Madalena nada arrependida

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A eleição de Madalena (nascida como Luis Antonio Leite), em 2012, para a Câmara de Vereadores de Piracicaba, prometia sensação. Logo após sua vitória, com 3035 votos pelo PSDB, Madalena tomou as primeiras páginas dos jornais. Mostrava a escolha das roupas com que iria comparecer à Câmara, unindo sóbrios ternos ao clássico turbante.

Madalena já foi várias vezes retratada por A Província. Na primeira vez, ainda nos tempos do jornal impresso, em 1988, estampou a capa sem camisa sob o título Nua e Crua. Assumia a sexualidade, num tempo em que parecia apenas uma pessoa divertida. Aqui ela aparece numa entrevista de 2005, em que se declarava bem mais madura. Pena que a carreira política durou pouco frustrante, por conta de um afastamento provocado por problemas de saúde. Continua o tratamento de saúde e não perde a esperança.

O que você quer fazer na Câmara de Vereadores?

A primeira coisa seria ver esse problema das crianças usando drogas. Os menores já andam armados, são presos, no outro dia soltam e eles voltam a roubar. Eu penso que seria bom ter uma casa que acolhesse eles, uma chácara em que aprendessem a plantar. Depois penso nos idosos que dormem na praça por falta de condições.

Mas você não faria nada pelos gays?

Claro que sim. Quando eu converso com as bonecas, elas reclamam que são perseguidas. Elas não podem ficar na Benjamin, na Governador, nem no escadão da Independência. Não sei porque não criam um ponto para elas. Eu nunca fiz avenida, mas não tenho nada contra quem faz. Se tem movimento, é porque tem quem gosta, né?

As travestis reclamam que sofrem violência?

Ainda tem muita violência, elas levam ovo, pedra. Tem duas colegas minhas que já levaram tiro.

Ainda existe muito preconceito contra elas?

Nossa, e como!

E contra você?

Pra mim aconteceu mais quando eu era pequeno, mas eu não tava nem aí. Levantei a cabeça, enfrentei tudo, não me escondi de nada. Hoje todo mundo me respeita.

Você já se casou alguma vez?

Já tive tanto maridinho, mas nunca durou muito! Caso sério só tive com um rapaz com quem fiquei uns três anos, no tempo que ainda morava no Bairro Alto.

Você tem medo de aids?

Olha, desde que começaram a falar dessa doença eu fiz questão de camisinha. No começo os gays é que levaram a culpa, ficava todo mundo chamando de peste gay. Mas Deus foi grande e mostrou que isso era uma injustiça. Os gays se cuidaram bem mais. Hoje tem mais doença em quem não é gay.

Como você está de amor ultimamente?

Estou com um namoradinho, um rapaz novo. Mas ele não mora comigo, ele nem passa em casa toda noite.

E essa história de que o gay quase sempre sustenta os namorados?

Ah, isso não é verdade, eu mesmo nunca sustentei homem. É claro que de vez em quando eu tenho vontade de dar presente, comprar uma camisa, uma calça. Então compro, qual é o problema? Todo mundo, gay ou não, tem vontade disso.

Tem gente que diz que gay não é feliz no amor. O que acha disso?

Às vezes acho que os gays são mais felizes que as mulheres porque a gente não esquenta tanto. Em matéria de homem, são as mulheres que pedem conselho para a gente e não o contrário.

Você já sofreu alguma violência explícita por ser gay?

Uma vez na Governador, eu estava andando como eu era, mais atirado, mexendo com todo mundo, gritando “Motorista!”, daquele jeito. Aí uns guardinhas novos vieram na violência, gritando comigo. Me mandaram calar a boca, botar a mão na parede, e queriam me levar pra baixo. Sorte que apareceu o capitão, chefe deles, e falou que não precisava fazer aquilo, que ninguém ia botar a mão em mim.

É verdade que você teve um arranca-rabo com a Rogéria quando ela veio fazer show na cidade?

Ela ficou mordida comigo. Ela foi passear na praça, eu tava lá e o povo me avisou ‘Madalena, olha a Rogéria’. Mas aí alguém falou ‘nossa, num sabia que a Rogéria era uma bicha tão velha e feia’. Pra que, menino! Ela pensou que fui eu e começou a falar um monte. À noite fui ver o show, mas na porta tava cheio de segurança pra não me deixar entrar. Esperei depois, na saída do teatro, pra me explicar, mas ela veio pra cima. Se o pessoal não segurasse, a gente tinha saído no tapa.

E por falar nisso, há muita rivalidade entre os gays?

São todas unidas, mas cada uma com seu namoradinho. Se uma olhar pro namoradinho da outra, sai briga, claro.

Seus namorados também podem namorar mulher?

Claro que pode, eu permito, nem ligo, porque não vou disputar, são coisas diferentes. Mas se eu souber que se engraçou com outra bicha, o tempo esquenta.

Você sente que hoje os homossexuais estão aumentando e ficando mais atirados?

Sinto. Eu não vou muito, mas outro dia fui num baile de bonecas e tava cheio de bichinha nova que eu nunca tinha visto. Conheci muito moleque novo, tá aumentando muito, e elas são mais atiradas. Também tá aumentando a quantidade de moça que resolve virar sapatão, elas falam que tão cansadas de sofrer por causa de homem. Garoto de programa também, eles dizem que não encontram emprego.

Hoje em dia os gays estão se mostrando mais, até na novela das oito tem beijo gay. Acha isso legal?

Eu gosto muito de novela, mas nunca gosto quando tem gay na novela. Acho que fica chato, fica do jeito que eles acham que a gente é.

O que você diria se uma mãe lhe procurasse por que está desconfiada de que o filho é gay?

Ah, isso já aconteceu várias vezes! Eu falo para ela não se afobar, não assustar antes do tempo, esperar ele pegar uma idade para ver para qual lado ele vai. No meu caso, quando eu tinha sete anos, meu pai já falava pra minha mãe, ‘esse menino é esquisito’. Mas nem todo mundo é igual. O que eu sempre faço questão de falar pras mães é que elas têm de dar carinho, apoiar, não bater, porque isso só revolta.

E o que acha desses tratamentos que dizem recuperar gays?

Ih, isso é a maior perda de tempo que existe. Quando se começa, não se volta mais, esse negócio de recuperar é mentira, é enganação.

Como é sua relação com a família?

É ótima. Tenho dois irmãos, me dou bem com eles, eles não gostam que eu fique sozinho, se preocupam comigo. Minha irmã, a Fátima, tem dois filhos e eu não gosto que eles me chamem de Madalena. Pra eles eu sou tio Luís Antônio. Acho que a gente não pode misturar as coisas.

Como Piracicaba trata você?

Trata muito bem, não tenho do que reclamar. Eu já estou no sétimo mandato (em 2005)como presidente do Jardim Boa Esperança, desde o tempo em que fui morar lá. Brigo mesmo com os vereadores para melhoria no bairro e eles me respeitam.

Você sentiu a crise dos 50 anos?

Pra mim não mudou nada. Só espero que Deus me dê saúde para eu brigar pelo povo do Boa Esperança, do Javari, do Monte Rey. O bairro é muito carente, precisa de muita coisa, a escola é pequena, com tudo quebrado. Faço sempre reunião com os moradores. Eu sei que político só aparece mesmo em época de eleição, né?

E você se arrepende de alguma coisa?

Imagina, fiz tudo o que quis do jeito que quis!

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