No tempo do “carro de praça”

taxi antigo

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Esse texto foi publicado em outubro de 1988 no semanário impresso A Província. Recuperamos para lembrar os 30 anos de atuação em Piracicaba.

Seo Zulmiro Vitorino de Almeida, 65, sente saudade. Saudade do tempo em que via os fregueses disputando uma corrida de táxi. Foi nos anos 50, bons tempos dos motoristas de praça. Seo Zulmiro é um dos mais antigos motoristas da cidade e lembra-se do começo. Ele viajava muito. Era motorista de caminhão e transportava cana e pinga para o Paraná, trazendo madeira. Um dia, começou a trabalhar provisoriamente, com seu irmão,rlindo, no ponto de táxi que ficava próximo ao edifício Comurba, que desabou na década de 60. E não parou mais.

“A praça era boa. A praça não parava’, comenta. Segundo ele, os fregueses faziam “briga” para pegar um táxi e os mais espertos esperavam até dois quarteirões antes, porque sabiam que no ponto teriam que disputar a vez com dezenas de pessoas. “Às vezes ficávamos até uma hora sem aparecer no ponto”.

Como motorista de táxi começou com um Skoda azul, ano 1949, mas com o tempo comprou um Mercedinho (biriba), uma atração na época. Com ele, levou muitas noivas à igreja. Depois comprou Dauphine, Gordini, Aerowillis e Opala, até chegar no Chevette. Mas motorista de praça antigamente era imponente, bem alinhado. Barba feita, punhos da camisa fechados, barbatanas nos ombros, bolsos da camisa abotoados e sapatos engraxados, brilhando. Na cabeça, o tradicional boné, a marca registrada do profissional. A gravata que usavam era de plástico, para evitar que “nos enforcassem em caso de assalto” — explica seo Zulmiro, rindo.

A gentileza era imprescindível, assim como o bom atendimento. Por isso, assim que o freguês se aproximava, cumprimentava o motorista, tirava o chapéu e aguardava que a porta gentilmente fosse aberta. Para descer, o ritual se repetia. O passageiro nunca abria a porta. Esperava que o motorista o fizesse.

Taxímetro não existia. Assim, a cidade era dividida por setores. Do centro até a avenida Independência, ou uma distância equivalente a este trajeto, eram cobrados dez mil réis; passando o cemitério da Saudade a corrida subia para 15 mil réis e já no Piracicamirim o preço estipulado pela Prefeitura Municipal era de 20 mil réis.

 

Muito trabalho

As corridas eram tantas que os motoristas chegavam a trabalhar até 20 horas por dia. Resultado: tinha dia que iam fazer corridas meio sonados, como aconteceu várias vezes com Zulmiro. “De tanto sono, a gente pegava algum desvio e, quando achava que estava chegando no local solicitado pelo freguês, percebia que estava de volta à cidade. Isto acontecia muito quando íamos para Charqueada, por exemplo” — observa. As consequências caíam, sem dúvida, sobre o passageiro que acabava se atrasando para o compromisso ou perdendo o trem, como aconteceu várias vezes.

Zulmiro tem saudade mesmo do biriba, das viagens que fazia a Pirapora. “O chão do carro era de tábua, o que permitia a entrada da poeira, já que as estradas eram de terra. “Quando as pessoas saíam, deixavam a marca do corpo no banco do carro”, conta. Muitos, segundo Arlindo, levavam um pano para bater nas costas dos fregueses e tirar a poeira”.

Isso quando não chovia. “Muitos passageiros tiveram que descer e empurrar o carro e empurrar, principalmente nos arrabaldes. Se quisesse chegar, tinha que ajudar”, lembra. De Pirapora, ninguém voltava sem uma foto ao lado do carro. Era praticamente obrigatória.

Imprevistos eram constantes e já nem irritavam os passageiros. Arlindo foi fazer uma corrida até Santa Bárbara e o motor simplesmente parou no meio da rua. “E daí? O freguês foi procurar outro carro e eu perdi a viagem”.

Segurança

A segurança era total. Motorista que se sentisse muito cansado não hesitava: parava o carro em qualquer canto para tirar uma pestaninha. Um dia Arlindo acordou em frente à Catedral. Ele dormiu dentro do táxi e os companheiros empurraram o carro até a igreja.

Hoje, cerca de 30 anos depois, a situação dos taxistas é outra. Os carros estão mais equipados, em compensação as corridas diminuíiram e a segurança praticamente inexiste. Esmeraldo Antonio Cotrim, que há onze anos está na profissão, acredita que “a classe está sendo extinta”.

Antes de ser motorista ele era padeiro. Tinha freguesia própria. Mas a bronquite forçou-o a procurar outra profissão. Acabou “vendendo” a freguesia, comprou um Corcel 1970 e integrou a classe dos motoristas de praça. Hoje, já aposentado, ganha cerca de IO mil cruzados por mês. Tem que trabalhar, mas o alto custo do álcool está dificultando a sobrevivência da classe, em sua opinião.

Um outro motorista, Orlando Poletti, 67, está há vinte anos na profissão. Começou na época do Simca. Nestes anos todos, viu a morte de companheiros de trabalho. Uma que marcou muito aconteceu no bairro das Ondinhas, onde viu um companheiro estendido numa árvore, “como Cristo na cruz”. Foi há uns três anos. Aquela cena deixou-o revoltado. “Queria levar um padre lá para ver aquilo” comenta.

Ele já sentiu o que é ter uma arma apontada para a cabeça. Há dez anos, quatro moços tomaram seu táxi, pedindo uma corrida até a Vila Rezende. Antes de chegar lá, porém, anunciaram o assalto, pedindo para que tomasse o rumo de Limeira. Na estrada, Poletti “atolou” o pé no acelerador. Sua intenção era pedir socorro. Mas os moços ameaçavam atirar. “A gente fica nervoso. Trabalha tanto para ter uma coisa e eles vêm pegar”, diz. Foi apenas essa vez. Hoje, aposentado, ganha dois salários mínimos. Por isso, não tem outra saída. “Tenho que enfrentar o perigo e trabalhar”.

foto taxi

 

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