Antecedentes da exposição no Piracicabano

Algum tempo antes da exposição individual na Galeria Sempre-Viva, nos anos 60, o apego aos livros suplantou o interesse pelo ensino tradicional. Se por um lado ia mal nos estudos, a leitura preenchia uma solidão consentida, talvez congênita, e alimentava sonhos e adquiria conhecimento que a escola não oferecia. E também perdia oportunidades como a de aprimorar os estudos de inglês, no Instituto Cultural Brasil Estados Unidos, na Rua Boa Morte, entre as duas D. Pedro. Minha mente estava bloqueada para tudo o que não era arte. No Instituto havia uma biblioteca que possuía livros de arte como nunca tivera oportunidade de conhecer. Ali conheci os grandes nomes da pintura inglesa e americana, Turner, Rider, Eakins, o ilustrador Norman Hockwell, e outros, e também outra vez Rembrandt, muito Rembrandt. Apossava-me, enfim, da dramaticidade, dos claro-escuros, da gravura em metal, água-forte, água-tinta e ponta-seca.

Tivera já a oportunidade de conhecer a Biblioteca Municipal, mas os livros de arte eram escassos. Frequentava a seção infantil, lia Monteiro Lobato, tiras de quadrinhos de jornais e revistas, quando um dia o Jair Toledo Veiga Filho, que eu conhecia da Escola Dominical da Igreja Metodista, apareceu por lá, me deu um tapa no ombro e disse: “O que faz aqui? Venha, vou mostrar um outro lugar”. A biblioteca estava ainda na esquina da Rua Voluntários de Piracicaba com a Alferes José Caetano, um prédio velho, assoalhado, por onde nós dois caminhamos rangendo as tábuas do piso. Naquela manhã, o Jair me deu a conhecer um paraíso para minhas futuras fugas, um mar de livros dispostos em estantes que eu imaginei precisar, quem sabe, de duzentos anos para desfrutar de todos os segredos ali ocultos. Com a variedade de livros, levava-os para casa de três em três, Jack London, Edgar Rice Burroughs, acompanhava dramas alheios, viagens à África, aprendia poesia e elegia meu escritor predileto: Ernest Hemingway.

Depois, a participação de um concurso para bolsa de estudos no Curso de Arte da Escola de Música, tendo na banca examinadora a professora Clemência Pecorari Pizzigatti e o artista Ermelindo Nardin, me valeu um presente: a gratuidade de participar do curso de arte, de aprender mais, e de estar mais próximo de pessoas envolvidas com arte durante dois anos. E de conviver com o despreendimento da professora Clemência. Da escola íamos pintar ao ar livre e, em horário extracurricular, trabalhávamos em seu atelier. Através dos livros de Clemência, conheci uma nova realidade, até então desconhecida, que não mais se prendia nos moldes da academia: a Semana de Arte Moderna, as Bienais, a arte cinética, o abstracionismo, e nomes de artistas que jamais ouvira, como Clóvis Graciano, Marcelo Grassmann, Evandro Carlos Poyares Jardim, Rodin, tantos, impossível dizer o nome de todos. Eu não sabia: o mundo era livre, de uma liberdade impensada. Às vezes, Clemência me dizia: “Seu traço mudou, o que aconteceu?” Ora, estaria sempre mudando, tanta informação eu recebia.

Foi por essa época que, certo dia, Clemência me levou ao jornal do Cecílio Elias Netto, a “Folha de Piracicaba”, para ilustrá-lo com algumas xilogravuras. A matriz ia para a máquina de imprimir, os títulos das matérias eram catados letra a letra na caixa de tipos. Mais um tempo se passaria, finda a “Folha”, agora no “Diário de Piracicaba”. Tanto me identificaria com os tec-tec das máquinas de escrever, o ar esfumaçado e cheirando a cigarro, as conversas em alto som entre outras veladas escondendo segredos, a diagramação, a paginação, depois as rotativas, o ruído compassado das máquinas expelindo jornais e as vidas que ali se exauriam… Nada daquilo era comum. E que mistério havia naquelas pessoas que escreviam duas, três, quatro laudas de uma matéria ordinária com título sugestivo, e, depois, como se a transformasse numa novela, ia nelas acrescentando dados? Mágicos, eis o que eram. Eu não sabia, até então, que iria acompanhar toda a sofrida modernização da imprensa piracicabana, dela participando, quando os jornais deixaram as superadas linotipos, as letras de chumbo, para a composição a frio, com compuradores, alta tecnologia. Haveria de saber, então, quanto isso custaria. A mim e a outros.

Mais tarde, ao me apresentar em uma exposição, Clemencia se lembraria:

“Quando temos um jovem habilidoso e convicto dizendo querer estudar arte, é, para nós, uma felicidade. Colocamo-nos na posição de orientador com as responsabilidades de sempre entusiamá-lo e dar ‘armas’ técnicas para sua comunicação espontânea, original e realmente artística no sentido pleno. (…)”

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