Madalena na idade da razão

No último dia 7 de outubro, Madalena foi eleita vereadora de Piracicaba, com 3.035 votos. Mas seu interesse e atuação política vem de muito antes. É o que mostra esta entrevista feita por Ronaldo Victoria –  então editor de A Província Online -, publicada neste jornal eletrônico em 2006.

Publicamos abaixo alguns trechos da entrevista, preservando as datas e informações nela contidas:

Existe alguém em Piracicaba que não conheça a Madalena? Difícil. Desde que Luís Antonio Leite (esse é seu nome de batismo) assumiu sua persona feminina, espalhou a novidade pelos quatro cantos da cidade. “Motorista!”, gritava pela rua mexendo com homens de todas as idades. E para isso nunca precisou de muitos artifícios, nada além de uma sandália nos pés e um lenço na cabeça. Hoje, embora garanta que passou batida pela crise dos 50 anos, Madalena parece mais contida. Entra no trabalho, as cinco da manhã, por isso quase não sai à noite. Quando sai, admite que chega a se assustar com os modos atirados dos “moleques novos” que saem do armário. Do que tem orgulho mesmo é de ser líder da comunidade do afastado bairro Boa Esperança. Só lamenta não ter conseguido uma vaga na Câmara dos Vereadores, e conta que pensa em projetos primeiro para as crianças e os idosos. No mais, Madalena mostra a doce vingança de ter fugido de seu destino. Afinal, negro, pobre, homossexual desde que se entende por gente, teria tudo para conhecer a tristeza. “Mas levantei a cabeça, enfrentei tudo, não me escondi de nada”, como afirma. “Fiz tudo o que quis, do jeito que quis”. Se nunca foi santa, a Madalena jamais será uma arrependida. Acompanhe trechos da entrevista exclusiva para A PROVÍNCIA.

A PROVÍNCIA – Você prefere o tratamento no masculino ou no feminino?

Madalena – Tanto faz, fica a gosto de cada um. Em Piracicaba é mais Madalena mesmo porque Luís Antonio Leite, meu nome de batismo, ninguém conhece.

P – E a Madalena ainda quer ser vereadora?

R – Eu fiquei primeiro suplente, qualquer coisa que acontecer eu entro. Foi a segunda vez que disputei. Na primeira, em 93, pelo PPS, tive uns mil votos. Agora, pelo PSDB, tive 1630 votos. Só não me elegi porque a cidade passou de 21 para 16 vereadores.

P- O que você faria na Câmara de Vereadores?

R- A primeira coisa seria ver esse problema das crianças usando drogas. Os menores já andam armados, são presos, no outro dia soltam e eles voltam a roubar. Eu penso que seria bom ter uma casa que acolhesse eles, uma chácara em que aprendessem a plantar. Depois penso nos idosos que dormem na praça por falta de condições.

P – Mas você não faria nada pelos gays?

R – Claro que sim. Quando eu converso com as bonecas, elas reclamam que são perseguidas. Elas não podem ficar na Benjamin, na Governador, nem no escadão da Independência. Não sei porque não criam um ponto para elas. Eu nunca fiz avenida, mas não tenho nada contra quem faz. Se tem movimento, é porque tem quem gosta, né?

P – Os travestis reclamam que sofrem violência?

R- Ainda tem muita violência, elas levam ovo, pedra. Tem duas colegas minhas que já levaram tiro.

P – Ainda existe muito preconceito contra eles?

R- Nossa, e como!

P – E contra você?

R- Pra mim aconteceu mais quando eu era pequeno, mas eu não tava nem aí. Levantei a cabeça, enfrentei tudo, não me escondi de nada. Hoje todo mundo me respeita.

P- Você já se casou alguma vez?

R – Já tive tanto maridinho, mas nunca durou muito! Caso sério só tive com um rapaz com quem fiquei uns três anos, no tempo que ainda morava no Bairro Alto.

P- Você tem medo de Aids?

R- Olha, desde que começaram a falar dessa doença eu fiz questão de camisinha. No começo os gays é que levaram a culpa, ficava todo mundo chamando de peste gay. Mas Deus foi grande e mostrou que isso era uma injustiça. Os gays se cuidaram bem mais. Hoje tem mais doença em quem não é gay.

P- Você conhece muita gente que tem a doença?

R – Eu vou sempre na casa de uma colega minha, a Beia, onde tem muita gente assim. Faço questão de dar força. A Beia dá apoio mas sempre diz que eles não podem deixar de usar camisinha.

P- Como você está de amor ultimamente?

R – Estou com um namoradinho, um rapaz novo. Mas ele não mora comigo, ele nem passa em casa toda noite.

P – E essa história de que o gay quase sempre sustenta os namorados?

R – Ah, isso não é verdade, eu mesmo nunca sustentei homem. É claro que de vez em quando eu tenho vontade de dar presente, comprar uma camisa, uma calça. Então compro, qual é o problema? Todo mundo, gay ou não, tem vontade disso.

P- Tem gente que diz que gay não é feliz no amor. O que acha disso?

