In Extremis (70) – “Terrivelmente evangélico”

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(imagem de Clker-Free-Vector-Images, por Pixabay)

Uma das delícias de se chegar aos 80 anos – pelo menos, em minha experiência – está em brincar de “enganei o bobo na casca do ovo”. Pois, como se sabe, o bobo come a casca e o outro come o ovo. É divertidíssimo. Naturalmente, trata-se de aceitação da vida. Ora, ela é como é e não como eu gostaria que fosse. Essa lição comecei a aprendê-la há umas três ou quatro décadas, lendo o Mestre Eckhart. O simplismo é tão compreensível que parece beirar o absurdo. A vida não tem porquês. “A flor floresce porque floresce”. Apenas isso. O ser humano vive por estar vivo.

Viver, porém, é uma arte. E envelhecer, outra ainda mais sofisticada. Envelhecer é a arte de aceitar, de sonhar sonhos possíveis, arte de conciliar, de ser paciente, de compreender o que parece incompreensível. E, também, arte de interpretar. Como num teatro. Ora, aos 80 anos, sou pouco ator, mas continuo personagem. De qualquer maneira, pois, participante dessa peça que se vai tornando, a cada dia, tragicomédia de péssimo enredo.

Muitos, eu sei, já me consideram ultrapassado, superado. E é verdade. Pois, ao longo de toda a vida, fui superado e ultrapassado, já que sempre me recusei a participar da correria desenfreada, de manada que desembesta ao sabor de cada ventania. Não tive tempo de pensar no futuro, tal intensa a luta para viver cada momento do presente, cada cena de uma história nem sempre bela. Tornei-me jornalista e jornalista é aquele que narra, interpreta, pensa a jornada, o “giorno”, “le jour”. Isso significa ser observador até o último suspiro. Jornalista não se aposenta.

E mais: jornalista não perde a capacidade de indignação! Lembro-me do que me dizia aquele meu pai espiritual, o bispo Aníger Melilo: “Ai do cão de guarda que não ladra!” É a sua missão. E o seu silêncio, a sua quietude os que as querem são apenas os assaltantes da comunidade. Mas eis a angústia, o desconforto, a perplexidade: comunidade, o que é, em que se transformou? E a nação brasileira, com essa mudez acovardada e – pior ainda! – mudez da conivência, da cumplicidade, da indiferença, de uma assustadora cegueira diante de tão brutais ameaças?

Cadê a juventude indignada, cadê as mulheres que sempre impulsionaram seus homens a enfrentar os assaltantes, cadê os sábios que conhecem a história e estão vendo-a repetir-se como tragédia? O Brasil está sendo destruído, não há mais o que esperar, o que discutir. A democracia brasileira tornou-se uma farsa, domínio de alguns sobre muitos. Ora, que disparate mais deslavado e que agressão mais aberta à democracia neste país – do que a vergonhosa pretensão de um homem, presidindo a República, de indicar, para outras vagas futuras à Suprema Corte, um juiz “terrivelmente evangélico”?

O Brasil levou 400 anos para desvencilhar-se do vergonhoso conúbio entre Igreja e Estado. O Ocidente precisou do Iluminismo para romper o cordão umbilical da sociedade civil com a religião. Mas a democracia não está e nunca esteve consolidada. É um ser vivo, pulsante, aquela “plantinha tenra” – como dizia o grande Mangabeira – “que precisa ser adubada constantemente”. O atual ocupante da presidência da República não se cansa de revelar seu desrespeito aos sagrados valores da liberdade, como direito e como dom. A nação, para ele, resume-se à visão de “famiglia”, de grupo. O mundo assusta-se com a passividade do Brasil diante do descalabro, a indiferença diante de crimes já caracterizados como de “lesa pátria”. Ou de “lesa humanidade”.

Cristo pediu, ao Pai, perdoasse seus algozes por eles não saberem o que faziam. No caso brasileiro, não há perdão. Eles sabem, sim, o que fazem. E o silêncio já é de cemitério. Nós comemos a casca, eles comem o ovo.

Para acompanhar outras crônicas desta série, acesse a TAG “In Extremis”.

1 comentário

  1. JAIRO TEIXEIRA MENDES ABRAHAO em 11/10/2020 às 14:42

    Cecílio, amigo querido!
    Costumo dizer que gosto muito de escrever. E que gosto do que escrevo. Mas, ao ler textos seus como este reluto em divulgar os meus! Parabéns! Você diz o que eu gostaria de dizer!
    Um puta abraço!

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