Erros e equívocos

Foto: Mar de Sonhos/Olhares

Foto: Mar de Sonhos/Olhares

Viver vive-se vivendo (26)

Vi-me, enfim, diante do tempo como aceitação, talvez entendimento. Não é ele que passa, mas eu que passo por ele ou que, nele, fico. O espaço de cada um é aquilo que se escolhe. Ou, sem a possibilidade da escolha, a prisão. O tempo, no entanto, está na minha carne, independe de mim, não posso escolhê-lo. Sou, pois, beneficiário ou vítima dele.

No início da infância de minha solidão, entristeci-me, vi-me uma simples vítima: cabelos embranquecendo, pernas enfraquecendo. E, na pele das mãos, indícios de pergaminho. Mas, quando a solidão chegou à adolescência e, em seguida à maturidade, admiti a outra possibilidade: o tempo me enriquecera, mesmo que eu não soubesse disso. Cãs, mãos de pergaminho, pernas cansadas, varizes são marcas de caminhadas. O tempo, antes de um castigo, pode ser um prêmio. Na solidão, pode-se pensar nisso. O tempo não foi minha prisão. Tenho a pretensão de estar aprendendo a aprender com ele.

Há magias de que nos afastamos, por tolice ou por medo. Sonhamos com viver contos de fadas, mas dizemos não acreditar nelas. Sonhamos sem acreditar. Pensando e pensando, nesse meu mais fundo da solidão, fico buscando entender a magia das palavras. O que são erros, o que são equívocos? Pensar nisso, talvez seja encontrar explicações. Errei ou equivoquei-me? O tempo me ensina que há diferenças essenciais entre equívoco e erro. O erro é uma escolha: eu sempre erro ao fazer a opção que minha consciência repele. O equívoco, no entanto, é mais sutil. Acredito naquela verdade, mas ela não é verdadeira. Na boa fé, o equívoco me induz ao erro. Erro é má fé; equívoco é a boa fé complicada.

O amor é feito de magia. Mas, também, de erros e de equívocos. Nesta minha solidão de espectador culpado, fico refletindo sobre amores vividos, amores que se vivem, amor que vivo. Angustio-me. O tempo parece igual ao vento: não se sabe de onde vem, para onde vai. Tempo e vento existem, deixam marcas, ensinam, cada qual à sua maneira. E não aprendemos. O amor é a mais verdadeira realidade da vida. O tempo anuncia o amor; o vento espalha-o. Há anúncios e esbanjamentos de amor em todos os espaços, um cio universal. Desgraçamente, no entanto, vamos vivendo erros e equívocos de amor. Neste início de século, estamos amando erradamente, querendo vencer o tempo, amando na velocidade do vento. E, antes desse amor errado, vivemos o amor equivocado. Deste, nasce aquele.

Meu referencial sou eu mesmo, a realidade que vivi. Pode ser um equívoco, mas não é um erro. Amar, para a minha geração, era carne e conseqüência dela. O amor tinha idade, tinha um tempo. Ou era um vento de Primavera, espalhando pólen. O amor era hormonal. Não era um erro, mas uma verdade incompleta em que se acreditava. Logo, um equívoco. O amor hormonal morre. Minha geração é a de homens e mulheres de amores mortos, mantidos num formol de conveniências ou de covardias. Há hormônios demais nas pessoas de 20 anos para que elas possam entender de solidariedade. Com 20 anos, queremos vencer e provar coisas, realidade de um tempo e de algum vento. O amor, no entanto, é compassivo, solidário. O amor, como a vida, são apenas perdas. Perder-me de mim, eis o que acabei descobrindo. Viver é, realmente, ir-se.

Neste início de século, no entanto, o erro parece dominar as pessoas. E tenho medo de que domine meus netos. Amar, agora, é de uma racionalidade assustadora e, assim, uma escolha. E a escolha tem sido pelo não-compromisso, pelo vencer, pelo usar. Escolhe-se o vento que passa. Foge-se do tempo, que é e que marca. O vento é volúvel, caótico. O tempo, porém, é paciencioso, harmônico. Dessa minha solidão, vejo o caos. O pergaminho de minhas mãos é um mapa de rugas a que apenas a mim me orienta. O amor nada tem a ver com o vento: tem a dimensão do tempo. É esse, no entanto e talvez, o destino do ser humano: viver de seus equívocos, aprender no erro. Ninguém transmite nada a ninguém. Viver é, mesmo, uma experiência pessoal. Não haverá, no entanto, qualquer descoberta se não houver solidão. É esse, antes de encerrar-se a primeira década de um novo milênio, o caos que me angustia: há ruídos demais. O vento sopra muito forte. E oculta o tempo, que ensina. A tragédia, parece-me, é que as pessoas estão errando demais e equivocando-se menos. No erro, escolhe-se. No equívoco, é-se levado.

Amarguro-me diante desses tantos amores errados. O vento sempre engana. Enganei-me ao longo da vida. Agora, nada mais posso fazer. A não ser viver o que aprendi. Viver vive-se vivendo. Logo, não adianta transmitir. Conta-se por contar. (Ilustração: Araken Martins.)

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