No vizinho, conto de fadas

picture (84)Não me lembro de tempos que não fossem confusos, incluindo aqueles mágicos “anos dourados” que nem nós mesmos, que os vivíamos em plena juventude, sabíamos serem dourados. O que existe, e sempre existiu, é a perplexidade das pessoas com as transformações, essa incapacidade que temos – e isso e natural, talvez até mesmo um bem – para nos livrar de experiências pessoais que nos foram importantes.

Fico questionando-me: será que as pessoas não se deixam vencer pelo cansaço, pelas decepções? Há aquela expressão que julgo dolorosa: “no meu tempo…” Mas qual é o tempo das pessoas? Seria apenas o da juventude, o da mocidade? A verdade é que, em todos os tempos, os mais velhos se vêem confusos e, por isso, somos nós que dizemos serem confusos os tempos. Como os de agora. E, no entanto, há belezas acontecendo que, por permanecermos de olhos fechados ou hipnotizados por outras realidades, acabamos não vendo.

Vivi uma experiência dessas, fecunda, fértil, tocante. Morei, por alguns anos, por opção, num lugar distante de tudo. Havia silêncio, quietude e eu redescobria a beleza de ter vizinhos. E eis aí uma das tragédias modernas, talvez o maior de nossos equívocos: o de nos esquecermos dessa figura essencial que é a “vizinhança”. (Na história da humanidade, desde que o homem saiu das cavernas e criou a aldeia, a noção do “vizinho” era mais importante do que a dos parentes. “Vizinhos” sempre se socorreram, se ajudaram uns aos outros. Parentes, nem sempre. Ou quase nunca. E isso é histórico.)

Pois bem. Houve festa no quarteirão. A mocinha completava 15 anos. Menina bonita, inteligente, meiga, delicada, de família simples mas sólida, pais lutadores. Emocionei-me, indo à festa dos 15 anos da garota, ao reencontrar valores, emoções, sentimentos que eu conhecera e vivera nos quarteirões de minha infância e adolescência. Eram as festinhas das famílias, nos aniversários dos filhos, o ritual que se fazia quando as meninas completavam 15 anos, sem sofisticações ou luxos inúteis – mas com o esbanjamento de ternura, de amizade, de sinceridade. Ficar no quintal do anfitrião, tomando cerveja com os vizinhos, comendo empadinhas feitas em casa, croquetes, como se preparados por mãos de fadas. A menina de branco, as 15 rosas brancas, a música da menina–moça, a valsa entre pai e filha, a emoção, as lágrimas, a oração em conjunto, a devoção à Senhora Aparecida. E, acima de tudo, a certeza de acolhidas honestas, sinceras, generosas.

Sabem em que fiquei pensando? Em pessoas que moram em verdadeiras gaiolas de ouro e que nem sabem o nome do vizinho ao lado, que o conhecem de se encontrar no elevador. Pois aí está um bem – talvez o maior dos que ainda temos em nossa vida social – que foi esquecido e que precisamos recuperar: o sentimento de “vizinhança”. Eu nasci assim, num quarteirão de quintais com muros baixos, ouvindo um vizinho colocar a cabeça no quintal do outro: “empresta uma xícara de café? Você tem ovo? Quer experimentar o doce que eu fiz?” E pareceu-me – naquele bairro distante – que, na maturidade, retornara às minhas origens. Isso é uma graça, um privilégio. E o redescobrira na festa dos 15 anos da vizinha, que estava linda como princesa de conto de fadas.

E quem disse que a vida, em certos momentos, não é um conto de fadas? Bom dia.

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