Um casamento e carne de língua

Carochinhas, assim eram chamadas, antigamente, as velhas contadoras de histórias, tidas, também, como bruxas. E é das lonjuras dos tempos que nos chegam fantasias, lendas, fábulas por elas narradas, forjando, com sonhos e devaneios, a imaginação coletiva dos povos. Até Platão implicou com as carochas e seus “contos das velhas” que, no entanto, atravessaram os milênios. Encantadores, tornaram-se conhecidos como “contos de fadas”. E nunca será demais lembrar que a palavra fada deriva de “fatum”, fado. E fado é aquilo que os deuses declaravam, imperativo que se tornou conhecido como destino.

Desde, pois, os mais remotos tempos, existe esse universo da imaginação humana permitindo, milenarmente, fosse, o mundo, um espaço mágico, onde o real podia ser recriado. Bichos falavam, pessoas voavam, moças humildes casavam-se com príncipes encantados, heróis salvavam donzelas ameaçadas por monstros horrendos. O próprio mal era mais claramente identificado, incorporado no lobo, na raposa, na serpente, em demônios que enfrentavam anjos.

Nos contos de fada, o mito vive sob forma de encantamento. Heróis e bandidos, prêmios e castigos, como versões profanas das narradas em livros religiosos. O Iluminismo começou a tirar o encantamento da vida e do mundo, propondo entendê-los a partir da razão. No entanto, o mistério continua e o sonho permanece, mesmo que com outras roupagens. Pois, ainda agora, em nossos tempos cruéis, há o sonho do final feliz, mitos redivivos, fadas criando destinos, crenças e superstições que alimentam a esperança em algo melhor e mais suave.

Até Rousseau condenou os “contos das velhas”. Mas eles sobreviveram, como para comprovar a importância vital das histórias da carochinha na vida humana. A esse respeito, uma das mais belas ilustrações – das que conheço – vem do Quênia. No reino do sultão, havia um homem muito pobre cuja mulher, no entanto, era feliz, alegre, saudável. No palácio, todavia, a mulher do sultão, com todos os bens e riquezas, definhava, cada vez mais amarga, triste e infeliz.

Intrigado, o sultão quis saber o segredo de aquele homem fazer tão feliz sua também pobrezinha companheira. O homem respondeu: “Eu a alimento com carne de língua.” E lá se foi o sultão determinando fosse comprada toda a carne de língua que sua fortuna pudesse adquirir, línguas de boi, de carneiro, de passarinho. Mas a sultana continuou a definhar, mais e mais triste. Desesperado, o sultão, com seu poder sobre tudo e todos, ordenou que a sultana trocasse de lugar com a mulher do homem pobre. E ela, em pouco, pouquíssimo tempo, se transformou, tornando-se bela, feliz, saudável, rosada. E, no palácio, quem definhava, apesar de todo o inesperado conforto, era a mulher pobrezinha.

Foi quando o sultão entendeu: a “carne de língua” – que alimentava e tornava felizes as pessoas – não era a língua material, mas os contos de fadas. Contando histórias, narrativas imaginosas, espantava-se o silêncio e, com isso, afugentava-se a melancolia. As mulheres – como, depois, o próprio sultão – eram felizes pelas histórias que ouviam, transformadas pelo alimento transmitido pela fala, embaladas pela linguagem.

Hoje, com o casamento do Príncipe William e a plebeia Kate Midletton, o mundo interrompe a banalidade do cotidiano para viver como que o êxtase do encantamento de uma história da carochinha, de um conto das fadas que sobrevivem ao massacre do materialismo. Param guerras, param fratricídios, param confrontos e, como se os duendes espalhassem perfumes no ar, olhos e corações voltam-se para Londres. Ressurgem os encantamentos esquecidos e, de repente, Kate será a Bela Adormecida, a Gata Borralheira, Cinderela, a Guinevere de Lancelot e do Rei Arthur, e, no devaneio do mundo, a ressurrecta Lady Diane, a princesa do povo. A vulgaridade do dia-a-dia será interrompida para se ver carruagens e carros nobres, imponentes cavalos brancos e negros, tiaras reais, uniformes lustrosos, reis e rainhas, príncipes e princesas, coroas preciosas, pajens, damas e cavalheiros. O sonho transformará o dia corriqueiro e o palco do casamento num tempo e num lugar sagrados.

Os modernos meios de comunicação contarão uma história da carochinha sem se darem conta de que o farão com a magia da “carne de língua”. Ao real e virtual de nossa época, um sopro de encantamento surge com o irreal, o fantasioso, o mágico de um casamento majestático que, aparentando superficialidade, transpira delicadezas enobrecedoras.

Será o primeiro conto de fadas deste milênio. E – pelo menos por algumas horas – o belo de sempre vencerá o feio de agora.

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