R – Às vezes acho que os gays são mais felizes que as mulheres porque a gente não esquenta tanto. Em matéria de homem, são as mulheres que pedem conselho para a gente e não o contrário.

P – Você já sofreu alguma violência explícita por ser gay?

R – Uma vez na Governador, eu estava andando como eu era, mais atirado, mexendo com todo mundo, gritando “Motorista!”, daquele jeito. Aí uns guardinhas novos vieram na violência, gritando comigo. Me mandaram calar a boca, botar a mão na parede, e queriam me levar pra baixo. Sorte que apareceu o capitão, chefe deles, e falou que não precisava fazer aquilo, que ninguém ia botar a mão em mim.

P – É verdade que você teve um arranca-rabo com a Rogéria quando ela veio fazer show na cidade?

R – Ela ficou mordida comigo. Ela foi passear na praça, eu tava lá e o povo me avisou ‘Madalena, olha a Rogéria’. Mas aí alguém falou ‘nossa, num sabia que a Rogéria era uma bicha tão velha e feia’. Pra que, menino! Ela pensou que fui eu e começou a falar um monte. À noite fui ver o show, mas na porta tava cheio de segurança pra não me deixar entrar. Esperei depois, na saída do teatro, pra me explicar, mas ela veio pra cima. Se o pessoal não segurasse, a gente tinha saído no tapa.

P- E por falar nisso, há muita rivalidade entre os gays?

R – São todas unidas, mas cada uma com seu namoradinho. Se uma olhar pro namoradinho da outra, sai briga, claro.

P – Seus namorados também podem namorar mulher?

R – Claro que pode, eu permito, nem ligo, porque não vou disputar, são coisas diferentes. Mas se eu souber que se engraçou com outra bicha, o tempo esquenta.

P – Você sente que hoje os homossexuais estão aumentando e ficando mais atirados?

R – Sinto. Eu não vou muito, mas outro dia fui num baile de bonecas e tava cheio de bichinha nova que eu nunca tinha visto. Conheci muito moleque novo, tá aumentando muito, e elas são mais atiradas. Também tá aumentando a quantidade de moça que resolve virar sapatão, elas falam que tão cansadas de sofrer por causa de homem. Garoto de programa também, eles dizem que não encontram emprego.

P – Hoje em dia os gays estão se mostrando mais, até na novela das oito tem beijo gay. Acha isso legal?

R – Eu gosto muito de novela, mas nunca gosto quando tem gay na novela. Acho que fica chato, fica do jeito que eles acham que a gente é.

P – O que você diria se uma mãe lhe procurasse por que está desconfiada de que o filho é gay?

R – Ah, isso já aconteceu várias vezes! Eu falo para ela não se afobar, não assustar antes do tempo, esperar ele pegar uma idade para ver para qual lado ele vai. No meu caso, quando eu tinha sete anos, meu pai já falava pra minha mãe, ‘esse menino é esquisito’. Mas nem todo mundo é igual. O que eu sempre faço questão de falar pras mães é que elas têm de dar carinho, apoiar, não bater, porque isso só revolta.

P – E o que acha desses tratamentos que dizem recuperar gays?

R- Ih, isso é a maior perda de tempo que existe. Quando se começa, não se volta mais, esse negócio de recuperar é mentira, é enganação.

P- Como é sua relação com a família?

R – É ótima. Tenho dois irmãos, me dou bem com eles, eles não gostam que eu fique sozinho, se preocupam comigo. Minha irmã, a Fátima, tem dois filhos e eu não gosto que eles me chamem de Madalena. Pra eles eu sou tio Luís Antônio. Acho que a gente não pode misturar as coisas.

P- Como Piracicaba trata você?

R – Trata muito bem, não tenho do que reclamar. Eu já estou no sétimo mandato (em 2005)como presidente do Jardim Boa Esperança, desde o tempo em que fui morar lá. Brigo mesmo com os vereadores para melhoria no bairro e eles me respeitam.

P- Você sentiu a crise dos 50 anos?

R – Pra mim não mudou nada. Só espero que Deus me dê saúde para eu brigar pelo povo do Boa Esperança, do Javari, do Monte Rey. O bairro é muito carente, precisa de muita coisa, a escola é pequena, com tudo quebrado. Faço sempre reunião com os moradores. Eu sei que político só aparece mesmo em época de eleição, né?

P- Como é o seu trabalho?

R – Eu trabalho (em 2005) como copeiro na Secretaria da Educação, entro às cinco e quinze da manhã. Levanto quando ainda tá escuro e pego o ônibus no Terminal as dez pras cinco. Não tenho mais tempo pra sair. Sempre trabalhei como doméstico, sou uma dona-de-casa de mão cheia, sei fazer de tudo numa casa. Por causa do trabalho, fiquei um tempo fora de Piracicaba em casa de patroa, mas sinto falta da cidade, aqui é meu lugar.

P – E você se arrepende de alguma coisa?

R – Imagina, fiz tudo o que quis do jeito que quis!

*Ronaldo Victoria foi editor de A Província. A republicação do texto é para constar dos arquivos de A Província.com.

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