O último “Bom Dia”

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Esta é a última crônica do pequeno espaço que completou mais de 50 anos de existência. Foram cinco décadas em que, dia a dia, o autor acompanhou o desenrolar da vida e do mundo, empolgado e assustado com tantas transformações. Encantado diante de tantas maravilhas e amargurado com absurdas realidades humanas. Tristezas e alegrias, decepções e esperanças, indignações e rendições de graças, desânimos e entusiasmos, cansaços tentadores para desistir, renovações espirituais para prosseguir.

É-me quase impossível recordar de cada acontecimento, de cada crônica. No entanto, há uma constante que permanece na alma e na Inteligência, como se fosse um “continuum” que se não interrompe: o amor à vida, o amor a Piracicaba. A imagem que me fica é a de um vulcão em permanente interrupção, explodindo e lançando chamas para – inexplicavelmente e quase ao mesmo tempo – acalmar-se, tornando-se lago sereno. Sei que foi assim. Sinto-o nas vísceras da alma.

O “Bom Dia” – como já o revelei diversas vezes – foi o instrumento que me salvou do desespero, do desânimo, da descrença. Eram tantos e tantos horrores no cotidiano do jornalismo – guerras, corrupção, ódios, rancores, violência – que, chegando ao final de cada edição, o redator jovenzinho se sentia intoxicado daqueles mil males. Daí, nasceu o “Bom Dia”, a coluna com que eu encerrava a edição, numa conversa comigo mesmo, num desabafo, num muro de lamentações, num confessionário. Era-me necessário e fundamental limpar-me de tantos horrores, impedir fosse, a alma, contaminada pela face maléfica da humanidade.

Sobrevivi. E é a Deus que rendo graças por isso. E foi o que fiz nestes últimos meses de ausência desta coluna. Revi-me, reavaliei-me, revisei-me – tentando entender as novas realidades cada vez mais brutais, confusas, caóticas. Por estranho pareça, estou encantado com o parto dolorido e assustador desse novo mundo. Já vi isso acontecer – em outros aspectos e contextos – diversas vezes. Houve perplexidades, sustos, medos – e, quando a poeira baixou, o novo surgiu. Penso eu – agora, com o pouco de sabedoria adquirida – que fomos nós mesmos os responsáveis pelas oportunidades perdidas. O novo não nasce pronto. Precisa ser burilado, cuidado, como se faz com a arvorezinha cujo tronco frágil vamos ajeitando para que cresça vistosa, ereta, firme.

Chego, agora – diante da espetacular arquitetura tecnológica – à conclusão consciente, à decisão meditada de que o “Bom Dia” já cumpriu sua missão. E que deve repousar em algum lugar da memória. Não que ele deva morrer. Mas que precisa renovar-se, reciclar-se, dar espaço a seu herdeiro, assim como um pai entrega o bastão para o filho. Minha esperança é de que o princípio permaneça, mas que os valores se redefinam.

Não há mais sentido em análises apenas paroquiais, em críticas – por mais honestas sejam – a políticos locais, vereadores, prefeitos, deputados. Eles estão superados e não o percebem. Na verdade, fazem apenas o que sabem. E o que sabem é de uma pequenez entristecedora. Eles não mais representam ninguém e nada. E não o fazem porque a própria população – estarrecida, perplexa – também não sabe o que quer. Sabe, apenas, o que não quer. Estamos no vazio. Como e quem pode representar o vazio?

Em minha consciência, o “Bom Dia” caducou. Poucas colunas, pelo que eu sei, duraram mais de 50 anos. Chegou o momento de ela parar. Deve parar. E por um motivo simples, claro, objetivo: o autor tornou-se outro. E quer continuar, prosseguir em sua missão com olhos e alma renovados. A tarefa será ainda mais árdua, pois será a de tentar aplaudir, estimular, incentivar o novo com a responsabilidade, porém, de lutar para impedir sejam destruídos os pilares do passado. Não há futuro sem alicerces do passado. O novo sem história é apenas vendaval que passa e, em vez de criar vida, devasta.

