Mariazinha Gonzaga, meu amor

VIVER VIVE-SE VIVENDO (34)

Quando lá se nos vai chegando a sabedoria, não há mais que se dizer seja cruel a vida. A vida são bênçãos, aventura, viagem e estada apaixonantes por surpresas, imprevisíveis, acidentes. Ora, apenas a vida poderia permitir que, tantos e tantos anos depois, Mariazinha e eu nos encontrássemos no batizado de nossos netos. Quantos anos depois? O nosso querido Padre Jorge – e, ainda agora, me recuso a chamá-lo de Monsenhor – batizou-nos os netos. Olhei Mariazinha nos olhos, a avó Mariazinha, e a vi, ainda, tão bela quanto na sua meninice. Pois amei Mariazinha em sua meninice. E, até hoje, não sei se ela me amou.

Escrevo coisas do fundo do meu baú neste ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 2008. Já é quase dezembro, Natal se aproxima. E continuo surpreendendo-me com a vida, com as coisas, com os ventos que sopram e aos quais damos o nome de Tempo. Não há Tempo. Há Ventos.

Aconteceu-me, a surpresa, ao receber, nesses ventos outonais, a visita por assim dizer acidental de um dos filhos de Bento Dias Gonzaga, um dos mais competentes e populistas políticos piracicabanos, filho de Luiz Dias Gonzaga e de dona Arminda. Ora, o moço, que me visitou – por, para mim, felizes momentos em minha varanda – não é apenas filho do Bentão, deputado dos mais famosos e celebrados. Nem é apenas neto de Luiz Dias Gonzaga e de dona Arminda. Ele é sobrinho de Mariazinha. Pois Mariazinha foi filha de Luiz Dias Gonzaga e de dona Arminda, irmã de Bentão. E foi meu amor. Na verdade, sei lá, eu, se não continua sendo. Pois não amo pessoas. Como Agostinho, o de Hipona, acho que, antes de amar pessoas, amo o amor.

Foi em 1952. Eu tinha exuberantes e tristes 12 anos. Bentão, irmão de Mariazinha, era amigo pessoal e íntimo do namorado de minha irmã Marlene, Rogério, que se tornaria seu marido e, portanto, meu cunhado. Mariazinha – irmã de Bentão e filha de Luiz e Arminda Dias Gonzaga – era a menina intocável da cidade, mas tida e havida como petulante, rebelde e independente. Era aluna do Colégio Assunção, o que implicava severidade, moralidade, cativeiros. Mas Mariazinha – linda como um raio de sol, sobrancelhas negras que permitiam supor paixões apenas controladas – se recusava a acompanhar as aulas das freiras. E, de minha parte, meu professores me consideram aluno de tal forma talentoso que poderia acompanhar o estudo de outros coleguinhas. E fui, acho que por Rogério e a pedido do Bentão, escolhido para acompanhar Mariazinha em suas lições de casa.

Não consigo esquecer-me de tudo aquilo, especialmente de Mariazinha, a quem cumprimentei tímida e assepticamente no batizado de nossos netos. A casa é aquele solar miseravelmente abandonado, até recentemente – ainda neste 2008 – na rua Alferes José Caetano, esquina, em diagonal ao que foi o Externato São José. A sala de estudos era envidraçada, pequenina, dando para o jardim.Dona Arminda ficava de plantão e de prontidão, enquanto Mariazinha – com ódio nos olhos – ia recitando, para que eu ouvisse, lições de Latim, de Português, de História, de Francês. E meu olhos vagavam, de dona Arminda para Mariazinha, o coração acelerado quando o Velho Coronel, Luiz Gonzaga, aparecia para verificar, averiguar, fiscalizar tudo. O apelido dele era O Boi. E seu olhar sobre nós era bovino. Manso mas atento.

Aos 12 anos, amei Mariazinha com a pureza de coração como, talvez, Tristão amou Isolda, o amor impossível. Foi o amor pleno, perfeito, sem desejo, amor idealizado, o referencial – sinto-o hoje e agora, quando a caminhada chega ao fim – que me permitiu bendizer a graça de viver o mais profundo de minha humanidade. Não desejei Mariazinha, não quis tê-la, possuí-la, amá-la carnalmente. Eu a amei tanto que me bastou protegê-la, cuidar dela, ser seu cúmplice num tempo em que, rebelde e passional, ela – por querer – pensava poder vencer toda a saga heróica da aristocracia rural criada, vivida e mantida pela família Dias Gonzaga.

Quando, tantos anos depois, nossos netos – o de Mariazinha, o meu – foram batizados pelo Padre Jorge, tive consciência de que eu a amei do mais fundo a alma, mas sem carne e sem desejo. E outra consciência: Mariazinha, rebelde e aristocrata, nem soube do que aconteceu. No entanto, em minha varanda, o sobrinho dela – filho de Bentão, neto de Luiz Gonzaga, O Boi – não ouviu de mim o contar misterioso desse mistério. São tempos, hoje, em que histórias de Mil e Uma Noites parecem tolices. E, por Mariazinha, o meu amor foi de eternidade. Com começo e sem fim. E, também, sem meio, sem ter acontecido. Sonho é isso.

1 comentário

  1. Vera Cecilia Malheiro Figueiredo em 04/11/2015 às 19:49

    Lembrei da Mariaziha,, gostei da matéria,
    Vera Cecilia Malheiro

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