de invasões, de domínios, de desrespeitos, todos eles cometidos sob a desculpa de preservar a democracia no mundo. Isso nunca foi verdade. O “grande porrete” continua sendo a escolha diplomática para defender os interesses estadunidenses espalhados pelo mundo.

E isso ocorrerá sempre, seja qual for o país ou países que imponham a hegemonia política que, na verdade, é a hegemonia das armas, da força. Hoje, o que acontece no mundo – barris de pólvora explodindo por todos os quadrantes – demonstra o fracasso da busca pela paz. E, como aconteceu com a Liga das Nações, mostra a ONU entrando em colapso, perdendo a importância, sendo humilhada e desrespeitada exatamente por seus membros mais poderosos.

A terrível verdade, no entanto, é a de que não existem governos tirânicos sem que tenham, eles, o apoio de seus povos. Hitler não teria imposto o nazismo se o povo alemão se recusasse a dar-lhe o poder. Os Estados Unidos não espalhariam guerra e morte por todo o mundo, não tivessem o apoio de seu próprio povo. Um país guerreiro é formado por povo guerreiro. Um país pacifista é país de povo pacifista.

Essa tragédia particular ocorrida nos Estados Unidos – quando uma garotinha de nove anos mata o seu instrutor ao aprender a atirar com metralhadora – explica a gênese, o DNA da violência estadunidense. Um país que cultua e cultiva as armas, que louva e estimula as guerras somente pode fazê-lo se estiver apoiado na maioria da vontade popular. Os grandes derrotados têm sido as vibrantes minorias pacifistas que continuam impotentes diante da sanha guerreira de sua elite dirigente.

Hitler – ao perceber a proximidade da derrota – convocou adolescentes para os campos de batalha. Em todo o mundo, há crianças empunhando armas e cometendo atrocidades inacreditáveis. Crianças guerreiras no Oriente, na Ásia, em guerras sem fim. Isso estarrece inteligências lúcidas, mas se mostra como um subproduto maldito de mundos em guerra. Nos Estados Unidos, não. As crianças armam-se por lazer, aprendem a atirar por distração, manejam a temível metralhadora Uzi por opção dos pais.

Uma criança que aprende a matar será um adulto matador. É esse o futuro que oferecemos á humanidade? É esse o “american way of life” que povos infantilizados querem imitar?  Bom dia.

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