O terrível poder do vício

VícioMultidões não sabem distinguir hábito de vício. E nem é pretensão minha discutir a questão. Apenas simplifiquemos: hábito é costume, repetição constante. E vício, o contrário da virtude. É, também,  um hábito, mas irracional. Fiquemos por aqui, no simplismo de tal complexidade.

Fumar é um hábito ou um vício? Quando fumante, eu – para justificar-me – dizia ter o “hábito de fumar”. Mas eu sabia ser um vício, uma dependência quase incontrolável. E, portanto, irracional. Era tal a dependência que eu não tinha coragem sequer de tentar parar de fumar. Pois sentia, por antecipação, que seria derrotado. Para mim, o cigarro era invencível. Acabei vencendo-o. Mas porque a morte chegou tão perto que minha alternativa era simples: o cigarro ou a vida. Escolhi viver, mas com uma saudade antecipada daquele meu inimigo tão íntimo.

Até os animais podem ser condicionados, conforme o célebre experimento de Pavlov. E o ser humano – embora conhecido como ser racional – é da espécie animal, primata submetido a toda sorte de condicionamentos. O estranho, penso eu, é que, sendo conhecido como racional, o homem possa ter tanta irracionalidade. Os vícios nos alcançam com uma facilidade espantosa. Logo, são eles, os vícios, o maior adversário para que consigamos constituir sociedades virtuosas. A dificuldade? O massacre permanente estimulando hábitos irracionais, condicionamentos também irracionais. A ciência da propaganda tem recursos extraordinários para criar hábitos. E nem sempre lhe importa se a criação é virtuosa ou viciante.

Deixei de fumar. E lá já se vão 15 anos. No entanto, ainda hoje, sonho com cigarro, com charuto, e desperto, suando e assustado, mas com a sensação daquele prazer que me acompanhou a vida toda. E a vontade ainda existe. Por isso, respeito os viciados em tantos e outros vícios: bebida, drogas, medicamentos, jogos, sexo, etc. Um ex-fumante – se não se tornar um chato aporrinhando a vida alheia – é solidário a outros viciados, pois sabe das imensas dificuldades em se vencer a dependência, o hábito irracional, a dependência feroz.

Ver televisão se tornou, para multidões, um  vício. Há quem enlouqueça se o aparelho deixar de funcionar nem que seja por uma noite. É como se se perdessem as resistências, tornando-se indefeso com a solidão. Pois, sem televisão – que se tornou outro hábito irracional – o viciado não sabe o que fazer. Dificilmente, saberá dialogar com a família, com a(o) companheira(o) ou, sossegadamente, ler algo ou apenas descansar. Há viciados que, logo ao acordar, ligam a televisão, como se o mundo não existisse se ela não estiver ligada. E ficar sem automóvel? Mesmo que não esteja precisando dele, apenas o fato de saber que não o tem – por estar na oficina, por estar danificado – já desequilibra tudo.

Agora, a tecnologia da informática – cujos benefícios são incalculáveis – trouxe, consigo, os vícios mais modernos: computador, games, facebook e, assustadoramente, os celulares. Lembro-me de quando telefone era um aparelho que, para funcionar, dependia da telefonista. Quando surgiram as ligações diretas, foi como se o paraíso se abrisse. E – como nada é o bastante para quem já alcançou algo – veio o sonho dos “telefones de bolso”. Era um sonho imaginar essa invenção. Ela surgiu e a alegria foi como que orgasmática. Mas ninguém imaginou que se tornasse um vício coletivo vindo a alterar todas as relações humanas.

Ganhei, de meus filhos, já quatro aparelhos celulares. Não uso nenhum e, para falar a verdade, não sei o número deles e nem mesmo onde, em que gaveta estão. Sou traumatizado por telefones, após tantas décadas de jornalismo. Ainda hoje, se estou em algum lugarcque não minha casa, ouço o tocar de um telefone e me sobressalto, pensando ser comigo. Pois vivi ouvindo tilintar de telefones dia a dia, hora a hora, minuto a minuto por décadas e décadas. E eles, quase invariavelmente, traziam notícias e informações ruins. Mas sei da importância fundamental deles na comunicação humana. Apenas nunca imaginei que – ao se tornarem celulares – se tornariam esse  absurdo vício coletivo.

Fico pensando: existiria algum lugar no mundo onde fosse possível encontrar alguém que não esteja usando celular? Em cinemas, teatros, restaurantes, salas de espera, em cemitérios, em hospitais, no quarto, no banheiro – parece não haver mais ninguém que abra mão de seu aparelho. O que era para tornar mais fácil a vida do homem e suas relações tornou-se um perigoso hábito irracional.

Sei lá, mas parece ser destino ou vocação do ser humano transformar o bem em mal, a virtude em vício. A energia atômica foi uma descoberta fantástica para servir a humanidade. E, no entanto, ela se transformou na bomba atômica. O nosso tempo será lembrado não pelas grandes conquistas da ciência e das realizações da tecnologia, mas pelo uso irracional de tantas das formidáveis descobertas. Uma “civilização dos celulares”, quem diria? Bom dia.

1 comentário

  1. Marisa Bueloni em 23/08/2013 às 19:15

    Fumar é um vício e creio que dos piores. Leva muita gente embora mais cedo… Penso que nascemos para conviver com vícios, hábitos e manias… E agora existem os viciados em internet. Deus Pai!… Como diria minha mãe: "O que vai ser do nosso mundo???"… Um abraço, Cecílio!

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