Corinthians e libertação

Corinthians 2Já confessei meu propósito de, tendo completado 70 anos, dar-me o direito de me dedicar a um outro processo de vida, no qual possa descartar o que me parece secundário, o que não tenha mais sentido, como se fizesse uma reavaliação de tudo. Rompi barreiras, venci dificuldades, quebrei correntes. E, com isso, consegui me libertar de muitas amarras, podendo dedicar-me às minhas escrevinhações num sentido mais amplo, o de contador de histórias.

Ora, o hábito é fundamental na vida humana. Vivemos de hábitos. Assim, estamos diante da virtude quando adquirimos o hábito do bem. E entramos no vício, quando alimentamos o hábito do mal.

Venci bloqueios imensos, dependências, hábitos que nada mais me significavam. Uma das minhas mais significativas vitórias na vida foi a de vencer o cigarro, fumante inveterado que fui por cinco décadas, chegando à estupidez de fumar quatro maços diárias. Precisei um aceno da morte para vencer o tabagismo. Mas venci-o, sem lei que proibisse fumar ou remédios que ajudassem a superar a dependência. Sem falsa modéstia, sinto quase herói como um vencedor ex-fumante, ainda que haja dias em que a vontade me parece quase imperativa. Resisto.

Tornei-me um homem mais seletivo, até mesmo nas amizades. Rompi com qualquer vínculo de ordem política e partidária. Não me interesso mais pelo que acontece nessa esfera aqui em Piracicaba, onde a mediocridade parece imbatível. Reorganizei minha vida afetiva, confirmando situações já definidas. Estou, portanto, naquele processo que acadêmicos costumam chamar de reciclagem intelectual, também cultural e espiritualmente. Tirei fardos inúteis das costas, deixei abandonadas armas e pedras ao longo do caminho. A memória não mais me faz sofrer, mas, agora, me enriquece espiritualmente, como se lampejos de sabedoria da idade me iluminassem caminhos que me pareciam obscuros, ou que estavam ocultos.

Confesso, pois, estar num estado apaixonante de depuração, de seleção, de escolhas, de opções. Vou-me sentindo, assim, um homem cada vez mais liberto, reconciliado com quase tudo, próximo de reconciliar-me até mesmo com a fé. No entanto, tenho uma carga que me pesa, uma paixão avassaladora que me inquieta, um amor visceral que me machuca a alma, um amor maldito, uma paixão sórdida. O nome dela é Sport Club Corinthians Paulista. E tenho medo de dizer que rompi com o Corinthians, que não quero mais saber, que agora basta, tal a vergonha que senti, a humilhação que passei, o sentimento e a sensação de ser um idiota, um estúpido, ao ver Ronaldo, Roberto Carlos, Elias,Luciley, Danilo, os tais craques do futebol brasileiro, tomando um passeio, um baile completo de uma garotada do Goiás. Vi-me, diante do televisor, gritando feito um maloqueiro, um presidiário cumprindo penas: “Fora Ronaldo; chega Ronaldo, gordo nojento, elefante aleijado!”

É o que estou querendo dizer: preciso me libertar do Corinthians. É sofrimento inútil, dor tola, paixão sem vergonha e eu não posso mais me considerar um inútil, um tolo ou um homem desavergonhado que chora, geme, chora e fica à beira de outro infarto a cada jogo do Corinthians. É um desafio terrível, um vício maldito. No domingo à noite, eu jurei que nunca mais haveria de permitir o Corinthians na minha vida. Na manhã da segunda-feira, já comecei a ponderar algumas coisas e até o Ronaldo, depois que o vi chorando, não me pareceu tão gordo, nem tão elefante, talvez um elefantinho. E, agora, enquanto escrevo sinto que preciso parar rápido, na próxima linha, pois a raiva que senti do Corinthians já começa a se tornar enternecimento, o vício me parece virtude e já duvido se irei superá –lo. Há algo de muito sem-vergonha, de irresponsável, de estúpido no corintianismo, um vício maldito. Bom dia.

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