Será tolice, creio eu, analisar a vida política, econômica e social apenas no seu dia-a-dia e de forma paroquial. A integração universal é de tal forma espantosa que a grande missão do jornalista e do escritor, agora, é a de refletir, de meditar, de tentar encontrar causas e nunca mais ater-se aos efeitos. O jornalismo é outro. O jornalista e o escritor, pois, devem saber como atuar, quais as novas responsabilidades.

Este, pois, é o último “Bom Dia”. E o acolho, no coração, com muito carinho, o do homem agradecido por ter vivido com um companheiro tão leal. Estou às vésperas de completar 75 anos, com 60 de jornalismo em minha terra e para minha terra e para minha gente. Fui abençoado, pois a força que me anima é a de prosseguir, recomeçando. Em vez de um “Bom Dia” apressado, cotidiano, manterei uma coluna mais meditada, mais pensada, mais refletida, tentando entender o que não estamos entendendo. O nome dela era: “Crônica – quase sempre”. Ou “Reflexões de um velho aldeão.” Portanto – sem choro nem vela – desejo, ao leitor, meu último bom dia. Nesta coluna. E grato pelos que me acompanharam.

10 comentários

  1. Daniel Brilho em 04/05/2015 às 09:08

    A gratidão é nossa, Cecílio!

  2. Rubens Fontão em 04/05/2015 às 10:06

    Deixará saudade!! Abração Cecílio! Bom Dia!!!

  3. LUÍS ANTONIO RÉ em 04/05/2015 às 11:11

    Grato sou! Vamos aguardar as “Reflexões de um velho aldeão.” – forte abraço

  4. Suely Branco em 04/05/2015 às 12:11

    Bom dia, Cecilio! Texto lindo, coerente, como sempre, com suas convicções! Parabéns! É hora de renovação! Que seja bem-vida!

  5. Miguel Angelo Maniero em 04/05/2015 às 20:04

    Muito obrigado por muitos Bons Dias que me acompanharam nesses anos todos. Com certeza Piracicaba sentirá muita falta de suas reflexões.

  6. Delza Maria Frare Chamma em 11/05/2015 às 11:05

    Despeço-me do Bom Dia para esperar “Crônicas quase sempre” ou “Reflexões de um Velho aldeão.” Do “Bom Dia”, que acompanhei, sempre que pude, guardo reflexões importantes que por vezes transformaram um daqueles dias que despontara em angústias mal costuradas em um outro no qual o alento voltou devagarinho devido a alguma pequena frase ou palavra, algum pequeno ganchinho ao qual o seu leitor pode se agarrar e quem sabe com ele desencadear uma mudança? Como disse você, Cecílio, o parto do novo é dolorido e lacerante. O mundo se transforma, dialeticamente, num movimento histórico muito lento. Mas essa mudança traz em seu bojo o trabalho importante do escritor que também se renova e puxa, ao alcance do seu leitor, esse ganchinho – uma palavra um ponto de interrogação, uma frase quem sabe, que pode deflagrar todo um processo de mudança. Bem vindo novo escritor neste novo mundo cada vez mais globalizado e complexo e no qual sua palavra tem sempre algo a acrescentar.

  7. marcelo basso em 22/05/2015 às 15:02

    Seu Bom Dia já deixa saudade!
    Abração
    Marcelo Basso

  8. Amelinha em 27/05/2015 às 18:56

    Um beijo no coração. Te amo.

  9. Flávio em 03/06/2016 às 11:40

    Sem dúvida, o “bom dia” nunca será esquecido.

  10. Marisa Bueloni em 07/07/2016 às 20:05

    Caro Cecílio! Só agora vi sua decisão de encerrar o “Bom dia”. Respeitamos, mas posso fazer uma sugestão? Escreva um “Boa noite”, um “Boa tarde” – e de novo um “Bom dia” – do jeito que você quiser e como só você sabe redigir. Vamos sentir saudades! Um abraço da Marisa.

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