“In Extremis” (200) – Reaprender (ou aprender) a viver

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(imagem: Ralf Kunze / Pixabay)

Por cautela, incluí-me na questão. Na verdade, porém, há cerca de quatro décadas caí fora do hospício. Entendi o grito daquela geração desesperada: “Parem o mundo que eu quero descer”. E ninguém venha me dizer que decidi por ter condições materiais de fazê-lo. Não é verdade. Aconteceu, apenas, ter havido um momento culminante em que a pergunta me dilacerou: “O que é que estou fazendo?” E a resposta veio-me do coração, lugarzinho onde está a consciência: “Suicidando-se lentamente”. Compreendi, então, estar sendo estupidamente conduzido pela cultura de massas. Eu não era eu; estava sendo eles.

Não acredito haja quem – pelo menos, em algum momento de sua existência – não se tenha perguntado, a si mesmo, a respeito da vida. De estar vivo. Do porquê ter nascido. E, mais agudamente, de suas origens e do depois. E – se ele próprio não encontrar respostas – sempre haverá quem tenha a pretensão de respondê-las. De qualquer maneira, viver é a experiência essencial de cada um de nós. E impressionantemente desafiadora. Porque   pessoal, intransmissível. Ninguém vive minha vida. Nem eu posso viver a do outro. O máximo possível está em dar sugestões. Ou o atrevimento de testemunhar, talvez como modelo, sua vivência pessoal. Mas quem ouve? Quem abre mão de viver a sua própria primeira vez?

Viver vive-se vivendo. Não há outro caminho. No entanto, através dos milênios, o ser humano vive para sobreviver. E como isso é difícil! Quanta complicação! Quantas tolices e inutilidades! E os artificialismos que inventamos como se fossem necessidades essenciais? E as farsas que, de tanto serem repetidas, se transmudam em falsas verdades? E as sociedades que inventamos como se fossem construções justas mas que expulsam os pequeninos? E a comida que jogamos fora quando milhões gemem de fome? Como coexistir se não reconhecermos a dignidade do outro?

Falamos apenas em cristianismo como modelo de vida. No entanto, antes de Cristo, já se revelara a regra de ouro: “Não fazer ao outro o que não quer que seja feito para você”. Apenas isso. E tudo isso. No entanto, simples demais para ser entendido por quem busca inventar fórmulas políticas, econômicas, religiosas. É o “viver e deixar viver”. Mas sabemos, ainda, viver? E a Vida, como a entendemos: bênção ou castigo? Se não estabelecermos entendimentos sobre o essencial, continuaremos vagando como fantasmas que pouco mais são do que imagens, imaginações. E definitivamente trágico será se continuarmos apenas fingindo-se o que não somos.

Cada transformação do mundo exige que nos transformemos também. E o irônico – ou apenas triste – de tudo isso é que, por fim, acabamos dando razão ao personagem de “O Leopardo”, de Tomasi di Lampedusa: “É preciso mudar para continuar tudo igual.” Mas não seria, esta, a incrível descoberta? Ou, apenas, aceitar sermos humanos, essa ínfima porção da deslumbrante essência da natureza. Sou parte. Nada mais do que isso. Logo, é pretensão ou ignorância acreditar seja, o homem, o rei da natureza. Tal idiotice levou o falso ser a depredar o mundo conforme sua egoística vontade.

Nesse mundo novo – admirável mas, também, assustador – o desafio está, apenas, num dilema: reaprender a viver ou aprender. De qualquer maneira, isso significa uma revolução interior, no íntimo de nós mesmos, uma profunda opção por outra vida mais sábia e decente. Sim, decente. Pois é indecente sermos participantes de uma sociedade em que apenas 10 pessoas detém um terço das riquezas de um país, enquanto 33 milhões estão na miséria. Passar fome no Brasil?

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