A descoberta da morte

 Viver vive-se vivendo (4)

Foto: Elise/Olhares

Amo Piracicaba também por ter-me acontecido aqui a ressurreição de minha primeira morte.

Não sei o que significava para as outras pessoas, mas, para mim e nos meus cinco anos, Piracicaba era o Paraíso, Jardim das Delícias. Sempre foi. E, nas ruas e quintais e jardins, eu me via solto, pés e dorso nus, livre como um animalzinho ou como livre foi o primeiro homem na aurora da Criação. Mangueiras, jabuticabeiras, goiabeiras – as árvores pareciam abençoar as ruas. Tempos de inocência e de deslumbramento…

Os taxistas eram chamados de “motoristas de praça”. Havia um ponto de “carro de praça” ao lado do café de meu pai, naquela esquina da Igreja Matriz de Santo Antônio. Os motoristas eram meus amigos. E, quando as moças e senhoras passavam pelas calçadas, eles me ensinavam a tirar o pipiuzinho para fora do calção, mostrando-o ao seleto público feminino, dizendo com seriedade: “tá aqui a saúde da muié.”

Antes, porém, de eu executar a lição que me haviam ensinado, eles saíam correndo, indo-se esconder, deixando-me sozinho com minha audácia machista. Vendo-me, cada mulher xingava: “criança sem-vergonha, onde aprendeu isso?” Na verdade, aprendi nas ruas, naquela rua bendita. E, muitos anos depois, jovenzinho e estudando em São Paulo, ouvi de uma cozinheira da pensão de estudantes – negra, gorda, risonha – a explicação do porquê de ela engravidar tão seguidamente, quase que um filho por ano: “Ter filho é ter saúde.” Havia, pois, alguma razão naqueles taxistas que me ensinavam estar, no pipiuzinho dos meus cinco anos, pelo menos algum indício ou profecia dessa “saúde da mulher”. Não sei. Mas, ao longo da vida, tive cinco filhos…

Era o Paraíso, o Éden, Jardim das Delícias, minha terra… Ir com meu pai ao Clube de Regatas, aprender a nadar nas águas do rio, ver Nhô Lica catando pedras, subir o picadão da rua Moraes Barros, apanhar manga verde das árvores imensas, grávidas, aprendendo a lição de meu pai: “Cuidado, não tome leite. Manga verde com leite mata.”

Mas eu sabia ser impossível morrer. Como morrer tendo meu pai ao lado? Como morrer, se as ruas eram meu berço, e havia uma sinfonia que tornava todas as coisas imortais: o som do bonde nos trilhos, o barulho dos cascos de cavalos nas ruas cobertas de paralelepípedos, as carroças que disputavam espaços com os carros, homens e mulheres cantando em procissões, seresteiros nas madrugadas…?

Descobri a existência da morte quando passamos a morar na rua São José, ao lado do Hotel Lago, onde, nestes primeiros anos do século 21, está a garagem subterrânea do desaparecido Edifício Luiz de Queiroz, o Comurba. A casa era pequenina, meus pais haviam empobrecido ainda mais. Mas as ruas continuavam paradisíacas. Se o seo Pink não mais fazia parte de meu cotidiano, surgira Dona Rosa, dona do hotel, mulher perfumada, vestido decotado, lábios e faces vermelhas de ruge e batom.

O Hotel Lago era misterioso: à noite, eu via sombras de homens e de mulheres que entravam às escondidas. E ouvia sussurros. E, na manhã seguinte – com Cidinha, com o meu inesquecível Zezo, amiguinho negro – íamos colher, no corredor do hotel e sob as janelas, aquelas estranhas bexigas de plástico. Moacir Boquinha – empregado de meu pai – arrancava- as de nossas mãos, dizendo palavras ainda mais misteriosas: “camisinhas-de-Vênus”. No Hotel Lago, sabíamos existir um outro mundo, ainda estranho e desconhecido, mas que nos parecia fascinante.

Quando morreu minha irmãzinha Carol, confesso que não entendi. Essa é uma tragédia sobre a qual preciso ainda meditar, encontrar coisas escondidas no baú da alma. Mas, hoje, eu sei do dia exato em que a morte – com sua dimensão assustadora — apareceu em minha vida: 8 de agosto de 1945. Precisei tornar-me adulto, para compreender o que acontecera naquela tarde. As pessoas diziam que o mundo iria acabar, que os Estados Unidos lançariam outra bomba, não mais em Hiroshima, agora em Nagazáki. Era a bomba anunciada, a morte declarada. Tive medo. Não quis acreditar houvesse a morte. Se me era tão bela a vida no Paraíso, na minha cidade feita de jardins, como poderia acabar-se toda a maravilha…

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